Bryan Johnson, homem que queria viver até os 100 anos, admite que "foi longe demais em busca pela longevidade"

Ícone do biohacking reconhece que existe limite onde a busca por mais anos de vida pode ofuscar a experiência de viver

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PH Mota

Redator
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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Durante anos, Bryan Johnson transformou seu corpo no experimento de longevidade mais famoso do planeta. O bilionário americano gastava até dois milhões de dólares por ano, ingeria mais de cem comprimidos diariamente, monitorava praticamente todos os órgãos do seu corpo e argumentava que a tecnologia eventualmente transformaria a fonte da juventude em realidade. No entanto, o homem que popularizou o slogan "Não Morra" acaba de admitir algo que parecia impensável: talvez ele tenha levado sua obsessão por viver mais tempo longe demais.

Longevidade como experimento

Johnson ganhou notoriedade após vender a empresa de pagamentos Braintree e dedicar parte de sua fortuna ao Projeto Blueprint, um programa criado para retardar o envelhecimento.

Sua rotina incluía uma dieta rigorosamente controlada, exercícios diários, dezenas de exames médicos, centenas de biomarcadores, uma equipe de cerca de trinta médicos e tratamentos experimentais que variavam de câmaras hiperbáricas a transfusões de plasma (posteriormente abandonadas). Johnson chegou a se autodenominar um "atleta do rejuvenescimento" e argumentou que seu corpo era provavelmente o organismo humano mais monitorado da história.

Não se tratava (apenas) de viver um pouco mais

Porque Johnson não concebia seu projeto como um simples programa de saúde, mas como o início de uma nova era para a humanidade. Ele chegou a questionar publicamente se nossa geração seria a primeira a não morrer como todas as gerações anteriores e afirmou que a fonte da juventude não pertencia mais ao reino do mito, mas poderia ser encontrada nas tecnologias atuais.

Seu movimento "Não Morra" acabou se tornando uma filosofia que combinava medicina preventiva, inteligência artificial, biohacking e a ideia de que o envelhecimento poderia se tornar um problema técnico passível de otimização.

Obsessão de uma indústria multibilionária

A popularidade de Johnson coincidiu com a ascensão de uma nova economia da longevidade. Clínicas especializadas, suplementos, testes genéticos, biomarcadores, tratamentos hormonais e medicamentos para otimizar o corpo começaram a fazer parte de um mercado cada vez mais lucrativo, especialmente entre a elite tecnológica.

Johnson tornou-se o rosto mais visível dessa tendência, mas também o exemplo extremo de uma cultura que aspirava a medir, otimizar e aperfeiçoar todos os aspectos do corpo humano, confundindo a linha entre cuidar da saúde e buscar uma versão idealizada de si mesmo.

Diagnóstico

Neste verão, Johnson anunciou que sofria de gastrite autoimune, que havia passado despercebida por anos, apesar do acompanhamento médico exaustivo a que se submetia. O diagnóstico foi um duro golpe para alguém que baseava grande parte de seu discurso na capacidade da ciência de antecipar a deterioração do corpo.

Pouco depois, ele publicou uma mensagem surpreendentemente breve nas redes sociais: "Tenho refletido e me perguntado se levei essa história de longevidade longe demais". Foi a primeira vez que o homem que havia defendido veementemente seu experimento insinuou dúvidas sobre o caminho que havia trilhado.

Nem mesmo o homem mais tecnologicamente avançado escapa aos limites

Sem dúvida, a ironia é difícil de ignorar. Durante anos, Johnson transformou cada teste, dado e tratamento em uma tentativa de controlar o envelhecimento com precisão quase cirúrgica. No entanto, uma doença autoimune surgiu, e seu enorme aparato tecnológico falhou em detectá-la a tempo, lembrando-nos de que a medicina preventiva tem seus limites e que a complexidade do corpo humano ainda ultrapassa em muito nossa capacidade de compreendê-lo completamente.

Ao longo do caminho, seu caso também serviu como um lembrete de que experimentar em si mesmo não equivale necessariamente a gerar evidências científicas sólidas, especialmente quando dezenas de intervenções são combinadas simultaneamente.

A maior lição de Johnson

A confissão de Johnson não implica que ele tenha abandonado sua busca pela longevidade, mas reflete uma mudança significativa de perspectiva. Depois de anos argumentando que todos os aspectos do corpo poderiam ser otimizados, a figura mais importante do biohacking no mundo reconhece que existe um limite além do qual a busca por uma vida mais longa pode ofuscar a própria experiência de viver.

Paradoxalmente, o homem que levou o sonho de vencer o envelhecimento mais longe acaba de oferecer a reflexão mais humana de toda a sua experiência: talvez a questão nunca tenha sido apenas quanto tempo podemos viver, mas até onde estamos dispostos a ir para alcançar esse objetivo.

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