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Quando um alpinista vivencia situações extremas na montanha, seu cérebro começa a imaginar algo: uma "terceira pessoa"

Há inúmeros casos de alpinistas que, sem perceber, criam em suas mentes a presença de alguém que não está lá

Imagem | Thibault Lam Tran
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Nem todas as aventuras precisam ser bem-sucedidas para se tornarem épicas. Isso aconteceu com a chamada Expedição Transantártica Imperial, que partiu da Inglaterra em agosto de 1914 sob o comando do explorador Ernest Shackleton com um objetivo monumental, não para os fracos de coração: atravessar a Antártida, de Vahsel, no Mar de Weddell, até a Ilha Ross, no outro extremo.

Devido às duras condições do Polo Sul, o navio Endurance ficou preso no gelo, e Shackleton viu seus planos desmoronarem, o que o levou a um feito verdadeiramente épico que testou sua resistência e a de seus colegas a um limite só alcançável em meio a blocos de gelo, temperaturas glaciais e exaustão extrema.

O feito do explorador também serviu a um propósito que ele provavelmente jamais imaginou: cunhar a expressão "fator do terceiro homem" ou "síndrome do terceiro homem". Bem conhecida entre os alpinistas, essa expressão continua sendo um fenômeno fascinante até hoje.

"Quem é a terceira pessoa caminhando ao seu lado?"

Ernest Shackleton (à esquerda) com Robert Falcon Scott e Edward Wilson na Antártida, 1902. Ernest Shackleton (à esquerda) com Robert Falcon Scott e Edward Wilson na Antártida, 1902.

Shackleton descreveu o fenômeno ao relembrar os dois dias e meio exaustivos que passou — junto com Frank Worseley e Tom Cream — viajando em direção a uma estação baleeira na costa norte da Geórgia do Sul. O grupo caminhou por 36 longas horas em condições terríveis, com quase nenhum suprimento, constantemente à beira da morte. Eles também tinham a responsabilidade de auxiliar seus companheiros de tripulação do malfadado navio Transantártico Imperial.

Através da desolada Antártida, apenas os três vagavam: Ernest, Frank e Tom. Mas se alguém lhes perguntasse quantas pessoas compunham aquele grupo desesperado, eles provavelmente responderiam de forma diferente: que havia outra pessoa com eles, um quarto membro, sem nome, sem rosto... mas inegável. "Sei que durante aquela longa e tempestuosa marcha por montanhas e geleiras sem nome, muitas vezes me pareceu que éramos quatro, não três", escreveu o explorador. Esse sentimento comum, observa o The Guardian, acometia os três homens que embarcaram na jornada: a presença de um "quarto" que os acompanhava.

Tal expressão deve ter surpreendido o poeta T.S. Eliot, que mais tarde, em 1922, após ler o relato de Shackleton, retomou a ideia e a incorporou em seu popular poema "The Waste Land" (A Terra Devastada): "Quem é o terceiro que sempre caminha ao seu lado? Quando conto, somos apenas você e eu juntos, mas quando olho para a estrada branca à frente, há sempre outro caminhando ao seu lado."

A interpretação de Eliot, que substituiu o "quarto" homem de Shackleton por um "terceiro", foi bem-sucedida, e desde então frequentemente falamos da "síndrome do terceiro homem" para nos referirmos a isso: a sensação de um companheiro fantasma, uma presença que de alguma forma conforta as pessoas que enfrentam uma situação extrema.

Shackleton não foi o único a descrevê-la. Vários anos após sua morte, em 1933, Frank Smythe, um explorador britânico como ele, relatou uma experiência semelhante ao tentar escalar o Monte Everest. "Durante toda a escalada, enquanto eu escalava sozinho, tive a forte sensação de estar acompanhado por uma segunda pessoa. Era tão forte que eliminou completamente qualquer solidão que eu pudesse sentir", escreveu o explorador em seu diário.

