A ciência revela por que pessoas picadas por escorpião podem desenvolver resistência à anestesia pela vida inteira

O efeito do veneno pode permanecer depois da picada e alterar a resposta do organismo a anestésicos locais

Escorpiao
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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O veneno de um escorpião pode deixar uma espécie de marca no sistema nervoso que só aparece novamente anos depois, durante uma anestesia. Um estudo publicado na Revista Indiana de Anestesia descreveu o caso de uma mulher que não apresentou resposta a diferentes formas de anestesia local e tinha um histórico de duas picadas de escorpião. A hipótese levantada pelos pesquisadores é que as toxinas do veneno podem interferir nos canais de sódio das células nervosas, que também são alvos dos anestésicos locais. Essa interação pode ser a chave para explicar casos raros em que a anestesia falha mesmo quando o medicamento e a técnica utilizados estão corretos.

Duas picadas foram suficientes para levantar uma hipótese sobre a anestesia

A história que levou os pesquisadores a investigar essa possibilidade começou durante uma cirurgia. Uma mulher de 65 anos foi submetida a uma tentativa de raquianestesia com bupivacaína, mas não apresentou nem bloqueio sensitivo nem motor. A técnica foi repetida por um médico experiente, em outro espaço da coluna e com um medicamento de lote e marca diferentes. Mesmo após 30 minutos, o resultado foi o mesmo.

Foi somente depois de uma investigação mais detalhada sobre o histórico da paciente que apareceu uma informação que poderia explicar o comportamento incomum. Ela havia sido picada por escorpião duas vezes:

  • a primeira picada ocorreu quando tinha 17 anos;
  • a segunda aconteceu cerca de oito meses antes da cirurgia;
  • na ocasião mais recente, as picadas atingiram rosto, pescoço, braço direito e antebraço.

A equipe então precisou recorrer à anestesia geral para realizar a cirurgia. O procedimento durou 105 minutos e ocorreu sem complicações. Mas os pesquisadores tiveram uma oportunidade de testar a hipótese posteriormente. No oitavo dia após a operação, aplicaram bupivacaína para bloquear os nervos mediano, ulnar e ramo interósseo anterior do radial no punho esquerdo. Também fizeram uma infiltração local com xilocaína. Mais uma vez, não houve bloqueio sensitivo nem motor.

Esse detalhe foi importante porque afastava uma explicação restrita à anestesia na coluna. A paciente também não respondeu quando o anestésico foi aplicado diretamente perto dos nervos periféricos ou infiltrado localmente.

O que os canais de sódio têm a ver com isso?

anestesia A possível explicação está nos canais de sódio dos neurônios: o veneno do escorpião interfere nessas estruturas e, segundo a hipótese dos pesquisadores, uma exposição anterior poderia alterar a forma como elas respondem a anestésicos que também dependem desses canais para bloquear a transmissão da dor

Para entender a hipótese, é preciso olhar para o funcionamento dos anestésicos locais. Esses medicamentos atuam nos canais de sódio presentes nas fibras nervosas, estruturas fundamentais para a transmissão dos sinais elétricos responsáveis pela sensação. O veneno de determinados escorpiões também interfere nesses canais. Segundo o estudo, suas neurotoxinas podem aumentar a permeabilidade das membranas ao sódio e alterar a maneira como esses canais são ativados e inativados.

É essa sobreposição que chamou a atenção dos pesquisadores. Os autores apontam que tanto as toxinas do escorpião quanto os anestésicos locais podem interagir com uma região específica do canal de sódio, conhecida como sexto segmento do domínio IV da subunidade alfa, ou IV-S6.

A hipótese apresentada no estudo é que a exposição ao veneno poderia desencadear uma resposta imunológica. Anticorpos produzidos após a picada permaneceriam na circulação e, em uma exposição posterior aos anestésicos locais, poderiam interferir na interação desses medicamentos com o canal de sódio. Os pesquisadores levantam ainda a possibilidade de que uma segunda picada intensifique essa resposta.

O histórico de picadas pode mudar a resposta ao anestésico

O caso estudado não foi a única observação usada pelos pesquisadores para sustentar a hipótese. O material também cita um estudo de caso-controle com 70 pacientes, divididos entre pessoas com e sem histórico de picada de escorpião e submetidos a cirurgias eletivas com raquianestesia.

Os resultados descritos foram diferentes entre os grupos. Os 35 pacientes que tinham histórico de picada apresentaram maior tempo para o início e para atingir o pico do bloqueio sensitivo e motor. Além disso, esse grupo apresentou casos de bloqueio incompleto, falha total ou início tardio, enquanto o grupo sem histórico de picada teve bloqueios considerados adequados.

Outro ponto observado nas fontes é a relação entre a intensidade do fenômeno e o histórico de exposição. A hipótese descrita é que mais picadas e um intervalo menor entre a última picada e o uso do anestésico poderiam estar associados a uma resposta mais pronunciada. Isso ajuda a explicar por que o histórico do paciente pode ser relevante antes de uma cirurgia. Uma falha anestésica nem sempre significa que houve erro na aplicação. O estudo lembra que bloqueios espinhais podem falhar por diferentes motivos, incluindo problemas técnicos, distribuição inadequada do medicamento, erro de medicação e, em casos mais raros, uma possível resistência aos anestésicos locais.

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