Esse bartender de 29 anos descobriu uma falha em um caixa eletrônico que permitia que ele sacasse dinheiro infinito

Sem hackear sistemas nem invadir bancos, um bartender australiano movimentou mais de 1 milhão de dólares em 5 meses

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Natália P. Martins

Redatora

O que começou como uma tentativa de sacar dinheiro depois de uma noite no bar acabou se transformando em um dos casos mais curiosos envolvendo falhas bancárias já registrados na Austrália. Em 2011, Dan Saunders, então com 29 anos e trabalhando como bartender na cidade de Wangaratta, descobriu por acaso uma brecha no sistema de um banco que permitia sacar muito mais dinheiro do que realmente possuía na conta.

Durante cerca de cinco meses, ele movimentou aproximadamente US$ 1,6 milhão, viveu como milionário e bancou festas, viagens e até mensalidades da universidade de amigos. 

Bartender sacou o dinheito e achou que não passasse de um sonho

Segundo Saunders, em entrevista ao podcast Extremes, da revista VICE, tudo aconteceu depois de uma noite de bebedeira. Ao tentar consultar o saldo da conta em um caixa eletrônico, a tela exibia apenas a mensagem de que o saldo estava "indisponível no momento".

Intrigado, ele resolveu fazer uma transferência de 200 dólares pelo limite de crédito para a poupança. A operação aparecia como cancelada e o crédito era devolvido.

"Achei aquilo muito estranho, então resolvi tentar sacar 200 dólares da poupança só para ver o que acontecia. E o dinheiro saiu normalmente", contou.

Sem entender exatamente o que havia ocorrido, voltou para o bar. Horas depois, ao passar novamente pelo mesmo caixa eletrônico, decidiu repetir o procedimento.

"Transferi mais 200 dólares e saquei. Depois tentei 500, depois 600. Acho que foi uma mistura de estar meio bêbado e entediado. Continuei tentando várias e várias vezes. Parecia um truque de mágica", relembrou.

Na manhã seguinte, acreditava que tudo não passava de uma lembrança confusa da noite anterior. Mas o dinheiro continuava na carteira.

Brecha explorava um atraso na atualização do saldo bancário

Ao consultar o saldo na manhã seguinte, Saunders percebeu que sua conta estava negativa em cerca de US$ 2 mil. Foi então que começou a entender o funcionamento da falha.

Segundo ele, existia um atraso entre as transferências realizadas durante a madrugada e a atualização definitiva do saldo no sistema do banco. Nesse intervalo, o caixa eletrônico reconhecia temporariamente o valor da transferência como saldo disponível, mesmo que a operação ainda não tivesse sido concluída.

Saunders fazia uma transferência da conta de crédito para a poupança durante a madrugada. Embora o sistema registrasse a operação como cancelada, o caixa eletrônico ainda "enxergava" aquele valor como disponível e liberava o saque em dinheiro.

Horas depois, quando o sistema central do banco voltava a sincronizar as informações, a transferência era revertida automaticamente e a conta ficava negativa. Mas o dinheiro físico já havia sido retirado do caixa eletrônico.

Para continuar sacando dinheiro, Saunders repetia o procedimento diariamente, sempre antes que o banco concluísse o processamento das operações anteriores. Dessa forma, permanecia constantemente "um passo à frente" do sistema.

"Eu podia 'criar' dinheiro fazendo uma transferência naquele horário. Bastava continuar um dia à frente do estorno", afirmou.

O bartender nunca revelou qual era o limite de crédito de sua conta, mas ele não precisava ser milionário para que o esquema funcionasse. Os cerca de US$ 1,6 milhão movimentados ao longo de cinco meses foram resultado da repetição diária da falha, e não de um único saque ou de um limite excepcionalmente alto. 

Saunders reutilizava o mesmo limite de crédito antes que o banco conseguisse corrigir o saldo da conta.

Bartender passou cinco meses vivendo como milionário

Depois de perceber que o erro realmente funcionava, Saunders passou a gastar o dinheiro em ritmo acelerado.

Ele contou que depositou dinheiro na conta conjunta com a esposa, pagou rodadas de bebidas para desconhecidos, organizou festas extravagantes, fretou jatos particulares e ajudou amigos pagando mensalidades da universidade.

"A possibilidade de fazer o saldo da conta subir para milhões com um simples clique era algo extremamente viciante. Eu me sentia como um homem das cavernas descobrindo o fogo", disse.
Dan Bartender movimentou U$1,6 milhão em 5 meses. Foto: Reprodução/VICE

Sentimento de culpa a pesou mais do que o dinheiro no bolso

Apesar da vida de luxo repentina, Saunders contou que nunca conseguiu aproveitar completamente a situação. Com o passar dos meses, desenvolveu crises de ansiedade, pesadelos frequentes e a sensação constante de que seria preso a qualquer momento.

"Eu sonhava que a polícia estava na porta do meu quarto de hotel. Acordava encharcado de suor. Quando o telefone tocava, sempre imaginava que era o banco ou a polícia", contou.

Ele afirma que uma parte dele queria que tudo terminasse. Foi então que decidiu interromper o esquema. Entrou em contato com o banco para informar o ocorrido e afirmou que ainda possuía cerca de US$ 80 mil em espécie, guardados em uma sacola de lavanderia de um hotel, prontos para serem devolvidos.

Mesmo após confissão, polícia demorou anos para agir

Mesmo tendo procurado o banco, Saunders contou que ficou quase dois anos sem receber qualquer contato das autoridades. A espera acabou agravando sua ansiedade. Ele procurou ajuda psiquiátrica e, seguindo a recomendação do terapeuta, decidiu tornar a história pública para finalmente responder pelo caso.

Concedeu entrevistas à imprensa australiana e participou de programas de televisão antes mesmo de ser formalmente acusado. Somente depois disso a investigação ganhou andamento.

No julgamento, declarou-se culpado. Segundo ele, nem mesmo o tribunal parecia compreender exatamente como a falha bancária havia funcionado.

"Achei que receberia uma pena muito mais pesada. Mas ninguém entendia direito o que eu tinha feito — nem o juiz, nem o promotor. Foi uma situação muito estranha", afirmou.

Saunders foi condenado a um ano de prisão, pena posteriormente convertida em 18 meses de serviços comunitários

Depois do caso, voltou a trabalhar como bartender, recebendo cerca de 22 dólares australianos por hora.


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