Uma das principais especialistas que ajudaram a moldar a compreensão moderna do autismo afirmou que o conceito de “espectro do autismo” pode ter se tornado amplo demais para continuar sendo útil como diagnóstico clínico.
A avaliação foi feita por Uta Frith, professora emérita do University College London e pesquisadora do Institute of Cognitive Neuroscience. Aos 84 anos, ela participou desde a década de 1960 de estudos fundamentais sobre Transtorno do Espectro Autista e esteve envolvida na formulação de teorias que ajudaram a estabelecer o próprio conceito de espectro.
Em entrevista ao jornal The Times, Frith afirmou que a ampliação dos critérios ao longo das últimas décadas fez com que o diagnóstico passasse a incluir grupos muito diferentes entre si.
“O espectro tornou-se tão abrangente que temo que tenha sido esticado a tal ponto que perdeu o sentido e deixou de ser útil como diagnóstico médico”, disse.
O aumento dos diagnósticos nas últimas décadas
Dados do sistema de saúde da Reino Unido indicam que o número de diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista cresceu significativamente ao longo das últimas décadas.
Em 1998, cerca de 0,1% da população tinha diagnóstico de autismo. Em 2024, essa proporção chegou a 1,33%.
De acordo com a Frith, os casos mais clássicos — geralmente identificados na infância e associados a dificuldades mais marcantes — permaneceram relativamente estáveis. O aumento ocorreu principalmente em diagnósticos considerados mais leves, incluindo adolescentes e adultos avaliados apenas mais tarde na vida.
“As pessoas ainda se apegam à ideia de que existe algo que une todas as pessoas diagnosticadas com autismo. Eu não acredito mais nisso”, disse a especialista.
Uta Frith participa de estudos sobre o autismo desde 1960. Foto: Annie Mackinder/BBC
Diferenças entre os perfis incluídos no espectro
A ampliação do conceito de espectro fez com que pessoas com características bastante diferentes passassem a ser incluídas na mesma categoria diagnóstica. Entre os perfis que hoje aparecem com maior frequência estão indivíduos com forte sensibilidade social ou sensorial, além de pessoas que apresentam ansiedade em situações sociais.
Estudos realizados em países como os Estados Unidos e a Suécia também apontam crescimento no número de diagnósticos entre mulheres, especialmente na adolescência e na vida adulta.
Para Frith, parte dessa expansão pode estar ligada à inclusão de características que, no passado, poderiam ser interpretadas apenas como traços de personalidade ou diferenças individuais.
Diagnósticos são baseados em avaliação clínica
Outro fator destacado pela pesquisadora é que o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista não possui biomarcadores definidos — como exames laboratoriais ou de imagem capazes de confirmar a condição.
Por isso, a identificação depende principalmente da avaliação clínica, baseada no comportamento, na comunicação e em padrões de interação social.
Segundo Frith, essa característica pode contribuir para interpretações mais amplas dos critérios diagnósticos.
A proposta de reorganizar o diagnóstico
Diante dessas mudanças, a pesquisadora sugere que o campo científico considere reorganizar a classificação atual em subgrupos mais específicos.
“Eu definitivamente não diria que estão 'inventando'. Mas diria que esses são problemas que talvez possam ser tratados muito melhor do que sob o rótulo de 'autismo'”, explica.
Na visão da especialista, separar esses grupos — entre diagnosticados na infância e pessoas com diagnóstico tardio — poderia ajudar tanto nas avaliaçãoes quanto na interpretação de estudos científicos, que atualmente analisam populações muito heterogêneas dentro do mesmo espectro.
Foto de capa: Shutterstock
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