Estados Unidos estão lançando esferas gigantes no mar com um objetivo: aproveitar uma das maiores fontes de energia renovável

Energia das ondas é peça que faltava no quebra-cabeça da energia renovável

Startup afirma que, para tirar o máximo proveito dela, basta "seguir o fluxo"

Imagem | Panthalassa e Matt Paul Catalano
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PH Mota

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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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A energia das ondas tem uma grande vantagem sobre outras fontes de energia renovável mais populares, como a solar ou a eólica: ela nunca para. As ondas são um recurso quase contínuo e extremamente energético. No entanto, é o patinho feio da energia verde porque sua natureza imprevisível e inconsistente torna a extração de energia uma tarefa hercúlea em termos de eficiência.

Uma startup americana, a Panthalassa, vem testando um protótipo no Oceano Pacífico que redefine fundamentalmente nossa relação com o oceano: em vez de resistir a ele, o dispositivo acompanha o fluxo.

A invenção

O Ocean-2 é um dispositivo que, à primeira vista, se assemelha a uma boia gigante. Durante testes em Puget Sound, Washington, várias pessoas relataram ter visto um objeto flutuante não identificado. A extremidade esférica (o nó) tem quase 10 metros de diâmetro e está montada em um casco tubular de aproximadamente 60 metros de comprimento que permanece submerso. Mas a analogia com uma boia é pertinente, visto que se trata de uma estrutura simples que oscila com as ondas. Quando está na horizontal, move-se, e quando está na vertical, entra em operação.

Por que isso é importante

Os oceanos cobrem 71% da Terra e sua energia possui uma vantagem que a energia solar e eólica não têm: a constância. O oceano gera energia independentemente de ser dia ou noite, de estar calmo ou nublado, tornando essa fonte de energia um complemento ideal para estabilizar as redes elétricas. O problema endêmico dessa tecnologia é sua baixa eficiência. Se este protótipo puder ser ampliado, poderá se tornar uma alternativa de energia limpa e independente, complementando as áreas costeiras.

Contexto

Em meio à corrida pela inteligência artificial e pelos data centers, o maior gargalo dos Estados Unidos é a energia, a ponto de estarem resgatando soluções antigas, como usinas termelétricas a combustíveis fósseis, e revitalizando sua indústria nuclear. É claro que, embora seu papel no conflito EUA-Israel-Irã seja diferente do da Europa, assim como seu acesso ao petróleo, a realidade é que o preço crescente do petróleo também não lhes é favorável. Nesse cenário, estão expandindo seus investimentos em energias renováveis.

A energia das ondas tem se mostrado promissora e decepcionante por décadas. Sal, corrosão, crescimento biológico em estruturas e o custo exorbitante da manutenção offshore afundaram, literal e figurativamente, dezenas de projetos em todo o mundo. O resultado: quase tudo permaneceu na fase piloto. A eficiência também nunca foi nada de extraordinário. Enquanto a energia das ondas estagnou, o preço da energia solar e eólica caiu tão rapidamente que deixou outras fontes de energia limpa sem competitividade. No entanto, a energia das ondas enfrenta uma nova oportunidade: a Ocean Energy Europe estima que sua carteira de projetos de implantação chegue a 165 MW até 2030, e os Estados Unidos investiram US$ 591 milhões em energia oceânica nos últimos cinco anos.

Quanta energia ela produz e para que serve?

No teste, conseguiu gerar até 50 kW em condições de ondas favoráveis. Para referência, isso equivale, naquele momento, à demanda média de cerca de 40 residências nos EUA, segundo dados da EIA, embora essa seja uma medição pontual, não um fornecimento contínuo.

No entanto, sua principal aplicação não é a rede elétrica doméstica, mas algo mais específico, como combustíveis limpos e computação: produzir hidrogênio verde que é transportado para a costa por navios autônomos e alimentar data centers no mar.

Como funciona

O projeto do Ocean-2 é mais filosófico do que técnico: não se trata tanto de resistir ao oceano, mas sim de se mover com ele. Com o fluxo e refluxo das ondas, a água é impulsionada por um tubo interno até a superfície esférica e, em seguida, flui através de turbinas para gerar energia. Quase não possui partes móveis, além da turbina, que é integrada à estrutura de aço.

A boia não possui redes ou elementos que possam aprisionar a vida marinha; opera silenciosamente e com movimentos lentos. O gerente ambiental da Panthalassa, Dr. Liam Chen, explicou à emissora de TV local KOMO que seu design suave e de baixo impacto permite que ela "viva em harmonia com o oceano". Testes em Puget Sound não mostraram alterações visíveis no ecossistema marinho circundante. De acordo com o cofundador Garth Sheldon-Coulson, essas máquinas podem ser fabricadas por cerca de US$ 1.500 por quilowatt.

O que vem a seguir?

Como explica seu cofundador, eles vêm trabalhando nisso há cerca de dez anos: os primeiros quatro ou cinco anos foram dedicados exclusivamente à pesquisa e desenvolvimento; em 2021, lançaram seu antecessor, o Ocean-1; em 2024, o Ocean-2 foi lançado; e o Ocean-3 já está em desenvolvimento e progredindo de forma constante na obtenção de financiamento.

Até agora, tudo se resume a testes e protótipos, pois o projeto está na fase experimental. Isso significa que não há um único quilowatt comercial gerado, nenhuma rede conectada e nenhum dado de durabilidade a longo prazo. E o mar não é exatamente um ambiente fácil: saber como ele resistirá a tempestades e à passagem do tempo, como a manutenção será feita ou mesmo algo tão básico quanto a transferência de energia do dispositivo para a rede é essencial. Sem mencionar o custo, especialmente considerando a queda nos custos da energia solar e eólica, ambas tecnologias maduras, estabelecidas e muito baratas.

Imagem | Panthalassa e Matt Paul Catalano

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