Nas nossas duas últimas jornadas, desbravamos a fascinante região do Mar de Salton, no Deserto de Sonora - a mesma paisagem decadente e magnética que inspirou o icônico videogame GTA. Foi ali também que uma comunidade de vanguarda tecnológica decidiu fixar residência, escolhendo a isolada e desconhecida Bombay Beach, de apenas 200 habitantes, para fundar o Mars College. Carinhosamente apelidada de “Marte”, esta comunidade que integro floresce na franja entre o futurista e o precário, entre o baixo custo e a alta tecnologia.
Imagine a cena: artistas e pesquisadores operando os modelos de linguagem e as APIs de IA mais avançadas dependendo de painéis solares, baterias, rádios e telefones analógicos, enquanto tempestades de areia e poeira salgada invadem os equipamentos e coolers dos laptops. Tudo isso em uma cidade nômade construída em um dos desertos mais quentes e secos do mundo. Foi essa a inteligência artificial que eu vivi.
Para os Marcianos, aquela paisagem árida é o simulador perfeito para testar cenários futuros, seja frente ao colapso climático ou mesmo antecipando a vida em outros planetas.
Como brasileira e membra fundadora da Associação Latina de Futuros (ALAF), minha mente computava todas as formas de tropicalizar essa mentalidade. Como transpor um modelo tecnológico que se sustente na persistência para nossos ecossistemas e comunidades isoladas no Brasil?
Para ajudar a responder a essa pergunta e guiar nossa travessia solarpunk do deserto ao sertão, convidei dois amigos Marcianos que moldaram esse modelo: Matt Freeman, idealizador e co fundador do Mars College, e Seva Epsteyn, engenheiro de redes responsável pelo sistema de internet do Burning Man e pelas veias digitais de Marte e Bombay Beach.
Um Burning Man de três meses para estudar inteligência artificial
O famoso festival Burning Man acontece anualmente no deserto de Black Rock, em Nevada, onde uma cidade temporária para 80 mil pessoas é erguida do nada e desfeita em uma semana. Guiada pela autossuficiência, lá não existe comércio, energia elétrica pública, rede de água e esgoto ou sinal de celular confiável.
Como um Marciano burner me alertou quando cheguei em Marte: "Você está vivendo o Burning Man, só que por três meses".
A conexão de Mars College com o Burning Man corre pelo DNA de um de seus criadores. Além de cofundador de Marte, Freeman é também um dos nomes responsáveis por projetar as megaestruturas temporárias de habitação que sustentam camps inteiros em Nevada.
Mars College nasceu em 2020 como uma evolução de sua engenharia nômade: uma arquitetura modular de pallet racks e sistemas de energia portáteis para erguer e desconstruir com agilidade, sem deixar impacto ambiental para trás.
Ao analisar o esgotamento dos centros urbanos como polos exclusivos de produção intelectual, Freeman defende que o isolamento geográfico tem o poder de libertar o aprendizado e o pensamento criativo:
“Sinto que o Burning Man e outros festivais em lugares remotos nos ensinam que podemos nos divertir e consumir alta cultura em áreas bonitas e longe da cidade. A qualidade de vida também é muito melhor em espaços naturais e o custo de vida é mais baixo. O baixo custo de vida é especialmente útil para as artes e a cultura florescerem. O aprendizado acontece melhor quando o custo de vida é baixo, o que permite que os estudantes foquem nos estudos. Custaria caro demais comprar terras metropolitanas suficientes para acomodar um bando de jovens, e os estudantes teriam que trabalhar demais apenas para sobreviver.”
A diferença essencial entre Mars College e o Burning Man é o tempo. Marte captura a engenharia efêmera do festival e a estende por noventa dias, transformando o deserto em um laboratório vivo de pesquisa em IA Criativa e co-living.
Sem rede elétrica, de água ou esgoto, os Marcianos experimentam com soluções inovadoras: Solar Sam desenvolveu um sistema de biocarvão - apelidado de poop gas -, que converte dejetos biológicos em gás combustível.
Enquanto Charlie projetou uma impressora 3D que molda tijolos estruturais utilizando a argila local.
A mentalidade Marciana inspira a se apropriar de lugares historicamente pouco valorizados e transformá-los em terreno fértil para projetar sistemas tecnológicos paralelos, auto-suficientes, descentralizados e integrados à natureza e ao ritmo local.
Para mim, isso é Solarpunk em estado puro: comunidades onde a tecnologia é despida de seu terno corporativo e se torna uma aliada na emancipação humana.
Guia prático de implantação de redes em ambientes hostis
Toda essa engrenagem de inovação depende de um sistema nervoso central: a Internet. Quando Mars College foi fundado em Bombay Beach, surgiu o desafio técnico: como sustentar pesquisas pesadas de IA em uma zona historicamente negligenciada por operadoras de telecomunicações?
