A ciência aponta os principais vilões do envelhecimento do coração fatores como o tabagismo, sedentarismo, colesterol alto e hipertensão. Mas um novo estudo conduzido por pesquisadores da Mayo Clinic, nos Estados Unidos, indica que o problema pode ser ainda mais profundo e muito mais comum do que se imagina.
A pesquisa, publicada na revista Mayo Clinic Proceedings, analisou dados de mais de 280 mil adultos atendidos entre 2018 e 2023 e utilizou inteligência artificial para estimar a idade biológica do coração a partir de exames de eletrocardiograma. O objetivo era entender como fatores sociais influenciam na saúde cardiovascular, mas o resultado da análise mostrou algo surpreendente: viver sob pressão financeira constante e enfrentar insegurança alimentar pode envelhecer o coração mais rapidamente e, em alguns casos, mais até do que fatores clássicos como o cigarro.
Dificuldade financeira e insegurança alimentar também afetam o coração
Ao aprofundar a análise, os pesquisadores identificaram que alguns determinantes sociais da saúde, como renda, acesso à alimentação, moradia e condições de vida, também têm um peso significativo no envelhecimento do coração. Entre todos os fatores avaliados, dois se destacaram de forma contundente: dificuldade financeira e insegurança alimentar.
Esse resultado mostra que pessoas que vivem preocupadas com dinheiro ou sem acesso a uma alimentação adequada apresentam um risco maior de ter um coração biologicamente mais velho, o que aumenta as chances de doenças cardiovasculares e morte precoce.
Os números são a prova viva desse impacto. Em um período de apenas dois anos, indivíduos com dificuldades financeiras tiveram um risco de morte cerca de 60% maior. Para se ter ideia da gravidade desse dado, o tabagismo aparece associado a um aumento de 27%, enquanto um histórico de infarto elevou o risco em cerca de 10%. O estudo mostra que esses fatores sociais não atuam sozinhos, pois se conectam com condições clínicas e comportamentais, potencializando seus efeitos. É uma mudança importante na forma de entender a saúde do coração, que deixa de ser apenas uma questão médica e passa a refletir também o contexto social em que a pessoa vive.
Estudo reforça impacto da desigualdade social na saúde do coração no Brasil
Pessoas que vivem preocupadas com dinheiro apresentam um risco maior de desenvolver doenças cardiovasculares
Embora o estudo tenha sido realizado com um grupo de pessoas predominantemente norte-americanos, as conclusões também se refletem na realidade do Brasil, onde desigualdade social e dificuldades econômicas fazem parte da vida de milhões de pessoas. Por isso, especialistas acreditam que não basta olhar apenas para hábitos individuais. O acesso a alimentação de qualidade, tempo para atividade física, segurança e estabilidade financeira também determinam o risco cardiovascular.
Em um mundo em que doenças do coração são a principal causa de morte, esses dados trazem ainda mais preocupação. Eles indicam que políticas públicas voltadas para redução da desigualdade, melhoria das condições de vida e ampliação do acesso a serviços básicos podem ter impacto direto na saúde da população.
Além disso, o estudo também reforça a importância do papel da tecnologia na medicina. O uso de inteligência artificial para estimar a idade do coração a partir de exames simples de imagem permite diagnósticos mais precoces e personalizados.
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