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Em 2001, um iate refugiou-se em uma ilha remota no Atlântico; dias depois, seus habitantes empanaram peixe com coca

A história de Rabo de Peixe é uma das mais loucas do início do século XXI

(Reprodução/Xataka)
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Bárbara Castro

Redatora

A ilha de São Miguel, a maior e mais populosa dos Açores, é conhecida como "Ilha Verde" por causa de seus campos exuberantes. Em 2001, porém, era mais apropriado chamá-la de "ilha branca". Em uma daquelas histórias malucas que inspiram roteiristas da Netflix, dezenas de fardos de cocaína bruta começaram a chegar às margens de São Miguel, mais especificamente os da paróquia de Rabo de Peixe.

Eles foram trazidos pelo Atlântico, sem que ninguém em Rabo de Peixe pudesse explicar muito bem por que ou de onde vieram, mas mudou a história da ilha. Esse episódio foi retratado pela Netflix em um documentário sobre esse episódio, "White Tide: The Surreal Story of Rabo de Peixe".

Um veleiro à deriva

(Reprodução/Xataka)

Os Açores são um paraíso na terra, mas até mesmo o maior dos paraísos pode se tornar um inferno. Antonino Quinzi verificou isso no início de junho de 2001, enquanto pilotava um iate de 12 m pelo Atlântico em direção à Espanha.

Embora fosse um marinheiro experiente e tivesse recentemente concluído a rota Ilhas Canárias-Venezuela, perto dos Açores foi surpreendido por uma tempestade que danificou o leme de seu navio e ameaçou deixá-lo à deriva. Diante de tal cenário, Quinzi decidiu adiar seu plano original, que era navegar de volta da Venezuela para a Espanha e buscar refúgio em alguma enseada discreta de São Miguel.

Para os moradores da paróquia de Pilar da Bretanha, que viram seu iate aparecer no horizonte, Quinzi parecia apenas mais um marinheiro amador. Um dos muitos donos de veleiros que navegam pelo oceano sem pranchas suficientes e acabam se metendo em apuros, mas, neste caso, eles estavam errados. Quinzi era um navegador siciliano em dificuldades e, se parecia buscar refúgio na costa de São Miguel, era porque estava procurando um lugar o mais distante possível para esconder a carga que carregava.

A bordo de seu iate, além de comida e do que era necessário para sua longa viagem, escondeu centenas de quilos de cocaína da Venezuela. O fato é que Quinzi precisava chegar a um porto onde pudesse consertar seu iate e, por razões óbvias, não conseguiu fazer isso com os porões lotados de fardos. Para sair desse aperto, ele decidiu se livrar das drogas.

Algumas versões dizem que ele usou um barco para transportar parte da carga até uma caverna, mas teve que abortar a missão quando foi surpreendido por alguns pescadores. Seja verdade ou não, o fato é que, para se livrar de grande parte da mercadoria, Quinzi optou por outra solução, muito mais imaginativa... E arriscado.

Uma onda de fardos

Após garantir que os fardos não seriam danificados pela água do Atlântico, ele os colocou em redes de pesca e depois os submergiu na costa com a ajuda de correntes pesadas e uma âncora. Assim que terminou o trabalho, partiu para o porto de Rabo de Peixe, uma humilde e discreta vila de pescadores localizada a pouco mais de 20 quilômetros de onde havia escondido a carga.

O plano parecia perfeito. Pelo menos em teoria. O que Quinzi não esperava era que as mesmas ondas que o forçaram a buscar refúgio acabassem destruindo a rede que escondia os fardos, com o resultado consequente: dezenas de pacotes de coca começaram a emergir e as ondas os arrastaram em direção à costa.

O The Guardian explicou como o primeiro aviso oficial foi registrado em 7 de junho de 2001, apenas um dia depois de o iate ter sido visto rondando os penhascos. Enquanto caminhava por uma estrada de cal, um morador local encontrou um grande plástico preto que escondia o que pareciam ser dezenas de tijolos compactados. Ele alertou a polícia, que logo confirmou que havia 270 fardos pesando 300 kg.

Nos dias seguintes, as autoridades receberam avisos semelhantes de pessoas que encontraram fardos enquanto caminhavam pelas costas. Diz-se que, em duas semanas, os agentes coletaram mais de 400 kg, o que não é um saldo ruim se considerarmos que a polícia estimou que a carga total era em torno de 500 kg.

Mas e o resto da carga? Ao que parece, a maior parte daquela carga não apreendida acabou nas mãos dos habitantes de São Miguel, onde vivem apenas 140.000 pessoas. O foco está principalmente na cidade de Rabo de Peixe, uma das vilas mais empobrecidas de Portugal.

As histórias que circulam sobre como aquele narcótico chegou às suas ruas são tão bizarras, tão fora do comum e com consequências surreais, que até hoje é difícil saber se são fantasia ou fatos verdadeiros. Diz-se que pescadores despejavam colheres de chá de coca no café como se fosse açúcar, que havia casas onde o peixe começava a ser empanado com o pó branco e que havia até crianças que acreditavam que os fardos continham giz e o usavam para marcar as linhas de gol em um campo de futebol.

Realidade? Puro folclore?

Copos de Coca por 20 euros (ou menos)

(Reprodução/Xataka)

Também circulam histórias que mostram que nem todos em Ilha Verde eram tão ingênuos. Havia aqueles que viam na carga perdida de Quinzi uma oportunidade de enriquecer rápida e facilmente. 

Havia tanta coca (ou talvez tão pouca noção de seu valor real) que alguns moradores vendiam copos de cerveja cheios de coca pura por 20 euros. Outros dizem que você poderia comprar um desses copos por apenas cinco euros. A situação chegou a tal ponto que, no final de junho, a polícia já reconhecia o medo de um "tráfico massivo" de drogas e, em julho, os canais locais transmitiram mensagens alertando os moradores sobre os riscos envolvidos no consumo de drogas.

O problema não era só a enxurrada de coca, mas, sim, a ignorância. O vício em drogas não chegou à ilha com Quinzi,; antes do barco aparecer no horizonte, o problema que o local enfrentava era principalmente heroína e haxixe.

Em 2017, o El País recordou que essa nova realidade foi rapidamente sentida nos hospitais. "Tivemos 20 mortes e um número incontável de overdoses nas três semanas após o pouso. Mas essas são estatísticas não oficiais que improvisamos com a ajuda de médicos e profissionais de saúde", disse.

Desde então, vários veículos de mídia retornaram a São Miguel e Rabo de Peixe para descobrir como a ilha tem vivido nas últimas duas décadas. A pegada da coca ainda parece avassaladora. Em 2022, Ara afirmou que uma parte significativa da população de Rabo de Peixe teve problemas com a substância.

O problema não era apenas a quantidade de narcóticos, mas suas características. Análises posteriores mostraram que a pureza do alcaloide ultrapassou 80%. 

"Foi um pesadelo. Alguns jovens que nunca haviam tocado em um cigarro começaram a usar cocaína", lembra o Telegraph.

E Quinzi? O siciliano que começou a história acabou na prisão. A polícia conseguiu localizá-lo na casa de um pescador, prendê-lo e levá-lo para a prisão de Ponta Delgada para aguardar julgamento. Apenas uma semana e meia depois, ele conseguiu escapar em um episódio que seria tema de outro caso, mas não escapou da justiça por muito tempo.

Matéria traduzida e adaptada de Xataka*







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