A cada ano, Burt Reynolds recebia um Pontiac Trans Am novo totalmente de graça, até que um novo CEO chegou

Burt Reynolds estrelou um filme que transformou um carro em lenda e, como agradecimento, a Pontiac lhe enviava um modelo novo todo ano — até que uma mudança na presidência pôs fim à tradição.

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Bárbara Castro

Redatora

Um carro preto e dourado rasga as estradas da Geórgia em alta velocidade, perseguido por uma legião de viaturas da polícia. Logo à frente, cerveja contrabandeada viaja escondida em um caminhão. Era assim que começava um filme em que ninguém apostava nada, mas que, por caprichos da bilheteria, acabou transformando a história de toda uma montadora.

Durante anos, o ator que protagonizou o longa foi presenteado com um bônus que não constava em nenhum contrato: um reluzente Pontiac Trans Am preto e dourado, idêntico ao que ele pilotava na ficção, sem pagar absolutamente nada por isso. Tudo isso apenas por ter feito meio mundo gargalhar. Isso até que uma troca de comando na diretoria decidiu colocar um ponto final na regalia.

Uma comédia em que ninguém apostava

Nos Estados Unidos, o longa estreou como "Smokey and the Bandit" — lançado no Brasil como Agarra-me se Puderes. O projeto nasceu de um roteiro escrito à mão por um dublê de Hollywood: Hal Needham. Quase ninguém o levava a sério como diretor, e o único estúdio que aceitou produzir o filme cortou seu orçamento no último minuto para 4,3 milhões de dólares. 

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Ainda assim, a recepção do público foi muito mais calorosa do que a dos investidores: o filme arrecadou mais de 126 milhões de dólares só nos Estados Unidos. A produção se consagrou como a segunda maior bilheteria de 1977, ficando atrás apenas de Star Wars, como confirma o registro da obra.

O Trans Am virou o grande coadjuvante de luxo

Quando o estúdio aprovou as gravações, o cineasta queria um carro com personalidade marcante para o personagem Bo "Bandit" Darville. Ele encontrou o que procurava no anúncio do novo Pontiac Firebird Trans Am. A fabricante até cedeu quatro unidades para as filmagens, sem imaginar a proporção que aquilo tomaria. Além desses quatro veículos, a marca não gastou um único centavo em publicidade e ganhou a melhor campanha de sua história: um filme que transformou um de seus modelos em pura obsessão.

"As vendas dispararam assim que o filme estreou", relembrou o próprio Needham anos depois, em entrevista publicada pela Hagerty. Na prática, a Pontiac acumulou um acréscimo de 25.000 unidades vendidas do Trans Am apenas em 1978. O veículo deixou de ser mero item de cena e virou lenda do asfalto, entrando para o seleto grupo de veículos lendários do cinema, em que carro e filme se tornam inseparáveis.

Um Trans Am novo todo ano, sem pedir nada em troca

Em sinal de gratidão pela visibilidade estrondosa, o presidente da Pontiac, Alex Mair, quis agradecer pessoalmente ao astro pelo papel desempenhado naquele sucesso imprevisto: prometeu a Reynolds um Trans Am zero-quilômetro a cada ano, pelo resto de sua vida.

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Reynolds relatou esse acordo mais tarde em entrevista à revista Car and Driver. Durante cinco anos consecutivos, um novo esportivo chegava pontualmente à sua porta, cumprindo à risca a promessa de Mair. O ator distribuía a maioria dos carros entre familiares: o primeiro foi para sua irmã, o segundo ficou com o meio-irmão e do terceiro ele nem sequer lembrava o paradeiro. Burt guardou apenas o quarto modelo, que décadas depois acabou sendo leiloado por 450.000 dólares, bem acima do valor previsto.

A ligação que mudou as regras do jogo

No entanto, a partir do sexto ano, os carros pararam de chegar. Achando que poderia ser apenas uma falha logística, o próprio ator ligou para a Pontiac para entender o que estava acontecendo. "Aquele era o presidente anterior. Ele gostava dos seus filmes. Eu sou o novo presidente. E eu não gosto dos seus filmes", responderam a ele, de acordo com uma entrevista publicada pelo site Jalopnik.

Alex Mair havia se aposentado e cedido a cadeira a Robert C. Stempel, executivo notoriamente menos fã de Reynolds do que seu antecessor. Com uma resposta tão seca quanto definitiva, o novo líder encerrou de vez os mimos que o astro vinha desfrutando.

Burt Reynolds faleceu em 2018, dois anos antes de a Pontiac desaparecer definitivamente como marca na reestruturação da General Motors. O Trans Am preto e dourado, contudo, continua sendo negociado até hoje como peça de colecionador: uma lenda automotiva que um filme modesto transformou em mito e que nenhum CEO ranzinza conseguiu apagar.

Matéria traduzida de Xataka*

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