Guerra na Ucrânia atingiu novo nível de brutalidade: Rússia a chama de "abridor de latas" e transforma recrutas em detonadores

Nos casos mais extremos, soldados acabam sendo forçados a correr com explosivos presos ao peito.

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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A guerra na Ucrânia já flertava com a linguagem do mundo dos jogos: recompensas por objetivos, listas de "saques" e até mesmo uma "Amazon militar" improvisada para trocar sucessos por recursos reais. Mas se isso parecia uma forma de gamificar a logística, o que está acontecendo agora é muito mais complexo: não se trata mais de comprar drones com pontos, mas de recrutar soldados dentro das próprias comunidades de jogadores e transformá-los em bombas humanas.

Guerra como indústria global

Na frente ucraniana, a Rússia acabou construindo uma máquina de recrutamento que não se limita a procurar soldados, mas os atrai de lugares cada vez mais improváveis, como se a guerra tivesse se tornado um funil global.

O que antes era um conflito entre exércitos começa a se parecer com uma rede internacional de recrutamento, onde jovens são atraídos por dinheiro, pela promessa de um futuro melhor ou simplesmente por uma conversa casual que se torna irreversível. O resultado é um fluxo constante de estrangeiros chegando à Rússia, assinando um contrato, recebendo treinamento acelerado e desaparecendo na paisagem mais brutal da Europa, onde a distância entre assinar um contrato e a morte pode ser medida em semanas.

Recrutamento por tela

A história, contada pela Bloomberg, começa com dois jovens sul-africanos, usuários assíduos do Discord e jogadores de Arma 3, que acabam conversando sobre se alistar no exército russo com alguém que se identifica como @Dash. O que parecia apenas mais uma troca de mensagens numa comunidade digital se aquece até se tornar um plano real: eles se encontram na Cidade do Cabo, viajam juntos e acabam visitando o consulado russo, como se esse passo burocrático desse legitimidade ao que, no fundo, já era uma fuga para a guerra.

Em 29 de julho, eles partem para a Rússia via Emirados Árabes Unidos e, após chegarem, encontram "Dash". Logo depois, no início de setembro, assinam contratos militares de um ano perto de São Petersburgo e são pegos na via expressa de um conflito que não para para verificar se alguém realmente entende no que está se metendo.

Contrato, treinamento e frente de batalha

Após um breve período de treinamento básico, um dos dois é enviado para lutar na Ucrânia, onde desempenha funções como auxiliar de atirador de lança-granadas, uma descrição que soa como rotina militar, mas que, na realidade, é o prelúdio para um desaparecimento.

A última vez que ele contatou sua família foi em 6 de outubro. Em 17 de dezembro, um amigo relatou que ele havia morrido em combate. A confirmação veio com um documento médico que sua família obteve posteriormente, datado de meses depois, atestando que ele morreu em 23 de outubro de 2024 em Verkhnekamenskoye, na região de Luhansk. Nada se sabe sobre o outro jovem: seu paradeiro permanece incerto, como acontece com muitos nomes que entram na guerra e se perdem no ruído da frente de batalha.

O escândalo que irrompe em casa

Na África do Sul, o caso é visto não apenas como tragédia pessoal, mas como problema nacional, pois desde 1998 é ilegal lutar ou auxiliar as forças armadas de um país estrangeiro. E tudo surge num momento particularmente delicado: nas últimas semanas, vieram à tona mais acusações para a Rússia, com investigações apontando para redes de recrutamento e histórias contadas sob disfarces aceitáveis ​​(cursos de escolta, treinamento de segurança) que se tornam suspeitas quando levam a contratos militares.

Este clima de alarme público é agravado por prisões e processos judiciais, enquanto as autoridades sul-africanas, o consulado russo e a própria plataforma parecem envoltos em silêncio, sem respostas claras, e com as famílias tentando reconstruir, por meio de e-mails e telefonemas, o mapa de um desaparecimento.

A mentira

A Bloomberg também explicou que, entre os incentivos oferecidos, estão sempre os mesmos: dinheiro, condições atraentes, a possibilidade de obter a cidadania russa e a ideia de que o serviço militar pode abrir portas para a educação ou o progresso. É uma oferta concebida para soar concreta e razoável, como se o combate fosse um trabalho árduo, mas suportável, uma experiência perigosa, porém temporária.

No entanto, a reportagem deixa claro o que acontece quando essa promessa chega à Ucrânia: a guerra não é um contrato, mas sim uma máquina de destruir, e para aqueles que chegam sem raízes, sem uma rede de apoio ou a capacidade de se desvencilhar do fardo, o destino se reduz a uma data no papel e a um local perdido no leste do país.

Corpos kamikazes

Em outro ponto do mesmo conflito, surge uma cena que viralizou nas redes sociais, um vídeo ainda mais brutal: um mercenário africano é "armado" com uma mina antitanque TM-62 presa ao corpo e enviado em direção a posições ucranianas com a intenção de se explodir para abrir um bunker. O vídeo mostra a brutalidade sem metáforas: o homem protesta, mas um soldado russo o ameaça com um fuzil, o empurra, o joga para fora de um porão e ordena que ele corra para a floresta.

Chamam isso de "abridor de latas", como se fosse uma peça de engenharia, um instrumento projetado para arrombar uma porta ao custo de desaparecer, e a cena é registrada pelo que revela: não apenas estrangeiros são recrutados, mas empregados em missões onde a vida não é um valor a ser protegido, mas o mais próximo que se pode chegar de um detonador.

Estrangeiros na guerra

A Ucrânia afirma que há pelo menos 1.436 cidadãos de 36 países identificados como combatentes nas fileiras russas, e que o número real pode ser ainda maior. Fala-se, mais uma vez, de recrutamento por meio de promessas econômicas, engano ou pressão, e alerta para uma taxa mínima de sobrevivência: muitos não chegam mais de um mês após desembarcarem na frente de batalha.

A declaração, por mais dura que seja, condiz com o cenário traçado por essas histórias: pessoas que entram por rotas alternativas, que chegam atraídas por incentivos ou enganadas por intermediários, e que acabam absorvidas por uma guerra que devora tropas até que o reabastecimento se torne uma necessidade constante.

A guerra no cotidiano

O mais perturbador não é a existência do recrutamento, mas sim onde ele começa: num aplicativo de bate-papo com uma comunidade de jogadores, numa conversa que não soa como ultimato, mas como possibilidade de melhoria. O mais devastador é onde tudo termina: num contrato assinado longe de casa, num treinamento acelerado, numa frente onde o silêncio substitui as mensagens e, em casos extremos, num corpo forçado a correr com explosivos presos ao peito.

Toda essa cronologia se desenrola com uma frieza administrativa que contrasta com o horror real, como se a guerra moderna tivesse aprendido a entrar pela porta mais fácil (neste caso, a rotina digital, a promessa de uma vida melhor) para levar seus recrutas ao ponto em que não há mais nada a explicar, apenas sobreviver.

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