O segredo da extinção das aves primitivas estava escondido no lugar mais inesperado: um cocô de dinossauro

Uma simples pena nos deu pistas de como algumas aves podem ter sobrevivido

Fóssil
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Há ocasiões em que as descobertas paleontológicas mais revolucionárias não vêm de um esqueleto completo e perfeitamente articulado, mas dos lugares menos glamorosos. Para ver um exemplo dessa situação, precisamos voltar a 2016, quando uma equipe de pesquisadores encontrou na famosa Formação Hell Creek um excremento fossilizado. E, embora tudo parecesse indicar que se tratava apenas de uma deposição de um dinossauro carnívoro do Cretáceo Superior, a realidade é que aquele cocô acabou se revelando uma cápsula do tempo.

Os pesquisadores analisaram o fóssil e publicaram suas descobertas em um estudo de 2026 que revela que, em seu interior, esse coprólito esconde penas tridimensionais extraordinariamente bem preservadas. Isso lança uma nova luz sobre uma das grandes questões da paleontologia: por que algumas aves sobreviveram ao asteroide que dizimou os dinossauros e outras não?

Para saber o que havia dentro desse fóssil sem destruí-lo, os pesquisadores recorreram à microtomografia computadorizada e a análises mineralógicas. O resultado indicou que o excremento continha várias penas, pequenos ossos das patas de uma ave e duas minúsculas escamas de um peixe. Em suma, estamos diante da dieta que o dinossauro teve antes de morrer.

O mais interessante é que, graças à associação entre os ossos e as penas, foi possível deduzir que a presa devorada foi um hesperornitiforme, um tipo de ave aquática dentada, adaptada ao mergulho e, em sua maioria, incapaz de voar. Embora algumas fontes no passado tenham afirmado que essa ave “não era aparentada com as aves modernas”, isso é um erro, pois os hesperornitiformes pertencem à linhagem das aves e são parentes próximos das Neornithes (o grupo que engloba todas as aves atuais), embora não façam parte dele.

A extinção

O aspecto mais interessante dessa descoberta está na hipótese apresentada sobre a extinção em massa. Hoje sabemos que o impacto do asteroide de Chicxulub lançou quantidades massivas de poeira de silicatos, fuligem e aerossóis de enxofre na atmosfera. Isso teve consequências importantes, como o bloqueio da luz solar durante cerca de 15 anos, que interrompeu completamente a fotossíntese durante dois anos e derrubou a temperatura global em uma média de 15 °C.

É aqui que as penas do coprólito ganham sentido, pois, embora essas aves tivessem um excelente design para mergulhar e repelir a água, sua morfologia sugere que ofereciam menor isolamento térmico do que a plumagem das espécies que sobreviveram.

Os pesquisadores teorizam que, diante de um inverno global muito rigoroso, repentino e prolongado, aves primitivas como os hesperornitiformes, com uma plumagem menos isolante, literalmente congelaram ou não conseguiram manter a temperatura corporal, o que contribuiu para sua extinção.

O estudo não afirma, porém, que o frio seja a única causa. Pesquisas anteriores já apontavam que as aves que sobreviveram eram pequenas, terrestres e capazes de se alimentar de sementes persistentes no solo. Provavelmente, a sobrevivência das aves modernas (e a extinção das primitivas) foi resultado de um conjunto de fatores: seu tamanho, sua dieta, sua capacidade de termorregulação e, como nos ensinou esse peculiar excremento fossilizado, a qualidade de seu abrigo de penas.

Imagens | Antonio Mistretta (Pexels)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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