Uma padaria no México faliu e seus donos migraram para os EUA: mais de 20 anos depois, eles têm 12 filiais na Califórnia

Às vezes, um negócio pode desaparecer sem que o que o motivou desapareça também

Imagens | Barrio Donas
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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Uma padaria faliu; a receita, no entanto, sobreviveu. Mais de duas décadas depois, esse negócio familiar acabou se tornando uma loja de donuts na Califórnia, onde sabores como marzipã, cajeta (doce de leite caramelizado) e chocolate Abuelita ganharam uma nova vida.

Segundo o jornal El Sol de Tlaxcala, a história começa muito antes da existência do Barrio Donas e, na verdade, não começa com sucesso. Primeiro, houve a migração, um negócio que faliu e uma família que decidiu continuar fazendo algo que já sabia fazer muito bem: pão.

A padaria fechou, mas o saber-fazer pão não. E essa diferença acabou sendo muito mais importante do que parecia.

A padaria pode acabar, o trabalho é outra história

José Luis García nasceu em San Juan Ixtenco, Tlaxcala, e aprendeu o ofício de padeiro desde cedo. Aos oito anos, começou a se envolver nos negócios da família, primeiro com tarefas simples como limpar bandejas e ajudar na padaria, até que, aos poucos, aprendeu as técnicas necessárias para fazer pão.

Não foi um conhecimento adquirido em uma escola especializada. Ele aprendeu em casa, como parte de um ofício familiar que acabou levando consigo quando decidiu mudar para os Estados Unidos.

Aos 22 anos, ele chegou a San Diego e abriu a Best Donuts and Deli, com a intenção de continuar trabalhando na área que aprendera na infância, mas o negócio não deu certo e acabou em falência.

Embora sua história tenha tido um final incomum anos depois, o fracasso empresarial não é tão raro. O INEGI (Instituto Nacional de Estatística e Geografia do México) estimou que, entre maio de 2019 e maio de 2023, 1,4 milhão de micro, pequenas e médias empresas desapareceram no México. Mas um negócio pode fechar sem que tudo o que foi aprendido dentro dele desapareça.

Receitas podem ser passadas para outra pessoa, técnicas podem ser ensinadas à próxima geração e um ofício pode encontrar um mercado completamente diferente. Foi exatamente isso que aconteceu com a família García.

Segunda geração encontrou outra maneira de vender

Um dos aspectos únicos dos negócios familiares é que eles podem sobreviver mesmo quando a empresa que os originou desaparece. O forno pode parar de funcionar e a loja pode fechar, mas as receitas, as técnicas e o conhecimento adquiridos ao longo dos anos podem ser transmitidos para a próxima geração.

Jonathan García, filho de José Luis, também aprendeu as técnicas de fabricação de donuts com a família, enquanto sua esposa, Janet Martínez, tem formação em artes culinárias.

Em 2018, eles decidiram tentar algo diferente e criaram a Barrio Donas em San Diego. Desta vez, não se tratava simplesmente de repetir o negócio que havia fracassado anos antes.

A ideia era encontrar uma maneira de combinar o que haviam aprendido no México com o local onde viviam. E uma solução bastante simples surgiu: em vez de tentar trazer uma padaria mexicana autêntica para a Califórnia, eles poderiam adaptar esse conhecimento a um produto já familiar aos consumidores locais.

Original

Uma receita também muda quando cruza uma fronteira

Quando uma receita viaja de um país para outro, raramente permanece exatamente a mesma. Os ingredientes disponíveis mudam, os consumidores mudam e seus hábitos mudam; a concorrência também muda e, com ela, a forma como uma empresa precisa apresentar o que vende.

Isso ajuda a explicar a estratégia da Barrio Donas. O desafio não era simplesmente trazer os sabores mexicanos para a Califórnia, mas encontrar um formato familiar e usá-lo como veículo para esses sabores.

O donut resolveu parte do problema porque não precisava de muita explicação. Os consumidores sabiam o que era, mas podiam descobrir algo diferente ao prová-lo.

Um donut podia carregar um sabor familiar da infância. Um donut de marzipã podia evocar um doce mexicano; um donut de hibisco podia transformar uma bebida do dia a dia em um produto completamente diferente. A tradição ainda estava lá, mas o formato havia mudado.

E é exatamente aí que surge uma das partes mais interessantes da história: adaptar uma receita não significa necessariamente abandoná-la. Às vezes, significa encontrar o lugar e a apresentação onde ela possa funcionar novamente.

Eles não pararam apenas nos donuts

O conceito acabou se expandindo para além do produto que deu nome ao negócio. A Barrio Donas adicionou itens como tortas, tamales, pão mexicano, café de olla e águas frescas.

Com isso, o negócio deixou de ser apenas uma loja de donuts com sabores mexicanos. Tornou-se um ponto de encontro entre duas tradições culinárias que agora coexistiam no mesmo espaço.

E aqui a ideia de adaptação reaparece. A família não encontrou um nicho simplesmente trazendo a comida mexicana para os Estados Unidos, mas sim combinando o que já sabiam com produtos e formatos que o mercado local também reconhecia.

A tradição mexicana forneceu os sabores e as receitas. O mercado americano forneceu o contexto e os formatos familiares. O negócio foi construído exatamente no meio de ambos.

Ixtenco acabou chegando à Califórnia de uma inesperada

San Juan Ixtenco, em Tlaxcala, foi o ponto de partida de um ofício que mais tarde cruzou uma fronteira e se transformou. José Luis trouxe consigo o conhecimento adquirido desde a infância. Sua primeira padaria não deu certo, mas o ofício foi passado para a próxima geração e acabou se tornando a base de um negócio diferente.

A trajetória pode ser resumida quase como uma pequena cadeia: Ixtenco, San Diego, fracasso, nova geração, adaptação e Barrio Donas. A primeira padaria desapareceu, mas o que havia por trás dela continuou a evoluir até encontrar outro mercado.

Donuts

Migração também transforma a comida

É fácil pensar na migração como um movimento de pessoas que levam consigo seus costumes. A comida demonstra que o processo é muitas vezes muito mais complexo.

Uma receita muda ao cruzar uma fronteira porque os ingredientes, os consumidores e a forma como a consomem mudam. E, às vezes, essa mistura produz algo que não existia exatamente em nenhum dos dois lugares.

O Barrio Donas é um pequeno exemplo de um fenômeno muito maior. A comida mexicana não é apenas levada para outros países; ela também se transforma ao chegar. Os sabores permanecem reconhecíveis, mas podem aparecer em novos formatos, combinar-se com outras tradições ou adaptar-se a consumidores que não cresceram com eles.

A padaria desapareceu, a tradição não

Vista da Califórnia, a história pode parecer a de uma família que prosperou após imigrar, mas suas origens são bem menos perfeitas. Primeiro, houve uma padaria que não deu certo; depois, uma família preservou a tradição; e, finalmente, uma nova geração surgiu e encontrou outra maneira de utilizá-la.

Mais de 20 anos depois, o conhecimento que começou em Ixtenco se transformou em um conceito que combina donuts americanos com sabores mexicanos.

A família não trouxe uma padaria mexicana intacta para a Califórnia. Trouxeram algo mais difícil de transportar: o conhecimento para fazê-la. Depois, tiveram que descobrir o que fazer com ele.

E a resposta acabou sendo um donut recheado com marzipã, cajeta (doce de leite caramelizado), chocolate quente Abuelita ou hibisco. Às vezes, uma tradição não sobrevive por permanecer a mesma. Ela sobrevive porque alguém encontra uma nova maneira de fazê-la.

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