O Brasil está arrasando na ciência e conquistando espaço internacionalmente em fóruns de alto nível. A doutoranda Rute Isabel Honorio, da Universidade de São Paulo (USP), recebeu o prêmio de melhor apresentação oral durante a reunião da Junior European Calcium Society, realizada entre os dias 1 a 4 de fevereiro, em Doha, no Qatar.
O encontro é voltado a jovens pesquisadores e doutorandos que atuam na área de sinalização e homeostase do cálcio, que são processos celulares fundamentais para o funcionamento do organismo e para a compreensão de diversas doenças. Organizado pela European Calcium Society, o evento reúne especialistas internacionais e funciona como um dos principais espaços de troca científica e validação de pesquisas nessa área.
Rute se destacou no encontro a partir de sua pesquisa que investiga um momento chave do ciclo da malária que pode abrir portas para novas estratégias de tratamento contra a doença.
A sinalização de cálcio que pode mudar o entendimento sobre o parasita
O prêmio internacional tem relação direta com o foco da pesquisa de Rute: entender como o parasita da malária sobrevive e se multiplica no sangue humano. Doutoranda do Programa de Fisiopatologia e Toxicologia da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, ela estuda os mecanismos celulares que permitem ao parasita invadir novas células e manter a infecção ativa.
O ponto central do trabalho está em um instante crítico da doença, que é quando o parasita rompe as hemácias para infectar outras células. Esse processo é responsável pelos sintomas clássicos da malária, como febre alta, calafrios e sudorese. É aí que está o “segredo” revelado pela pesquisadora.
Utilizando técnicas avançadas de imagem celular, Rute identificou um padrão oscilatório de cálcio que antecede a ruptura da membrana da célula infectada. Em outras palavras, ela mostrou que existe um sinal bioquímico específico, uma espécie de comando celular, que prepara o parasita para destruir a hemácia e continuar seu ciclo. Ao mapear as vias de sinalização envolvidas, a pesquisadora detalhou como o cálcio atua como um gatilho para a propagação da infecção, uma descoberta que pode orientar o desenvolvimento de novos tratamentos contra a doença.
Alta incidência, risco de formas graves e cepas resistentes: por que estudar o ciclo do parasita é fundamental no combate à malária?
Rute foi premiada com a melhor apresentação oral durante a reunião da Junior European Calcium Society. Créditos: Linkedin
Mas se existe cura para a malária, porque pesquisas como a de Rute ainda são tão importantes? A resposta está nos números e na complexidade da própria doença, já que, apesar do tratamento disponível, a malária continua sendo um desafio para saúde pública.
A doença é causada por parasitas do gênero Plasmodium e transmitida pela picada da fêmea do mosquito do gênero Anopheles. Não há transmissão direta de pessoa para pessoa: o ciclo envolve o parasita, o mosquito vetor e o ser humano, em uma cadeia biológica que depende de múltiplos fatores ambientais e celulares. O reconhecimento internacional da pesquisadora ganha ainda mais relevância quando se observa o impacto global da malária.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, em 2023, o mundo registrou 263 milhões de casos e cerca de 597 mil mortes por malária, afetando principalmente crianças e gestantes. No Brasil, a maioria dos registros se concentra na região amazônica, onde circulam principalmente o Plasmodium vivax e o Plasmodium falciparum, este último associado às formas mais graves da doença.
Embora a doença tenha cura e tratamento gratuito oferecido pelo SUS, a malária pode evoluir para quadros graves se não for diagnosticada e tratada rapidamente. Além disso, o avanço de cepas resistentes aos medicamentos atuais reforça a urgência de novas abordagens científicas, e é justamente nesse ponto que a pesquisa de Rute se destaca.
Ao investigar, em nível celular, os mecanismos que regulam o ciclo de vida do parasita dentro das hemácias, a pesquisadora ajuda a identificar possíveis pontos vulneráveis do microrganismo e, com isso, desenvolver terapias mais eficazes e reduzir a resistência.
Ver 0 Comentários