O que parecia uma lancha de contrabando de drogas na costa de Almería era algo muito mais estranho: um iate artesanal movido a energia solar

Banhistas em Cabo de Gata confundiram embarcação estranha com lancha de contrabando de drogas ou um submarino

Guarda Civil descobriu que se tratava do Helios 11, iate artesanal movido a energia solar que navegou 6 mil km sem reabastecer

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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Banistas que tentavam escapar das altas temperaturas das recentes ondas de calor nadando em Cabo de Gata nos últimos dias observaram, atônitos, a passagem de uma embarcação muito incomum.

Ela navegava perto da costa, com um casco mais baixo que o normal e um motor extremamente silencioso. Não tinha mastro nem ponte visível. Alguns pensaram que era uma lancha de contrabando de drogas. Outros, simplesmente, pensaram que era um submarino.

Não era nenhum dos dois. Segundo o jornal Híbridos y Eléctricos, a embarcação que cruzava Las Salinas era o Helios 11. Quando uma lancha da Guarda Civil, igualmente intrigada com a aparência do barco, aproximou-se para inspecioná-lo mais de perto na praia de El Zapillo, encontrou apenas painéis solares e baterias.

O sonho de um finlandês que queria navegar gastando pouco

A pessoa que a Guarda Civil encontrou a bordo do barco é Lukas Sjöman, um aventureiro, designer e construtor finlandês do iate mais sustentável a navegar pela costa andaluza neste verão.

Ele mesmo o construiu, sem estaleiro, em um galpão em sua casa, e seu preço não ultrapassou o de um carro modesto. Como o próprio Sjöman explica em vídeos em seu canal no YouTube, levou cerca de 200 dias para concluir o casco, feito com madeira compensada naval e estrutura de fibra de vidro.

O resultado é um iate de 11 metros de comprimento, 2,4 metros de largura e pesando aproximadamente 1,5 tonelada. Por dentro, há espaço para alguns confortos, incluindo um fogão elétrico, uma geladeira compacta e um banheiro com vaso sanitário — o suficiente para viver a bordo, mas sem os luxos normalmente encontrados em iates de milionários.

No entanto, a obsessão de Sjöman não é navegar pelos portos mais exclusivos do Mediterrâneo, imitando o Koru de Jeff Bezos ou os superiates de sheiks árabes. Seu objetivo era criar o barco mais sustentável possível. Para isso, ele só precisava fazer uma coisa: olhar para o céu.

Todo o teto do Helios 11 é coberto por painéis solares e, como ele explica em seu canal, atinge uma potência de quase 6 kW, com planos já em andamento para uma expansão para 40 kW. O sistema opera a 48 volts e carrega as baterias enquanto o barco está em movimento. O motor elétrico, alimentado por painéis solares, permite um tempo de navegação praticamente ilimitado, já que não precisa parar para reabastecer como as alternativas a diesel ou híbridas.

Sjöman afirma que o barco consome menos energia navegando do que um liquidificador doméstico. Em um dia típico, ele percorre cerca de 270 quilômetros (145 milhas). Em condições climáticas adversas, a capacidade reduzida da bateria e o aumento da demanda de energia necessária para navegar em tempestades podem limitar essa autonomia a apenas 70 km (40 milhas por dia).

Helios 11 navegando perto da costa Helios 11 navegando perto da costa

Uma jornada de 6 mil quilômetros para testá-lo

E qual a melhor maneira de provar que um barco realmente funciona? Colocando-o à prova, é claro.

Sjöman embarcou em uma jornada de milhares de quilômetros para demonstrar que o Helios 11 é uma alternativa viável para a construção de iates acessíveis com sistemas de propulsão que não dependem de combustíveis fósseis.

A jornada do Helios 11 começou na Finlândia e percorreu rios e canais por diversos países europeus antes de chegar ao Mediterrâneo. Sjöman chegou a Ibiza após percorrer cerca de 5,7 mil quilômetros sem reabastecer. De lá, ele continuou seu cruzeiro único pelo Mediterrâneo, aproximando-se da costa da Andaluzia: Mazarrón, Cabo de Gata e agora Almería.

Helios 11 ancorado em Ibiza Helios 11 ancorado em Ibiza

A viagem não foi perfeita. Conforme relatado pelo Supercarblondie, enquanto ancorado na costa de San Carles de la Rápita (Tarragona), seu bote foi roubado. Ele teve que construir outro para continuar, pois o Helios 11 não consegue ancorar em águas rasas ou em pequenos cais para reabastecer, então, sem o bote, o finlandês ficou isolado a bordo. A energia solar resolve o problema do combustível. Mas não resolve a logística ou os desafios imprevistos de navegar sozinho.

Alternativa limpa aos iates mais poluentes

Os superiates de hoje priorizam o conforto e o luxo náutico em detrimento das emissões dos motores. As poucas alternativas híbridas que alternam entre motores elétricos e a diesel são voltadas para uma navegação e ancoragem mais silenciosas, não para a redução de emissões.

Segundo o relatório "A desigualdade nas emissões de carbono mata", da Oxfam International, os iates dos bilionários mais ricos geraram, em um único ano, uma pegada de carbono equivalente a 860 anos de emissões de uma única pessoa.

O problema com essas embarcações é que, como demonstrado pelos superiates apreendidos de milionários russos durante a guerra na Ucrânia, elas precisam manter os motores ligados para alimentar o ar-condicionado, o que impede a deterioração dos materiais preciosos do interior, resultando em um consumo de combustível de vários milhares de dólares por dia.

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