Ele entrava na emergência desorientado, falava arrastado e apresentava níveis elevados de álcool no sangue, sinais que indicavam embriaguez. O detalhe curioso é que ele afirmava que não havia bebido uma gota de álcool. Por cerca de seis anos, um aposentado da Marinha dos Estados Unidos viveu episódios recorrentes de ficar bêbado sem ingerir álcool.
Ele foi desacreditado por médicos e chegou a enfrentar problemas com a polícia, até que a ciência encontrou uma explicação para o ocorrido: seu próprio intestino estava produzindo etanol. O caso, registrado após anos de investigação clínica, revelou uma condição rara e levou a um tratamento tão incomum quanto a causa do problema.
Idoso americano sofria com embriaguez sem ingerir álcool e não foi levado a sério por médicos
Antes de começar a apresentar sintomas, o idoso de 60 anos levava uma vida considerada saudável, praticava atividades físicas e consumia álcool apenas de forma ocasional. Mas quando ele precisou passar por sucessivos tratamentos com antibióticos para uma inflamação na próstata, por volta de 2011, tudo mudou. Mesmo sem beber, ele começou a apresentar sinais claros de embriaguez, como sonolência extrema, comportamento desorientado, lapsos de memória, dificuldades cognitivas e até agressividade: tudo isso após as refeições.
As crises se repetiram por aproximadamente 6 anos. Ele foi várias vezes na emergência para buscar um diagnóstico, mas o problema é que os médicos não acreditavam em sua versão de que não havia ingerido álcool. Em um dos episódios mais graves, ele foi detido por dirigir alcoolizado, com níveis de álcool no sangue acima do limite legal, apesar de jurar que estava sóbrio. Ele acabou sendo preso e a desconfiança constante, somada à falta de respostas, fez com que o caso se arrastasse por quase seis anos até que uma investigação mais aprofundada fosse iniciada.
Síndrome da autofermentação: bactérias no intestino transformam carboidratos em álcool e fazem o corpo produzir etanol sozinho
Depois de anos sendo desacreditado, médicos finalmente levaram o caso a sério e levantaram uma hipótese improvável: a síndrome da autofermentação intestinal. Trata-se de uma condição rara em que microrganismos do intestino transformam carboidratos ingeridos em etanol, produzindo álcool diretamente dentro do corpo. O resultado é um estado de embriaguez, mas sem ingestão alcoólica.
Uma pesquisa publicada na revista Nature Microbiology identificou bactérias específicas associadas a esse processo, como Escherichia coli e Klebsiella pneumoniae, além de leveduras conhecidas por seu papel na fermentação, como Saccharomyces cerevisiae. Em pessoas com a síndrome, esses microrganismos aparecem em quantidades muito maiores do que o normal, ativando vias metabólicas que convertem açúcares em álcool.
No caso do aposentado, exames de fezes revelaram a presença dessas leveduras e bactérias em níveis elevados. Para confirmar o diagnóstico, os médicos realizaram um teste controlado: após a ingestão de carboidratos, o nível de álcool no sangue subiu horas depois, sem qualquer consumo externo. Com isso, conseguiram confirmar que o intestino dele estava, literalmente, produzindo álcool.
Tratamento radical conseguiu interromper a embriaguez
Após receber o diagnóstico, o processo até encontrar o tratamento adequado não foi simples nem rápido. Dietas extremamente restritivas em carboidratos, antifúngicos e antibióticos foram tentadas ao longo do tempo, mas os resultados foram instáveis e com recaídas frequentes. Em um dos episódios mais extremos, o homem chegou a registrar uma taxa de álcool no sangue considerada potencialmente fatal.
Os médicos indicaram então um tratamento nada convencional: transplante de fezes, também conhecido como transplante de microbiota fecal. O procedimento consiste na introdução de bactérias intestinais saudáveis, obtidas das fezes de um doador, para substituir o microbioma desequilibrado do paciente. Após múltiplas aplicações, combinadas com ajustes no tratamento medicamentoso, os episódios de embriaguez desapareceram. Mais de um ano depois, o homem conseguiu voltar a ter uma alimentação normal,incluindo carboidratos, sem apresentar novos sintomas.
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