A ESA fotografou o coração da nossa galáxia como nunca antes; e fez isso em um único dia

Nem tudo seria escuridão para Euclides

A ESA fotografou o coração da nossa galáxia como nunca antes. E fez isso em um único dia.
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Fabrício Mainenti

Redator

O centro da nossa Via Láctea é um pouco como um pôr do sol no castelo de Santorini: todos querem fotografá-lo — ou, neste caso, todos os astrônomos querem. O motivo, essencialmente, é a alta concentração de estrelas, o que fornece uma enorme quantidade de material para ser analisado em busca de possíveis exoplanetas.

Infelizmente, a maioria das fotos tiradas até o momento não tinha a resolução ideal para esse tipo de busca. No entanto, graças ao Telescópio Euclid — projetado pela ESA para estudar a matéria escura e a energia escura — agora temos a maior e mais detalhada imagem já produzida dessa região da nossa galáxia.

Há luz além da escuridão

Ao estudar bilhões de galáxias distantes, o Euclid nos permite observar a expansão do Universo e, nesse processo, determinar a possível presença de matéria escura. Neste caso, porém, ele foi utilizado para um propósito diferente. 

Os astrônomos aproveitaram sua capacidade de capturar imagens nítidas de vastas áreas do céu, tirando nove fotografias de regiões maiores que a Lua cheia. Eles combinaram essas imagens em um mosaico que revela — com clareza sem precedentes — mais de 60 milhões de estrelas, bem como nebulosas e aglomerados estelares.

Um catálogo de eventos de microlente

O objetivo dessa fotografia é detectar eventos de microlente gravitacional. Eles ocorrem quando duas estrelas se alinham em relação a um observador (o telescópio) de tal forma que a gravidade da estrela mais próxima desvia a luz da estrela situada atrás dela, agindo como uma lente de aumento. Se a estrela mais próxima também tiver um planeta em órbita, a gravidade desse planeta também contribui para o processo.

Isso faz com que a luz se desvie de forma assimétrica, servindo como um sinal revelador na busca por exoplanetas. Naturalmente, o estudo desse fenômeno exige catálogos que contenham um grande número de estrelas — e não há nada comparável a um catálogo com essa precisão.

É preciso tempo

Detectar essas irregularidades na luz desviada requer pelo menos 20 dias de observação; portanto, uma única imagem do Euclid não é suficiente para essa tarefa. No entanto, esse catálogo de alta precisão servirá como ponto de partida para o telescópio Nancy Grace Roman, assim que ele for lançado ao espaço.

Ao comparar a mesma área ao longo do tempo, é possível não apenas detectar eventos de microlente, mas também observar como eles mudam. Isso possibilita a detecção de exoplanetas e — ao observar sua velocidade de movimento — o cálculo de sua massa.

Etapas preliminares

Catálogos como este já foram criados anteriormente, embora com muito menos precisão. De fato, 300 exoplanetas já foram detectados utilizando o método de microlente gravitacional. O problema é que esses esforços sempre dependeram de telescópios em solo, que capturam imagens menos nítidas devido à interferência da atmosfera terrestre.

Telescópios do Observatório Keck, por exemplo, têm sido amplamente utilizados. No entanto, as imagens que o Euclid capturou em apenas 26 horas teriam exigido mais de 2.000 horas de observação por parte desses outros telescópios.

Ainda assim, o Euclid aproveitará alguns desses esforços anteriores. Por exemplo, dados do Observatório Keck e do Telescópio Espacial Hubble (que opera no espaço, mas examina áreas menores do céu) permitiram aos astrônomos calcular a massa de dois exoplanetas gelados já conhecidos. Ao observar variações nas posições estelares, eles conseguiram realizar os cálculos necessários.

A ESA fotografou o coração da nossa galáxia como nunca antes. E fez isso em um único dia.

Em suma

O Euclid produziu o catálogo de estrelas do centro da nossa galáxia mais abrangente da história. No final das contas, porém, seu sucesso depende fortemente do trabalho em equipe — uma colaboração que já envolve o Observatório Keck e o Hubble, e que se estenderá a futuros telescópios, particularmente o Nancy Grace Roman.

Imagens | ESA

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