A pergunta que não quer calar: se sapiens e neandertais se relacionavam, por que uma espécie sobreviveu e a outra não?

Por razões sociais e demográficas, alguns tipos de união aconteciam mais do que outros

Neandertais
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Victor Bianchin

Redator
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Victor Bianchin

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Victor Bianchin é jornalista.

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Em 1856, enquanto trabalhavam em uma pedreira de calcário perto de Düsseldorf, dois trabalhadores italianos encontraram uma bacia cheia de ossos. Eles pensaram que eram restos de um urso e os levaram a um professor de uma cidade próxima, conhecido por ser colecionador de ossos. Eles não faziam ideia do que estavam prestes a desencadear.

Quando viu os ossos, Johann C. Fuhlrott percebeu que não eram de urso. Ele levou os restos para a Universidade de Bonn e, junto com Hermann Schaaffhausen, comunicou a descoberta ao mundo. Ninguém levou muito a sério. Chegou-se a dizer que se tratava de um cossaco russo com raquitismo que teria perseguido Napoleão pela Europa.

Até que, quase uma década depois, o geólogo anglo-irlandês William King chegou a uma conclusão revolucionária: tratava-se de uma nova espécie, predecessora do Homo sapiens, que acabou chamada Homo neanderthalensis.

Com a descoberta dos neandertais, surgiram inúmeras incógnitas, especialmente uma que nos persegue há quase 200 anos: por que eles desapareceram? Como é possível que uma espécie tão antiga, tão robusta, que sobreviveu a tantas coisas, simplesmente tenha desaparecido? Por que ficamos sozinhos?

Ao longo de todos esses anos, cientistas apresentaram inúmeras hipóteses e teorias — desde genocídios pré-históricos até um lento e doloroso declínio. No entanto, Ludovic Slimak, pesquisador do Centro de Antropobiologia e Genômica de Toulouse e um dos maiores especialistas internacionais em neandertais, tem outra ideia.

Uma história (geneticamente) impossível

Para Slimak, se aplicarmos os conhecimentos da antropologia cultural ao que a paleogenética nos mostra, a imagem é bastante diferente. Como em todas as sociedades tradicionais em que convivem identidades fortes, parece que diferentes comunidades humanas trocavam mulheres.

Da nossa perspectiva, a própria expressão já soa como algo brutal. Mas, do ponto de vista da antropologia, esses processos de “troca de familiares” eram fundamentais para garantir alianças estáveis entre diferentes comunidades. E isso, considerando que carregamos bastante DNA neandertal, parece ter sido exatamente o que aconteceu. No entanto, como aponta Slimak, essa “fusão” de linhagens nunca chegou a se completar de fato. A pergunta é por quê.

Sabemos que neandertais e Homo sapiens cruzaram e tiveram descendentes. Mas também sabemos que, embora as comunidades tenham tentado estabelecer relações e alianças baseadas em miscigenação, isso não funcionou plenamente.

Chegou-se a pensar que muitos dos descendentes dessas relações eram estéreis e incapazes de se reproduzir. Mas, como explicaram Platt, Harris e Tishkoff em fevereiro de 2026, tudo indica que foram as preferências de acasalamento e um cruzamento sexualmente enviesado que determinaram qual DNA neandertal sobreviveu e qual foi sendo perdido.

Em entrevista ao LiveScience, Slimak diz que “quando você está buscando DNA antigo [de 40.000 a 45.000 anos], todos esses sapiens iniciais têm DNA neandertal recente, e é por isso que temos [DNA neandertal] hoje. Mas quando você tenta extrair DNA dos últimos neandertais, contemporâneos desses primeiros sapiens, digamos entre 40.000 e 50.000 anos, não há um único neandertal com DNA sapiens”.

A ideia central

Ou seja: embora humanos e neandertais convivem próximos e interagissem socialmente, incluindo com relações sexuais, essas relações eram desiguais e seletivas, não uma integração total, pelo menos na opinião de Slimak. 

Sapiens e neandertais tiveram filhos, mas, por razões sociais e demográficas, alguns tipos de união aconteciam mais do que outros. Para Slimak, os neandertais teriam desaparecido porque eram poucos, isolados e socialmente fragmentados, enquanto os sapiens eram mais numerosos e conectados — então, no contato entre os dois, os neandertais foram absorvidos geneticamente aos poucos.

Em 2025, Slimak chegou a descrever o desaparecimento dos neandertais como “uma espécie de suicídio” por isolamento e fragmentação social. Curioso — e muito provavelmente um dos fatores para explicar por que a população de sapiens, mais numerosa e geneticamente diversa, acabou vencendo os neandertais. 

Imagens: Suchosch (Flickr)

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


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