Que a China é uma verdadeira potência global em energia solar não é segredo; na verdade, o país planeja que as energias renováveis cubram metade do seu consumo energético até 2030. Também não é segredo que ela é capaz de construir enormes parques fotovoltaicos nos lugares mais inesperados: de um deserto ao mar aberto, até mesmo no espaço.
Mas o mar tem suas próprias regras e desafios, e a manutenção ali, com tanta umidade e salinidade, é uma verdadeira proeza. Por isso, o país asiático teve a ideia de construir uma plataforma solar flutuante; deixando de lado o concreto, o plástico ou o aço em favor de um material que conhece muito bem: o bambu.
A primeira plataforma solar flutuante de bambu
Seu nome é Jilin-2, e é a primeira plataforma solar flutuante de 100 kW construída com bambu. Ela está instalada na costa de Yantai, na província de Shandong. O projeto é uma colaboração entre o Yantai CIMC Raffles Ocean Technology Group, a China Forestry Group Corporation e a Universidade Florestal de Pequim, e eles utilizaram um compósito feito de fibras de bambu e madeira.
A plataforma é feita com tubos de bambu enrolados e Sea Bamboo Pipe, um compósito de madeira pré-tensionada e bambu reforçado com fibra. Este material foi especificamente projetado para oferecer alta resistência mecânica, baixo peso e resistência à corrosão.
De acordo com a equipe de desenvolvimento, é ideal para aplicações offshore. Os 100 kW gerados pelos painéis solares serão destinados diretamente a um projeto de produção de hidrogênio, amônia e metanol. Um detalhe importante: esta Jilin-2 tem dez vezes a potência de saída do protótipo anterior.
Por que isso importa?
Porque se este compósito de bambu se mostrar viável em alto mar em termos de resistência e durabilidade, abre-se caminho para minimizar o uso de aço e plástico (este último de origem fóssil) neste tipo de infraestrutura marítima. Além disso, o bambu é um material natural, abundante, de rápido crescimento e baixo custo.
Este projeto se insere no âmbito da transição verde da China, mais especificamente no "Plano de Ação Trienal para Substituir o Plástico pelo Bambu", divulgado pela CGTN e que dispensa maiores explicações: a intenção é construir uma cadeia de suprimentos completa de produtos à base de bambu para reduzir o uso de plásticos.
CIMC Raffles
A China está na vanguarda da energia solar offshore
O país lidera o desenvolvimento global de energia solar offshore flutuante porque precisa de energia limpa, e a terra onde essa energia é mais necessária é muito cara (os maiores parques solares estão localizados nos desertos perto da Mongólia, mas a energia precisa ser transportada para cidades costeiras como Guangzhou, Xangai e Shenzhen).
Para isso, são necessários materiais capazes de resistir à corrosão, ondas, radiação ultravioleta e fadiga a longo prazo.
O antecessor do Jilin-2 foi o Jilin-1, lançado em 2023, que tinha capacidades mais modestas: a plataforma tinha apenas sete metros de comprimento por sete metros de largura, pesava quatro toneladas e era capaz de gerar 10 kW.
O que acontecerá agora?
A equipe de engenharia por trás do projeto monitorará o comportamento do material durante a operação diante da corrosão, alta umidade, exposição ao sal, radiação ultravioleta e fadiga estrutural prolongada — algumas das variáveis críticas para qualquer material usado em uma estrutura marítima desse tipo.
O próximo passo é ampliar essa tecnologia até que um projeto piloto atinja um megawatt de potência gerada e explorar outras aplicações.
As letras miúdas
A questão técnica fundamental não é tanto se o bambu resistirá ou não, pois o verdadeiro ponto fraco do material é a interface entre o bambu e a resina que o envolve. Dito isso, o Jilin-2 ainda é um protótipo em escala relativamente pequena, e seu desempenho real no mar só poderá ser avaliado com o tempo. Em resumo, está longe de substituir o aço, que tem sido usado em ambientes marinhos há décadas.
Imagem de capa | CIMC Raffles
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