Em um movimento que pode mudar o futuro das redes sociais, a Snap Inc. tornou-se a primeira grande empresa do setor a fechar um acordo judicial para encerrar acusações de que projetou deliberadamente produtos viciantes voltados para adolescentes. O acordo confidencial foi firmado nesta semana na Suprema Corte da Califórnia, evitando o que seria o primeiro julgamento de uma série de processos que miram os mecanismos de engajamento das plataformas. Os valores pagos ainda não foram revelados, pois seguem confidenciais.
O caso foi movido por uma adolescente (identificada como K.G.M.), cujos advogados argumentaram que o Snapchat utiliza engenharia de software para promover o uso compulsivo. Entre os recursos citados como prejudiciais estão a rolagem infinita (infinite scroll), o recurso de reprodução automática e recomendações algorítmicas que maximizam o tempo de tela em detrimento do bem-estar dos jovens.
Redes sociais enquanto "produtos perigosos"
A ação judicial na Califórnia testou uma teoria jurídica inovadora: a de que plataformas de redes sociais podem ser tratadas como produtos defeituosos sob a lei de responsabilidade civil. Os autores do processo estabeleceram um paralelo direto com as campanhas históricas contra a indústria do tabaco, afirmando que:
- Mecânicas de cassino: recursos como o "Stories" do Snapchat, o "Reels" da Meta e o "For You" do TikTok utilizam técnicas de design persuasivo baseadas em pesquisas comportamentais para explorar ciclos de recompensa no cérebro.
- Algoritmos de retenção: as plataformas analisam interações continuamente para entregar um fluxo interminável de conteúdo personalizado, condicionando os usuários a retornarem com frequência.
- Consequências clínicas: o litígio sustenta que o foco excessivo no engajamento contribuiu para o aumento de casos de ansiedade, depressão, transtornos alimentares e automutilação entre usuários jovens.
Um sinal de alerta para Meta, TikTok e YouTube
Embora a Snap tenha optado pelo acordo, os termos financeiros e as condições não foram revelados. O CEO da empresa, Evan Spiegel, era esperado para depor, mas a negociação de última hora evitou o confronto público no tribunal. No entanto, o desfecho coloca pressão sobre outras gigantes:
- Meta, TikTok e YouTube continuam enfrentando milhares de ações coordenadas movidas por pais, distritos escolares e procuradores-gerais de diversos estados.
- Os autores das ações planejam apresentar milhares de páginas de documentos das empresas que mostrariam executivos discutindo os danos do engajamento excessivo sem adotar medidas preventivas eficazes.
- As empresas negam que seus produtos sejam viciantes e argumentam que as redes sociais são veículos de expressão e não veículos defeituosos.
Este acordo marca o início de uma reavaliação global sobre a ética no design de aplicativos e pode servir como precedente para casos futuros. O objetivo dos defensores é forçar mudanças em toda a indústria, obrigando as plataformas a priorizar a saúde dos usuários em vez do tempo de permanência.
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