A solução liderada por Seva Epsteyn foi importar e adaptar o manual de sobrevivência de redes de rádio que ele mesmo ajudou a consolidar no Burning Man. Seva detalha a arquitetura dessa topologia híbrida:
“Temos internet via fibra óptica configurada na propriedade do Freeman em Bombay Beach. De lá, o sinal é disparado via rádio ponto a ponto sem fio para Marte e também para uma torre de distribuição na rua 3/D. A partir de Chiba (a construção principal de Marte), a internet se espalha pelos camps com outros pontos de acesso. E a partir da torre de distribuição na rua 3/D, o sinal é distribuído para as casas individuais na cidade, como mostra este mapa:”
Para comunidades isoladas no Sul Global que desejam replicar essa autonomia, Seva sistematizou a arquitetura básica dessa engenharia:
“Para uma área remota, o primeiro passo é o acesso à Internet. Hoje em dia, a Starlink funciona em quase qualquer lugar do globo — o que é muito legal, mas caro para muitas pessoas terem individualmente. Mas digamos que você tenha a Starlink ou outra fonte de acesso à Internet — aí você precisa distribuí-la para uma área maior. Geralmente, usa-se wireless backhaul (ligação sem fio) em 5GHz, 24GHz ou 60GHz. A principal empresa de baixo custo para o consumidor de nível profissional (prosumer) que fabrica esses equipamentos é a Ubiquiti. Também usamos a MikroTik. Eles também fabricam equipamentos sem fio, mas eu gosto mesmo é dos roteadores e switches deles.”
Num cenário onde o hardware opera no limite das adversidades climáticas, Seva se apropria da IA para que se torne a operadora da infraestrutura, caminhando para um gerenciamento cada vez mais autônomo. Antes mesmo que algum Marciano perceba que a poeira de sal corroeu um roteador, a IA pode identificar e relatar o problema. Seva revela como integrou LLMs nos bastidores do sistema de rede:
“Tenho trabalhado em um assistente de gerenciamento de rede baseado em IA/LLM que me ajudou bastante no ano passado — ele funcionava no modo 'apenas leitura', no qual eu posso pedir ajuda para coletar dados e solucionar problemas. Este ano, estou trabalhando para que ele seja capaz de fazer alterações e operar de forma autônoma, sem que eu precise pedir para ele fazer algo.”
Em um de seus projetos em Marte, a IA de infraestrutura ganhou a interface tangível e poética de telefones analógicos:
“Este ano, configurei um sistema de telefonia (através da nossa Intranet local) e, nele, você pode discar 0 para falar com uma operadora de voz com IA que te informa qual número de telefone fica em qual lugar, entre outras coisas.”
Em lugares caracterizados pelo vácuo de telecomunicações e infraestrutura, a criatividade humana encontra brechas para florescer.
Tecnologia fomentando o retorno à natureza
O que os Marcianos demonstram empiricamente é que o isolamento geográfico e a crise de infraestrutura podem ser convertidos em potência criativa através do design de engenharia. Ao tratar o calor extremo, a poeira corrosiva e a ausência de concessionárias estatais como variáveis em uma equação, eles são capazes de transformar uma aparente escassez em soberania técnica.
A IA operada nas bordas dos centros urbanos acaba por retornar ao que é primordial: garantir que redes de comunicação não colapsem em meio a eventos climáticos extremos, salvaguardando a voz ativa e a capacidade de inovação de comunidades isoladas.
Ao descentralizar o acesso à alta tecnologia, Freeman vislumbra um horizonte de migração reversa:
“A internet e o trabalho remoto são outros grandes facilitadores. Agora podemos viver em meio à beleza natural e continuar conectados à economia, à cultura e à tecnologia globais. Acredito que veremos uma migração reversa das metrópoles de volta para o campo. Começará com pessoas ricas comprando refúgios rurais, mas logo a classe média perceberá que pode adquirir propriedades e viver bem, enquanto em sua vida urbana ela paga aluguéis abusivos e está sempre sob estresse financeiro. Essa é a minha esperança, pelo menos."
Essa visão oferece uma fagulha para repensarmos nosso sertão, nossos espaços de difícil acesso ou pouco explorados e nossas comunidades periféricas. Os mesmos chips, conexões e algoritmos que a sociedade urbana tende a consumir de forma passiva para o doomscrolling podem ser hackeados e convertidos em ferramentas de sobrevivência, autonomia e coordenação comunitária no vazio.
O futuro da Inteligência Artificial não precisa pertencer somente aos monopólios do Vale do Silício; ele pode servir à engenhosidade humana que faz novas formas de existir brotarem do chão, do sol e do sal.
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