Basta visitar o site Marine Traffic para entender a magnitude do problema. O mundo inteiro prende a respiração diante de um estreito de poucos quilômetros de largura. Aproximadamente 20% do fornecimento diário de petróleo do mundo e uma parcela vital de gás natural liquefeito (GNL) passam pelo Estreito de Ormuz.
Hoje, essa artéria global está sofrendo um ataque cardíaco. Uma escalada sem precedentes no Oriente Médio, desencadeada pelos ataques dos EUA e de Israel que mataram o Líder Supremo do Irã, o Aiatolá Ali Khamenei, provocou uma saraivada de mísseis e drones. O resultado é um bloqueio de fato da rota marítima mais importante do planeta.
Retrato de um congestionamento histórico
A imagem do Marine Traffic, na capa do artigo, mostra um verdadeiro enxame de ícones vermelhos aglomerados em ambos os lados do estreito, especialmente perto do porto iraniano de Bandar Abbas e na costa dos Emirados Árabes Unidos.
De acordo com dados da S&P Global, o tráfego marítimo despencou entre 40% e 50%. Há aproximadamente 240 navios agrupados aguardando instruções. Entre eles, como detalhado pelo analista Weilun Soon na Bloomberg, estão pelo menos 40 navios cargueiros de grande porte (VLCCs), gigantes ociosos que transportam cerca de 2 milhões de barris de petróleo bruto cada. E o tempo está se esgotando: segundo estimativas do JPMorgan, se essa paralisação de fato durar mais de 25 dias, os produtores ficarão sem espaço de armazenamento e terão que interromper a produção física.
Caos não é apenas físico, mas também eletrônico
A equipe de dados da Sky News documentou graves interferências nos sistemas de rastreamento de embarcações (AIS). Os sinais estão tão distorcidos que alguns petroleiros parecem estar localizados em terra firme no radar.
O temor é mais do que justificado: o conflito já se estendeu para o mar. De acordo com relatos da UKMTO (UK Maritime Commercial Operations), citados pelo Business Insider, o petroleiro Skylight, com bandeira de Palau, foi atacado perto de Omã. O incidente deixou quatro feridos e 20 tripulantes evacuados com urgência.
Mercados em pânico e fretes disparando
A reação em cadeia foi imediata. Uma rápida olhada no mercado de ações revela o pânico inicial entre os investidores: nas primeiras horas de negociação, o petróleo Brent (referência europeia) subiu 13%, atingindo US$ 82 por barril — seu nível mais alto em 14 meses. Embora tenha recuado posteriormente, abrindo a segunda-feira em torno de US$ 79, o medo já havia se instalado.
Esse choque teve vencedores e perdedores nas bolsas de valores europeias. Como detalhou o The Guardian, enquanto as empresas petrolíferas (Shell, BP) e as empresas de defesa (BAE Systems) subiram acentuadamente, as companhias aéreas como IAG e easyJet despencaram cerca de 10% e 7%, respectivamente, aterrorizadas com os iminentes aumentos nos preços dos combustíveis.
Negociar petróleo bruto hoje é uma atividade de alto risco. O custo diário do fretamento de um superpetroleiro disparou 600%, um aumento sem precedentes, chegando a US$ 200 mil por dia (pouco mais de R$ 1 milhão), segundo Alex Longley, da Bloomberg. Os custos do seguro devem ser adicionados a essa conta: a France 24 informa que os prêmios de seguro contra riscos de guerra aumentarão entre 25% e 50% para aqueles que se aventurarem na zona de conflito.
O paradoxo da OPEP+
O próximo movimento do mercado foi acompanhado de perto nos bastidores. De acordo com a declaração oficial da OPEP+, o cartel concordou em injetar 206 mil barris adicionais por dia a partir de abril para estabilizar preços. No entanto, essa medida é, na prática, uma miragem logística.
Como detalha o analista John Kemp em sua coluna para o Financial Times, a OPEP+ tem uma capacidade excedente de mais de 3 milhões de barris por dia, mas quase toda essa capacidade está localizada nos países do Golfo Pérsico. Em outras palavras, por mais petróleo extra que a Arábia Saudita ou o Iraque prometam bombear, se os navios não puderem cruzar o Estreito de Ormuz, esse petróleo bruto ficará indisponível para o resto do mundo. Analistas da Wood Mackenzie, citados pela Oilprice, foram ainda mais enfáticos: "Se o transporte de petróleo não for restabelecido rapidamente, o preço do barril ultrapassará a barreira dos US$ 100."
Nuances que definirão a crise
Apesar do drama, o mundo possui algumas válvulas de escape que não existiam durante as crises do petróleo da década de 1970:
- Oleodutos vitais: Como explica Kemp, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos podem contornar o Estreito de Ormuz exportando parte de seu petróleo bruto por meio de oleodutos para o Mar Vermelho e o Golfo de Omã. No entanto, países como o Iraque e o Kuwait estão presos: eles dependem inteiramente do Estreito de Ormuz.
- Reservas globais: O analista Javier Blas explica na Bloomberg que a revolução do petróleo de xisto nos Estados Unidos dá a Washington um controle sem precedentes sobre o fornecimento. Além disso, a China vem preenchendo suas reservas estratégicas ao máximo há anos, o que amenizaria o impacto no curto prazo.
- O grande vencedor: Ironicamente, o bloqueio é uma excelente notícia para Vladimir Putin. Como Blas destaca, uma alta sustentada nos preços facilita a venda do petróleo bruto sancionado pela Rússia no mercado negro asiático, com margens de lucro muito maiores.
O mundo prende a respiração
Por ora, a economia global está paralisada, aguardando a decisão de alguns capitães de navios. Gigantes do transporte marítimo como a Maersk já anunciaram a suspensão temporária de todas as suas rotas pela região, conforme noticiado pela France 24.
Os navios carregados permanecerão ociosos, "evitando o drama", nas palavras de um corretor de frete marítimo consultado pela S&P Global. Hoje, o destino da inflação global não está sendo decidido em Wall Street ou nos bancos centrais, mas nas águas tensas ao largo de Omã e do Irã, onde um grupo de gigantes do aço decidiu desligar seus motores e torcer para que a tempestade passe.
Imagem | MarineTraffic
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