Um composto presente em ascídias, animais marinhos consumidos como iguaria em alguns lugares da Ásia, pode ajudar a combater alterações associadas ao envelhecimento cerebral. A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Stanford, da Universidade Xi'an Jiaotong-Liverpool, da Universidade Shanghai Jiao Tong e da Universidade da Academia Chinesa de Ciências, em um estudo publicado na revista Frontiers in Molecular Biosciences. Nos experimentos, camundongas idosas receberam plasmalogênios, lipídios encontrados em altas concentrações nas ascídias, durante dois meses. Para a surpresa dos cientistas, ao final do experimento, os animais apresentaram melhora em testes de memória e aprendizado, além de mais conexões neurais e menor inflamação no hipocampo.
Plasmalogênios ajudaram a recuperar memória e conexões no cérebro envelhecido
Os pesquisadores foram além dos testes de memória para entender o que poderia estar por trás dessas mudanças no cérebro dos animais. A investigação levou aos plasmalogênios, um tipo de fosfolipídio que participa da estrutura e do funcionamento das membranas celulares. Essas moléculas estão presentes naturalmente no organismo e são abundantes no cérebro, coração e células imunológicas, mas seus níveis geralmente diminuem com o envelhecimento. Reduções semelhantes também já foram associadas a doenças neurodegenerativas, como o Alzheimer e o Parkinson.
Para descobrir o que aconteceria ao repor essas moléculas, a equipe utilizou camundongas C57BL/6J, a linhagem de roedores de laboratório mais famosa e utilizada no mundo para pesquisas científicas e biomédicas. Aos 16 meses de idade, os animais foram divididos entre um grupo que recebeu plasmalogênios e outro que permaneceu como controle. A suplementação foi administrada diariamente, cinco dias por semana, durante dois meses, até os animais chegarem aos 18 meses.
A diferença apareceu primeiro nos testes de comportamento. Os pesquisadores utilizaram o labirinto aquático de Morris, experimento em que os animais precisam encontrar uma plataforma escondida na água. Depois de cinco dias de treinamento, os camundongos que receberam plasmalogênios encontraram a plataforma mais rapidamente do que os idosos que não receberam a substância. No teste de memória espacial, eles também passaram mais tempo na região onde a plataforma costumava ficar e cruzaram esse ponto mais vezes. Além disso, ao analisar o hipocampo, região cerebral importante para aprendizado e memória, os cientistas encontraram sinais de que as estruturas responsáveis pela comunicação entre os neurônios estavam mais preservadas. Os principais efeitos observados foram:
- Mais sinapses: os animais tratados apresentaram maior quantidade e densidade de conexões neurais no hipocampo;
- Mais vesículas sinápticas: essas estruturas participam da comunicação entre os neurônios e estavam mais preservadas nos animais que receberam plasmalogênios.
- Maior plasticidade sináptica: a quantidade de sinaptofisina, proteína associada às vesículas sinápticas, aumentou nos animais tratados;
- Mais células-tronco neurais: houve aumento de células positivas para Sox2 no giro denteado do hipocampo, sinal associado à neurogênese;
- Menos neuroinflamação: a suplementação reduziu a ativação da micróglia e os níveis de moléculas inflamatórias como IL-1β, IL-6 e TNF-α;
Em outras palavras, o tratamento pareceu atuar em diferentes partes do envelhecimento cerebral ao mesmo tempo: preservou conexões existentes, estimulou processos ligados à formação de novas estruturas neurais e reduziu um ambiente inflamatório que pode prejudicar o funcionamento do cérebro.
Estudo aponta regeneração neural, mas resultado ainda está longe de valer para humanos
O consumo de ascídias é uma tradição gastronômica marcante em algumas regiões da Ásia, com destaque quase absoluto para a Coreia do Sul e o Japão
Os pesquisadores também tentaram entender como os plasmalogênios poderiam produzir esses efeitos. A análise genética do hipocampo encontrou 802 genes com expressão diferente entre os animais idosos tratados e os do grupo de controle. Essas alterações estavam relacionadas a processos envolvendo sinapses, neurogênese, células-tronco neurais, desenvolvimento do sistema nervoso e metabolismo de lipídios.
Uma das hipóteses é que os plasmalogênios favoreçam a neurogênese e a sinaptogênese, ajudando o cérebro envelhecido a formar e manter conexões. Como essas moléculas também fazem parte das membranas das sinapses e das vesículas que participam da comunicação entre neurônios, alterações na quantidade de plasmalogênios podem influenciar diretamente a forma como essas estruturas funcionam.
Outra possibilidade envolve a micróglia, conjunto de células que atua na defesa e manutenção do sistema nervoso. No cérebro envelhecido, essas células podem assumir um estado mais inflamatório. No experimento, os animais tratados apresentaram micróglia com características mais semelhantes às observadas em camundongos jovens, além de níveis menores de citocinas pró-inflamatórias.
Os cientistas também levantam a possibilidade de que parte dos efeitos esteja relacionada ao eixo intestino-cérebro. Estudos anteriores citados pelos autores indicam que plasmalogênios obtidos pela alimentação podem afetar microrganismos intestinais, que, por sua vez, podem influenciar processos no cérebro. No entanto, o próprio estudo destaca que ainda não está claro exatamente como os plasmalogênios ingeridos chegam às células neurais.
Há ainda um detalhe importante, mas curioso: além das mudanças cognitivas, os camundongos idosos tratados desenvolveram pelos mais espessos, brilhantes e escuros. Segundo os pesquisadores, novos pelos pretos começaram a aparecer por volta da terceira semana de suplementação.
Apesar dos resultados, ainda é cedo para criar expectativas. O experimento foi realizado em camundongas, não em seres humanos, e os próprios pesquisadores apontam que ainda são necessários estudos para descobrir se o efeito se repete em pessoas, qual seria uma dose adequada e se a suplementação prolongada seria segura. Portanto, comer ascídias ou tomar suplementos de plasmalogênio não pode ser considerado, com base nesse estudo, uma forma comprovada de reverter o envelhecimento cerebral humano.
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