Um estudo publicado na semana passada (19/2) na revista Science revelou que os tumores de gatos domésticos compartilham mutações genéticas muito semelhantes às do câncer humano, incluindo alterações ligadas a formas mais agressivas da doença. A pesquisa analisou amostras de tumores de 493 felinos, coletadas em cinco países, e mapeou quase mil genes associados ao desenvolvimento de diferentes tipos de câncer.
O estudo é gigantesco: reuniu cerca de 20 instituições de diferentes países e resultou no oncogenoma felino mais completo já descrito até então. Na prática, isso significa que os cientistas conseguiram identificar os chamados genes condutores, aqueles que realmente impulsionam o crescimento dos tumores, e constatar que muitos deles são os mesmos observados em pacientes humanos. É justamente esse detalhe que pode aproximar os tratamentos oncológicos veterinários e humanos, algo completamente inédito na ciência, abrindo caminho para terapias mais direcionadas e potencialmente mais eficazes em ambas as espécies.
Gene FBXW7: a mutação que aproxima o câncer de mama felino do humano
Há quem diga que os gatos são parecidos com os humanos nos hábitos: dividem a casa, a rotina e até o estresse do dia a dia. O que os cientistas não imaginavam era que essa semelhança também apareceria de forma tão clara no DNA, mais especificamente, em um gene ligado ao desenvolvimento de tumores agressivos.
Ao mapear 13 tipos principais de câncer, os pesquisadores encontraram um protagonista recorrente no câncer de mama felino: o FBXW7. Mais de 50% dos tumores mamários analisados apresentavam mutações nesse gene. Essa informação chama atenção porque, nos humanos, alterações no FBXW7 também estão associadas a formas mais agressivas da doença e a pior prognóstico. Isso significa que não se trata apenas de uma coincidência genética: o comportamento do tumor é semelhante nas duas espécies.
Outro ponto relevante envolve o câncer de mama triplo-negativo, um dos subtipos mais agressivos da doença em mulheres. Nos gatos, esse tipo de tumor mamário também é frequente e apresenta características muito próximas às observadas em pacientes humanos.
Mas a melhor parte disso tudo é que há um possível caminho terapêutico: amostras com mutação no FBXW7 demonstraram maior sensibilidade a determinados quimioterápicos, como os alcaloides da vinca, já usados na oncologia humana. Embora os testes tenham sido feitos em tecido tumoral, a descoberta pode abrir espaço para terapias mais direcionadas, tanto na medicina veterinária quanto na humana.
Não é só câncer de mama: gatos podem se tornar modelo natural para estudar tumores humanos
As semelhanças não se limitaram apenas ao câncer de mama. Os cientistas identificaram também mutações condutoras equivalentes às humanas em tumores de sangue, ossos, pulmões, pele, trato gastrointestinal e sistema nervoso central. Isso ajuda a explicar por que os gatos podem ser “modelos” mais realistas do que animais de laboratório tradicionais.
Diferentemente dos camundongos, que têm tumores induzidos artificialmente, os felinos desenvolvem câncer de forma espontânea, vivendo nas mesmas casas, respirando o mesmo ar e expostos aos mesmos fatores ambientais que seus tutores. A base genética reforça essa proximidade, já que cerca de 90% dos genes dos gatos domésticos são homólogos aos humanos, proporção superior à observada em cães ou roedores.
No fim das contas, esse “detalhe incrível” não é apenas uma mutação específica. É a constatação de que os tumores dos gatos funcionam de maneira extraordinariamente parecida com os nossos, pois compartilham genes condutores, padrões de agressividade e até possíveis respostas a medicamentos. Com isso, os pesquisadores abrem uma nova frente de investigação que pode tornar tratamentos mais precisos e eficazes para as duas espécies.
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