“Estão apostando com nossas vidas”: ex-pesquisador da OpenAI e Anthropic se demite e expõe medo interno de cientistas; especialista alerta que empresas estão acelerando corrida perigosa rumo à superinteligência que pode sair do controle até o fim da década

Pesquisador afirma que laboratórios conhecem os riscos da superinteligência, mas continuam avançando por medo de que concorrentes cheguem primeiro

“Estão apostando com nossas vidas”
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Natália P. Martins

Redatora

A corrida pelo desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial cada vez mais poderosos ganhou um novo capítulo nesta semana. Jacob Coxon, pesquisador britânico de 27 anos, anunciou sua saída da Anthropic e afirmou que também considera irresponsável a trajetória adotada pela OpenAI, onde trabalhou anteriormente.

Coxon passou os últimos três anos trabalhando com pré-treinamento de modelos de IA. Em uma publicação no X, ele afirmou que as duas empresas estão avançando em direção a uma “superinteligência autoaperfeiçoável” sem que os riscos estejam suficientemente controlados.  

“Nenhuma das empresas está agindo de forma responsável. Elas estão correndo diretamente para uma superinteligência autoaperfeiçoável e apostando com nossas vidas”, escreveu o pesquisador.

Coxon diz que o medo existe dentro das próprias empresas

Segundo o pesquisador, cientistas e executivos que trabalham diretamente no desenvolvimento desses sistemas também levam a possibilidade de uma catástrofe a sério.

Coxon afirmou que algumas dessas pessoas acreditam que uma IA suficientemente avançada poderia, em determinadas circunstâncias, representar uma ameaça existencial à humanidade ainda nesta década. Para ele, declarações públicas mais moderadas não necessariamente refletem o nível de preocupação discutido internamente.

Postagem de Jacob Coxon no X Postagem foi feita no perfil pessoa de Coxon no dia 8 de setembro. Imagem: Reprodução/X

A afirmação ganhou ainda mais repercussão depois que Evan Hubinger, líder de Alignment Science da Anthropic, respondeu publicamente a Coxon e concordou com parte da avaliação.

Resposta de Evan Hubinger à postagem de Cox Hubinger é líder na Anthropic e concordou com as afirmações de Coxon. Imagem: Reprodução/X

Alerta não significa que a IA atual esteja prestes a destruir a humanidade

Apesar do tom das declarações, não existe evidência de que os sistemas de IA disponíveis atualmente estejam próximos de eliminar a humanidade.  O próprio Hubinger fez essa distinção ao dizer que considera baixo o risco imediato dos modelos atuais. Sua preocupação está concentrada na possibilidade de sistemas futuros alcançarem capacidades muito superiores às humanas antes que os pesquisadores consigam solucionar o problema de alinhamento.

“Se eles realmente acreditam nisso, por que continuam construindo?”

Em sua postagem, Coxon antecipou uma das principais perguntas levantadas por seu alerta: se os pesquisadores acreditam que uma IA avançada pode representar um risco tão grande, por que continuam trabalhando para desenvolvê-la?

Na avaliação dele, existe uma diferença entre as duas empresas. Sobre a OpenAI, Coxon afirmou que muitos funcionários ainda não teriam incorporado completamente a dimensão dos riscos para a civilização. 

Já na Anthropic, segundo ele, os riscos seriam mais conhecidos, mas a empresa estaria presa a uma competição na qual acredita que precisa chegar primeiro para impedir que uma concorrente menos cuidadosa faça isso antes.

Procuradas pela AFP, OpenAI e Anthropic não haviam respondido publicamente às acusações de Coxon até a publicação das primeiras reportagens sobre o caso

Pesquisador defende coordenação entre empresas

Ainda em sua publicação, Coxon afirmou que uma corrida global de IA não deveria ser tratada como inevitável. Para ele, laboratórios poderiam estabelecer acordos para controlar o ritmo de desenvolvimento, com participação de governos e instituições externas.

O pesquisador chegou a defender medidas mais drásticas, como uma suspensão temporária de determinadas melhorias de capacidade dos modelos, caso essa seja uma das poucas maneiras de evitar uma corrida entre empresas e países.

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