É muito provável que, em algum momento da sua vida, você tenha se deparado com a ideia do cérebro reptiliano, já que 70 anos de cultura geek se encarregaram de disseminá-la. Dizem que é a região mais antiga do cérebro, responsável por todos aqueles impulsos primitivos aos quais costumamos ceder. Se o normal é agirmos com a razão, é porque existe outra camada encarregada de raciocinar e frear esses impulsos.
Em meados do século passado, o neurocientista Paul MacLean dividiu a evolução do cérebro em três fases. Se as mais modernas correspondiam ao mamífero emocional e ao racional, a base que sustentava ambas era o cérebro reptiliano — herdado de nossas origens evolutivas e representante do nosso passado mais selvagem. Agora, um novo estudo veio explicar o que realmente acontece em nossa cabeça.
Nem primitivo nem reptiliano: organizado
Conforme publicado na revista Science Advances, o estudo de 182 espécies de mamíferos revelou um padrão que derruba completamente a teoria do cérebro reptiliano. A chave está na diferença de tamanho entre certas áreas do cérebro. Embora antigamente se acreditasse que essas áreas mais desenvolvidas pertenciam a partes primitivas, a verdade é que tudo depende do animal em questão e, mais ainda, das tarefas a que estão habituados.
Se um animal depende do olfato para sobreviver e outro depende da visão, o normal é que essas áreas específicas estejam mais desenvolvidas, ganhando espaço em relação àquelas menos utilizadas. No entanto, a razão para isso não reside em um sistema primitivo que dita esse caminho de desenvolvimento, mas sim na forma como o cérebro organiza as informações.
Animais que dependem mais da visão, da audição e do tato funcionam melhor com um sistema mais organizado em certas regiões, enquanto aqueles guiados pelo olfato apresentam uma organização muito mais distribuída por todo o cérebro. É nessa diferença abismal entre os dois sistemas que a teoria do cérebro reptiliano é, principalmente, refutada.
Ao recriar ambos os sistemas por meio de redes neurais, demonstrou-se que não possuímos um cérebro primitivo que dispara impulsos descontrolados e outro que o regula com base na razão. Estamos diante de um sistema que já vem preparado desde o nascimento e que, mesmo antes de começar a aprender, já sabe como lidar com essas informações e responder a certos estímulos.
Se tudo isso é importante hoje em dia, é porque — além de derrubar alguns mitos pelo caminho — o treinamento da inteligência artificial, ao utilizar nosso cérebro como base, pode apoiar-se nessa mesma estrutura para operar de maneira mais eficiente e econômica.
Imagem | OpenAI
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