O conflito no Irã não está sendo travado apenas nos céus, com drones e mísseis cruzando fronteiras: ele também está avançando no espaço cibernético. Segundo o mais recente Relatório de Ameaças da Unit 42, uma divisão de inteligência de ameaças e resposta a incidentes da Palo Alto Networks, uma das principais empresas globais de cibersegurança que investiga ciberataques complexos, a guerra também passou a se desenrolar no ambiente digital.
De acordo com a análise da equipe, cerca de 60 grupos hacktivistas começaram a atuar simultaneamente no ciberespaço após o ataque militar iniciado em 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra alvos iranianos. A reação veio em várias frentes, incluindo uma intensa campanha de ataques digitais conduzida por coletivos alinhados ao Irã e também por grupos pró-Rússia.
Os ataques, no entanto, não são uma aliança diplomática formal entre governos. Na verdade, o que está se estabelecendo é uma espécie de guerra cibernética por procuração, em que grupos independentes aproveitam a instabilidade política para lançar ataques digitais contra adversários estratégicos, sem que os governos sejam responsabilizados.
Ao mesmo tempo, um apagão massivo de internet, que reduziu a conectividade a níveis entre 1% e 4% no Irã, tornou a situação ainda mais imprevisível. Ao invés de paralisar as operações, a desconexão acabou estimulando uma dinâmica mais descentralizada de ataques, espalhando as ações por diferentes redes e atores no ciberespaço.
Isso significa que, com menos infraestrutura centralizada funcionando, as operações passaram a depender mais de grupos externos e de células digitais independentes, que continuam os ataques a partir de outros países ou redes. A grande questão é que isso acaba tornando os ataques mais difíceis de rastrear e conter.
O apagão de internet no Irã espalhou as operações hackers, tornando-as mais difíceis de rastrear
A interrupção quase total da internet no Irã após o início dos ataques dos EUA e Israel mudou a dinâmica das operações digitais ligadas ao conflito. Segundo o relatório da Unit 42, a queda abrupta da conectividade no país, com duração estimada de mais de 240 horas, interrompeu a comunicação entre grupos cibernéticos apoiados pelo Estado e suas estruturas de comando.
Isso significa que muitos pequenos grupos operacionais que atuam de forma semi-independente passaram a agir com autonomia tática, operando de forma isolada e menos previsível. Para Justin Moore, líder de inteligência cibernética da Palo Alto Networks, essa mudança altera completamente o perfil das ameaças.
“A descentralização da liderança pode tornar as operações mais imprevisíveis e oportunistas, uma vez que células isoladas podem operar com maior autonomia”, explicou o especialista.
Isso significa que os ataques deixam de ser campanhas longas e bem planejadas, algo comum em operações patrocinadas por Estados, e passam a priorizar ações rápidas e oportunistas, explorando qualquer vulnerabilidade disponível. Justin Moore também acrescentou que, nesse novo cenário, até alvos considerados de baixo valor estratégico podem se tornar vítimas.
“Empresas e instituições passam a enfrentar um oponente que improvisa, o que altera significativamente o perfil de risco em comparação com as operações historicamente bem coordenadas de grupos estatais, como o Agent Serpens”, afirmou.
Cerca de 60 grupos hacktivistas passam a explorar o conflito no Irã para lançar ataques digitais contra adversários geopolíticos
Outro ponto que merece destaque é a diversidade dos grupos envolvidos. O relatório identifica dezenas de coletivos hacktivistas atuando simultaneamente, incluindo organizações alinhadas ao Irã, como o Handala Hack, e grupos pró-Rússia, como NoName057(16) e Russian Legion. Segundo Justin Moore, isso mostra que as fronteiras tradicionais desapareceram no ciberespaço.
“O que estamos testemunhando hoje é a dissolução das fronteiras geográficas no ciberespaço. Não estamos mais lidando apenas com incidentes isolados, mas com um ecossistema de atores que mobilizam narrativas, ferramentas e objetivos compartilhados, muitas vezes agindo em paralelo ou ostensivamente alinhados aos interesses de estados-nação.”
Esses grupos atuam como uma rede informal, e podem compartilhar táticas, infraestrutura e narrativas políticas, amplificando ataques e direcionando campanhas contra alvos simbólicos ou operacionais, e muitas vezes na infraestrutura civil. Para piorar, esse ecossistema também está sendo impulsionado por tecnologias emergentes. Segundo a Unit 42, ferramentas baseadas em inteligência artificial estão reduzindo drasticamente a barreira técnica para ataques. Entre os exemplos identificados pelos pesquisadores estão:
- Campanhas de phishing automatizado;
- Ataques de engenharia social com deepfakes;
- Réplica maliciosa do aplicativo israelense RedAlert, usado para espionagem em dispositivos móveis.
Ataques descentralizados aumentam os riscos digitais para empresas e instituições governamentais
No passado, ataques patrocinados por Estados costumavam seguir estratégias claras e objetivos bem definidos, como espionagem ou sabotagem de infraestrutura crítica. Agora, segundo a Unit 42, a realidade é diferente. A combinação entre conflito geopolítico, hacktivismo e ferramentas baseadas em IA criou um ambiente muito mais caótico, no qual diferentes grupos exploram o conflito como uma espécie de cortina de fumaça para operações digitais.
Isso significa que organizações em todo o mundo podem se tornar alvos, mesmo sem ligação direta com a guerra. Para os especialistas, a principal consequência é que o risco cibernético deixou de ser regional e passou a ser global, dinâmico e difícil de prever. Para evitar uma invasão nos servidores, redes e dispositivos, empresas e governos precisam reforçar práticas básicas de segurança digital, como monitoramento constante, treinamento contra phishing e atualização de sistemas.
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