"É tendência e tem mais antioxidantes do que mirtilos": a ascensão nutricional do açaí na Europa

Sucesso global é tamanho que Amazônia criou uma bioeconomia em torno das abelhas que o polinizam

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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Em plena era do bem-estar, nos acostumamos a ver nossas redes sociais inundadas de alimentos exóticos e visualmente atraentes. Abandonamos o sedentarismo e abraçamos tendências que, há poucos anos, pareciam impossíveis de encontrar. Aconteceu com o chá matcha, com o leite de coco e, nos últimos anos, o rei indiscutível da "postura" saudável tem sido o açaí, onipresente em tigelas coloridas promovidas por gurus da nutrição.

Isso em termos internacionais, é claro, visto que o alimento já tem espaço no Brasil, especialmente na região Norte, como elemento cultural.

No entanto, o que parecia ser apenas mais uma moda passageira importada dos Estados Unidos acaba de dar o salto definitivo para o consumo em massa na Europa, por exemplo Espanha. O Mercadona aderiu a essa febre, lançando um sorvete de açaí com sabor de guaraná para este verão do hemisfério norte.

A democratização do produto levanta uma questão inevitável: por trás desse turbilhão comercial e estético, existem benefícios reais ou é tudo apenas propaganda? As evidências médicas são conclusivas: estamos diante de um superalimento que literalmente esmaga concorrentes históricos como o mirtilo.

A verdadeira história do açaí

Para entender o fenômeno, precisamos primeiro esclarecer exatamente o que estamos comendo. O açaí (Euterpe oleracea) não é tecnicamente uma baga, mas uma drupa (uma fruta com um grande caroço central que ocupa até 80% do seu volume). Ela cresce no alto das palmeiras da floresta amazônica, na América Central e do Sul, onde é um alimento básico para comunidades indígenas há séculos.

Por que não a encontramos fresca nas bancas de frutas do bairro? A resposta é logística. O açaí fresco tem uma vida útil muito curta e estraga em apenas 24 horas após a colheita. Portanto, a única maneira de exportá-lo é como polpa congelada ou pó liofilizado.

Verdadeira potência antioxidante

A estética do Instagram inicialmente ofuscou o que a comunidade médica vem estudando com espanto há algum tempo. "Está na moda, sim, mas também tem mais antioxidantes do que o mirtilo", afirma enfaticamente a Dra. Sara Marín Berbell na revista Women's Health. A chave do seu poder está nas antocianinas, o pigmento vegetal que lhe confere a sua característica cor roxa escura e protege as nossas células contra os danos oxidativos responsáveis ​​pelo envelhecimento precoce.

Seu perfil nutricional é uma raridade no mundo das frutas. Como apontam sites de saúde como o Healthline, o açaí é excepcionalmente rico em gorduras saudáveis ​​e muito baixo em açúcar (contém naturalmente apenas cerca de 2 gramas por 100 gramas). Além disso, a nutricionista Julia Zumpano, da Cleveland Clinic, explica que o açaí é rico em fitoesteróis, compostos vegetais que bloqueiam a absorção de colesterol na corrente sanguínea, protegendo nossa saúde cardiovascular.

Seu impacto vai ainda mais longe. É um aliado excepcional para o controle do açúcar no sangue; seu índice glicêmico é de apenas 24, bem abaixo dos 72 da melancia ou dos 75 do pão branco. E como se não bastasse, seus polifenóis atuam como um poderoso prebiótico. Chegando ao cólon quase intactos, servem de alimento para nossa microbiota intestinal, fortalecendo a barreira intestinal. Em nível neurológico, os antioxidantes do açaí ajudam a proteger as células cerebrais do estresse oxidativo que leva ao declínio cognitivo.

Armadilha do supermercado

Com um histórico médico tão impecável, é fácil cair na armadilha de pensar que qualquer produto com a palavra "açaí" no rótulo é saudável. E é aqui que os especialistas emitem um sério alerta sobre a sua chegada aos supermercados e cafés.

O recente sorvete da Mercadona acendeu o alerta entre os nutricionistas. O nutricionista Miguel Ángel Ruiz desmonta o rótulo: "Se olharmos para o valor nutricional, vemos que a cada 100 gramas contém 11 gramas de açúcar [...] A fruta natural tem cerca de 2 ou 3 gramas." Embora o primeiro ingrediente seja a polpa de açaí (55%), o açúcar é o terceiro. Por sua vez, o nutricionista Carlos Ríos acrescenta ao El Correo que o produto inclui emulsificantes problemáticos, como a carboximetilcelulose, que é inflamatória e perturba a microbiota intestinal.

Cada vez mais popular em cafés

A nutricionista Julie Harrington alerta na revista EatingWell que as populares tigelas de açaí podem rapidamente se tornar bombas calóricas se não forem preparadas com cuidado, especialmente quando os cafés usam bases açucaradas ou exageram na quantidade de xaropes e coberturas.

A solução? Ir a supermercados que oferecem alternativas reais e puras, como os tabletes de açaí 100% congelados e sem adição de açúcar vendidos pela Alcampo, permitindo que os consumidores preparem sua própria versão verdadeiramente saudável em casa.

Ouro roxo

O impacto do açaí transcendeu nossas dietas para se tornar uma questão de importância nacional e de sobrevivência ecológica. Os valores que gera (estimados em mais de um bilhão de dólares anualmente em todo o mundo) atraíram a atenção de grandes corporações. Como relatado pela France 24, no início deste ano o Brasil declarou o açaí sua "fruta nacional" em uma tentativa desesperada de se proteger contra a biopirataria internacional. O perigo é real, já que em 2003, uma empresa japonesa registrou a marca "açaí", e foram necessários anos de litígio para recuperar o controle do nome.

Mas o segredo do açaí não está apenas na palmeira, mas também em quem cuida dela. Pesquisas publicadas na revista científica Springer revelaram que as verdadeiras heroínas por trás desse superalimento são as abelhas nativas sem ferrão (meliponíneos) da Amazônia. Esses insetos são responsáveis ​​por 60% da polinização da fruta.

Este ecossistema criou uma bioeconomia fascinante. Como documentado pela Mongabay, famílias amazônicas estão abandonando a pecuária e o desmatamento para se dedicarem ao cultivo sustentável do açaí e à criação dessas abelhas. O própolis produzido por esses insetos, potencializado pelo pólen da palmeira de açaí, demonstrou em ensaios clínicos possuir propriedades curativas e anti-inflamatórias comparáveis ​​às de medicamentos comerciais, abrindo um novo caminho econômico por meio de cosméticos naturais que protegem, em vez de destruir, a floresta tropical.

Superalimento, não nilagre

Em resumo, a ciência confirmou que o açaí é, merecidamente, um "ouro roxo". Seus benefícios cardiovasculares, neurológicos e antioxidantes não são uma miragem criada pelas redes sociais.

No entanto, rigor exige cautela. A especialista Julia Zumpano é categórica em rejeitar as populares "dietas detox" baseadas exclusivamente na ingestão de suplementos de açaí, alertando que elas carecem de evidências científicas e podem ser perigosas. Como conclui a Dra. Marín Berbell, a chave é sempre a variedade. O açaí não deve substituir frutas como morangos, melão ou, ironicamente, mirtilos, em uma dieta equilibrada.

O açaí é uma das descobertas nutricionais mais poderosas do nosso século, mas a responsabilidade agora recai sobre o consumidor: aproveitar suas formidáveis ​​propriedades naturais sem se deixar enganar por sorvetes açucarados disfarçados de superalimentos.

Imagem | Unsplash

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