Se você entrar hoje em um escritório qualquer e pedir um emprego, é mais que provável que você receba um “não”, como resposta. Mas na década de 1960, um homem fez exatamente isso no prédio do Ministério da Indústria norueguês e foi contratado. Você pode achar que ele teve sorte, mas quem se deu bem com isso foi a Noruega: ele foi responsável por evitar a “maldição do petróleo” e transformar o país no segundo maior exportador da Europa. O jeito que ele fez isso pode parecer contraproducente para muitos, mas se provou eficaz: em vez de tentar espremer até a última gota de óleo da terra, focar em pesquisa, desenvolvimento e na proteção da natureza.
O que é a maldição do petróleo?
Primeiro é preciso entender o que uma exploração errada de recursos naturais pode causar no país. O termo é usado para falar sobre o crescimento econômico menor em países ricos em recursos naturais. Geralmente, quando se descobre petróleo em grande quantidade, a economia do país foca na exploração dos poços e outros setores acabam morrendo, pois é mais lucrativo apostar na extração do que em outros setores. Além disso, ele também atrai muitos dólares, aumentando o valor da moeda local e favorecendo importações em detrimento dos produtos nacionais.
Controlar a produção sem monopólio (privado ou estatal)
A melhor maneira de evitar que a extração de petróleo afogue o restante da economia é o governo exercer o controle, mas sem monopolizar. Em entrevista para a BBC Brasil, ele afirmou: “A história mostra que é muito difícil evitar a corrupção quando há a possibilidade de uma empresa privada ou estatal dominar todas as outras”. E foi exatamente o que ele sugeriu para o governo norueguês. O ministério fundou a Statoil, e deu algumas vantagens a ela no início para que pudesse concorrer com as empresas já estabelecidas no mercado. Com o tempo, essas vantagens foram sendo retiradas para dar competitividade às outras.
“Nós não queríamos que a Statoil se tornasse todo-poderosa ou um Estado dentro do Estado. Não queríamos que ela tivesse poder de decisão sobre a concessão de licenças para outras empresas", explicou Al-Kasim à BBC Brasil.
Fundo trilionário para a população
O controle da produção foi importante para que a indústria petrolífera não destruísse todas as outras. Para evitar isso, o governo decidiu criar um fundo soberano que seria bancado pelo petróleo. Assim, todo o dinheiro gerado não entraria de uma vez na economia. Em vez disso, ele é investido em empresas estrangeiras e o governo só pode gastar 2% do total de 2 trilhões de dólares por ano. Dessa maneira, ele gera riqueza para as gerações futuras, que não poderiam usufruir dela caso fosse gasta toda de uma vez.
Maricá seguiu o exemplo
Uma das mais atingidas pelo pré-sal, a cidade de Maricá, na região metropolitana do Rio de Janeiro, fez o mesmo que a Noruega: criou um fundo soberano para evitar que o dinheiro do petróleo inundasse o município e matasse a economia local. Dados do fim de fevereiro de 2026 apontam que o fundo conta com R$2 bilhões. O dinheiro é investido em títulos públicos federais, e fundos bacários da Caixa Econômica e do Banco do Brasil.
Poder demais causa corrupção
Para Farouk Al-Kasim, o combate ao monopólio é a melhor maneira de evitar a corrupção, seja em estatais ou empresas privadas e que a possibilidade de domínio do mercado por uma única empresa facilita a corrupção. A melhor maneira de evitar isso é criando regulações que garantam o interesse público mas também leve considerem interesses privados. “Se o Estado não quer que a sua estatal tenha uma posição monopolística, precisa criar regras para as demais empresas serem ouvidas e criar pesos e contrapesos. Sem isso, o forte vai prevalecer. E o forte pode não querer servir aos interesses da nação.”
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