A rede do navio pesqueiro espanhol Miguel Oliver trouxe à superfície, no último dia 5 de setembro, 26 ânforas romanas quase intactas e 17 caixas de cerâmica fragmentada. Ele participava do MEDITS, o programa que avalia todos os anos a saúde dos pesqueiros do Mediterrâneo.
As peças pertencem ao tipo Dressel 20, o recipiente por excelência do azeite bético entre os séculos I e III. O galão padrão, por assim dizer. Eram fabricadas às margens do Guadalquivir, entre Hispalis (Sevilha) e Corduba (Córdoba), e comportavam entre 40 e 80 litros de azeite. Sua argila porosa fazia com que se tornassem inutilizáveis após uma única viagem: eram enchidas, transportadas e descartadas.
Muitas das recuperadas em Formentera conservam selos e tituli picti, inscrições pintadas com o peso, a origem e o nome do comerciante. É o equivalente à informação nutricional da Antiguidade e a pista que permite rastrear rotas comerciais inteiras. Selos idênticos aparecem em sítios arqueológicos de Londres e Mogúncia, na atual Alemanha: o azeite bético chegava até as fronteiras mais distantes do Império.
Esse modelo de usar e descartar deixou uma marca brutal em Roma. O Monte Testaccio, uma colina artificial de 35 metros às margens do Tibre, é formado quase inteiramente por fragmentos de Dressel 20: cerca de 53 milhões de ânforas, acumuladas ao longo de um século. Formentera agora acrescenta mais 26 peças ao mesmo quebra-cabeça logístico: como Roma transportava milhões de litros de azeite pelo mar sem navios-tanque.
A equipe do Museu Arqueológico de Eivissa e Formentera (MAEF) ficou responsável pelo recebimento e transporte dos artefatos para o depósito. A descoberta chegou ao Museu Arqueológico de Ibiza e Formentera em menos de 24 horas.
Encontro e restauração
O Miguel Oliver não é um pesqueiro qualquer. Tem 70 metros de comprimento, custou 24 milhões de euros e foi lançado ao mar em Vigo em 2007. Leva o nome de Miguel Oliver (Barcelona, 1918 - Maiorca, 2004), biólogo marinho e secretário-geral de Pesca Marítima entre 1982 e 1986. É equipado com seis laboratórios, três ecobatímetros e três radares, e é certificado como um navio silencioso: emite tão pouco ruído que nem sequer espanta as espécies que estuda. No último dia 5, além de merluza, encontrou 20 séculos de comércio.
O mergulho recreativo só vai até por volta dos 40 metros; o mergulho técnico, com misturas de gases, chega perto dos 300. A 1.400 metros, só chegam redes de arrasto, robôs submarinos ou submersíveis tripulados, um luxo reservado a expedições oceanográficas de grande orçamento. Por isso, a arqueologia subaquática mediterrânea trabalha quase sempre em águas rasas, onde é possível mergulhar. Um naufrágio a essa profundidade é praticamente impossível de escavar: apenas uma captura acidental, como esta, consegue trazê-lo de volta à superfície.
O material subaquático se deteriora rapidamente fora da água: o sal se cristaliza e desintegra a cerâmica. A tripulação manteve as ânforas hidratadas com uma mangueira durante todo o trajeto. Em terra, o Serviço de Patrimônio Subaquático autorizou a transferência de acordo com a Lei do Patrimônio Histórico Espanhol, que obriga qualquer vestígio retirado do mar a ser depositado no museu mais próximo. Agora começa a dessalinização, peça por peça, em tanques de água, antes da restauração definitiva.
Os selos das ânforas de Formentera ainda não revelam a data nem a origem exata da carga. O estudo epigráfico preencherá essa lacuna, peça por peça. Com sorte, também apontará para o naufrágio do qual elas provavelmente caíram. Ou, no mínimo, permitirá estabelecer um período para esse conjunto de peças.
Imagens | Ministério do Interior da Espanha
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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