Na desembocadura da ria do Nalón, pendurado sobre um penhasco fluvial, resiste um dos edifícios mais luxuosos da Espanha: o Castelo de San Martín. E, há poucas semanas, o mercado imobiliário de ultraluxo registrou um marco quando um empresário argentino pagou 10 milhões de euros (R$ 60 milhões) em dinheiro pela fortaleza.
O edifício domina há séculos o estuário de Soto del Barco, um município asturiano de apenas 3.800 habitantes. Foi uma operação de absoluto sigilo. Durante mais de cem anos, o complexo funcionou como residência particular de verão de uma das dinastias mais discretas do país. Caminhões de mudança o esvaziaram e retiraram os móveis dos antigos proprietários. O novo dono mantém sua identidade em segredo.
A família Fierro controlava o castelo desde 1919. Ildefonso González-Fierro, patriarca do clã, comprou-o enquanto construía seu império do carvão: San Esteban, a localidade vizinha, tornou-se então o primeiro porto carvoeiro da Espanha e os Fierro monopolizaram seu comércio e transporte marítimo. O patriarca transformou o edifício militar em um palácio. O terreno soma 43.485 metros quadrados cercados por muralhas. A residência principal, de um único andar e 767 metros quadrados, tem 24 quartos e 12 banheiros.
Vender um castelo inteiro nunca é simples. Em agosto de 2010, Yolanda Fierro, neta do fundador, interrompeu de imediato uma tentativa de venda do Castelo de San Martín: retirou a placa que estava pendurada no muro havia meses e encerrou o assunto garantindo que “isso tem que ficar na família”. Pouco depois, um fundo de investimento russo ofereceu 8 milhões de euros pelo conjunto.
A família recusou por considerar o valor baixo. E tinha seus motivos: nos anos 1990, quando foi feita a última grande reforma e foram instalados o elevador e a escada em espiral, acrescentou-se uma piscina coberta com uma Cruz da Vitória esculpida no fundo, além de “La Casona”, um anexo de três andares com quatro suítes. A poucos metros, outro edifício de 530 metros quadrados abriga quatro apartamentos para hóspedes, com garagem própria. A propriedade inclui ainda um embarcadouro privado com acesso direto ao mar Cantábrico.
Embora a imprensa asturiana tenha revelado a operação e veículos de comunicação argentinos tenham reproduzido a notícia posteriormente, como é habitual, não há mais informações sobre o novo proprietário. A única coisa clara é o tamanho de seu apetite imobiliário: os registros mostram que o mesmo empresário já havia comprado outra propriedade dos Fierro, uma fazenda em Maiorca avaliada em 50 milhões de euros (R$ 300 milhões), sobre a qual eles não conseguiam chegar a um acordo e que permanecia sempre fechada. Duas operações que somam R$ 360 milhões, ambas em dinheiro, ambas com a mesma família vendedora.
Romanos, masmorras e ouro sob a terra
O castelo vale mais do que suas muralhas reformadas. Sob as fundações há um sítio arqueológico de valor incalculável: um castro da Idade do Ferro, do século 8 antes de Cristo. Séculos depois, chegaram as legiões romanas, que ocuparam o local para controlar o tráfego fluvial e a extração de ouro nas proximidades. Vários especialistas situam aqui Flavionavia, um assentamento da Antiguidade cuja localização real ainda divide os acadêmicos. Ao escavar a piscina dos Fierro, nos anos 1990, foram encontradas tumbas de pedra, vestígios de fortificações romanas e sepultamentos do início da Idade Média.
A torre atual, de 120 metros quadrados, foi construída entre os séculos 11 e 13 para vigiar os ataques de piratas normandos. A construção manteve uma guarnição militar até o século 18. A lenda local acrescentou depois o rei Paene, um monarca mitológico a quem atribuem uma mesquita no alto da rocha, além de masmorras secretas, túneis de fuga até o rio e um tesouro de seis figuras de ouro maciço enterrado na lama.
Ignacio Fierro, o filho do patriarca que mais desfrutou do castelo, morreu em 2002. Desde então, o portão só foi aberto para escapadas familiares esporádicas. Agora, a propriedade atravessa o Atlântico e resta saber se o complexo receberá turistas ou se seus novos proprietários preferirão manter também um silêncio quase monástico diante de um dos locais historicamente mais relevantes da região.
Imagens | Pablo R. Alonso (Flickr)
Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.
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