A sensação era tão vívida que, explica Smythe, em certo momento da subida, ele enfiou a mão no bolso, tirou um pedaço de Kendal Mint Cake, partiu-o ao meio e se virou para oferecer uma das metades ao companheiro com quem se sentia tão próximo.

Ele não viu ninguém, é claro.

Montanha

Não precisamos voltar tão longe no tempo. O alpinista madrilenho Fernando Garrido escreveu em seu caderno sobre a sensação que o dominou quando, no início de 1986, passou mais de dois meses no cume isolado do Aconcágua, a quase 7 mil metros de altitude, para tentar bater o recorde de sobrevivência em altitude.

"Hoje, como em outras vezes, acordei com a sensação de que havia alguém lá fora, ao lado da barraca. Será que ele passou a noite ali? Por que não me chamou para entrar? [...] — relatou o alpinista em depoimentos coletados pelo El Confidencial — É meu irmão, meu irmão Javier! Javi, acorda, vamos, acorda! Viro-o para mim. Ele está morto, sua cabeça é um crânio."

"Uma ciência sólida"

Um bom número de artigos e referências já foram escritos sobre o fenômeno, alguns apareceram em veículos de comunicação como o The Guardian e a NPR, e em 2008, o escritor John Geiger chegou a dedicar um livro ao assunto, "The Third Man Factor: Surviving the Impossible" (O Fator Terceiro Homem: Sobrevivendo ao Impossível), após passar cinco anos investigando histórias semelhantes.

Mais complexo do que compilar essas experiências, no entanto, é fornecer uma explicação plausível. Anos atrás, durante uma conversa com o jornalista da NPR, Guy Raz, Geiger relatou que algumas pessoas recorrem à espiritualidade, embora insista que a síndrome pode ser explicada por "ciência sólida". "Muitos céticos e descrentes tiveram essa experiência e a atribuem a outras causas", afirma o autor, que inclusive inclui o caso de um sobrevivente do 11 de setembro em seu livro.

Em 2009, Geiger sugeriu explicações como reações bioquímicas ou simplesmente falhas na atividade cerebral. “Se entendermos que o fator do terceiro homem faz parte de nós, como a adrenalina… então podemos acessá-lo mais facilmente. Não é uma alucinação no sentido de que alucinações são caóticas. Este é um guia muito útil e organizado”, refletiu ele.

Anos atrás, os pesquisadores Ben Alderson-Day e David Smailes discutiram o fenômeno e explicaram que “fortes sensações de presença” não ocorrem apenas em circunstâncias dramáticas. Casos foram registrados após luto, durante paralisia do sono ou em casos de distúrbios neurológicos, como a doença de Parkinson ou lesão cerebral. “Os diferentes contextos em que ocorrem nos dão algumas pistas sobre o que pode estar acontecendo”, concluíram.

“Compreender melhor como e por que as sensações de presença ocorrem tem o potencial de nos dizer muito sobre nós mesmos: como reagimos sob intenso estresse mental ou físico, como lidamos com perigo e ameaça e como reconhecemos a forma e a posição do nosso próprio corpo.”

"Uma das coisas que também pode fazer é lançar luz sobre outras experiências incomuns e difíceis de compreender", concluíram os especialistas em seu artigo de 2015: "O Terceiro Homem não nos fala apenas sobre nossas mentes ou corpos; oferece-nos uma maneira de ajudar e compreender os outros, como fez com Shackleton."

A passagem do tempo não tornou o fenômeno mais fascinante, nem diminuiu o interesse dos especialistas, que trabalham, por exemplo, para compreender melhor os perigos que espreitam os alpinistas além de geleiras, nevascas ou cavernas — ameaças que residem em suas próprias mentes, como o mal da altitude.

Imagens | Thibault Lam Tran, Mountainarious (Unsplash), Wikipedia/National Library of New Zealand e Inspire Toud (Unsplash)

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