Netuno é um planeta estranho, tanto por si mesmo quanto pelo seu entorno. Para começar, ele está inclinado de uma forma um tanto incomum. Seu eixo é de 28°. Não é nada absurdo se comparado aos 23° da Terra. No entanto, isso ainda é bastante desconcertante porque, segundo os modelos tradicionais de formação planetária, ele deveria estar muito mais próximo de zero.
Além disso, a maioria das luas de Netuno é bem diferente das dos outros gigantes gasosos. Mas ele só tem uma que poderia se encaixar nas previsões. O que aconteceu com as demais? Essa pergunta intriga os astrônomos há muito tempo. Agora, graças a dois estudos recentes, há hipóteses para cada um desses fenômenos. O curioso é que ambos apontam a “culpa” de Tritão.
Segundo modelos recentes apresentados em dois estudos distintos (um do Space Telescope Science Institute e outro da UNESP), as anomalias de Netuno podem ter sido causadas pela irrupção de sua lua Tritão em seu sistema de satélites. Possivelmente, nos primórdios de Netuno, havia várias luas orbitando ao seu redor, todas no mesmo sentido. No entanto, um objeto do cinturão de Kuiper que passou por ali se aproximou o suficiente para ser capturado gravitacionalmente por Netuno. Ele se movia em sentido contrário, então invadiu violentamente o sistema de luas, como um carro entrando na contramão numa via expressa.
Com isso, muitas luas foram arremessadas para fora da órbita de Netuno. Outras foram simplesmente destruídas. Apenas uma, Nereida, permaneceu, mas em uma órbita muito mais alongada. Quanto a Netuno, seu eixo sofreu uma nova inclinação que não se encaixa nos modelos de uma formação planetária tranquila.
Pistas que não se encaixavam
Netuno tem 16 luas ao seu redor. A mais estranha é Tritão, porque gira no sentido contrário ao de Netuno e, por sua composição, parece mais um objeto do cinturão de Kuiper do que uma lua de um gigante gasoso. Depois temos Nereida, que está em uma órbita anormalmente elíptica, na qual leva 360 dias para dar uma volta completa ao planeta. As demais são satélites muito mais homogêneos, mas pequenos demais e pouco massivos para o que se esperaria de luas de um gigante gasoso.
Nereida, por ter uma órbita tão incomum, há muito tempo chama a atenção dos astrônomos. Quando foi analisada em detalhes recentemente usando o Telescópio Espacial James Webb, os cientistas perceberam que a sua composição não se parece com a de objetos do cinturão de Kuiper (de onde se suspeita que Tritão veio), e sim que ela é mais parecida com as luas geladas típicas de outros gigantes gasosos, como as de Saturno ou Urano. Com tudo isso em mente, decidiu-se realizar uma série de simulações computacionais, graças às quais já temos uma resposta.
Em 20% das simulações, o resultado foi um cenário desencadeado por Tritão. Quando ele foi capturado por Netuno, destruiu o sistema de satélites original do planeta, como vimos anteriormente. Nereida resistiu sem ser destruída ou ejetada da órbita. No entanto, sua órbita foi deformada, dando origem à trajetória incomum que possui hoje.
Quanto às demais luas, muitas delas se transformaram em detritos que se reagruparam pela gravidade, formando os anéis de Netuno. Além disso, alguns desses fragmentos deram origem às pequenas luas que hoje orbitam o planeta. Tritão, o objeto externo causador do caos, permaneceu em uma órbita relativamente estável, tornando-se apenas mais uma lua. Ainda assim, uma lua que gira no sentido contrário, como uma pista do caos cósmico que provocou no passado.
Tudo isso faz bastante sentido, mas ainda não deixa de ser uma hipótese com uma taxa de acerto não muito alta nas simulações. Os autores do estudo insistem que será necessário enviar uma sonda para estudar Netuno de perto e esclarecer as respostas. Ainda assim, é possível que Nereida seja a única lua capaz de nos contar algo realmente sobre o passado de Netuno. Ela é uma lua estranha, mas justamente por ter sobrevivido por tanto tempo.
Imagem | NASA, ESA, CSA, STScI, Joseph DePasquale (STScI), Naomi Rowe-Gurney (NASA-GSFC)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
Ver 0 Comentários