Na noite do dia 29 de dezembro de 2025, inúmeros drones cruzaram o espaço aéreo russo em direção à região de Novgorod. Segundo Moscou, o alvo final seria a residência oficial do presidente Vladimir Putin, em Valdái. No entanto, nenhum drone atingiu o complexo, não houve vítimas e todos teriam sido abatidos pelas defesas russas.
Dias depois, o Ministério da Defesa russo anunciou no Telegram ter recuperado controladores de navegação “tecnicamente funcionais” dos drones e afirmou que a análise desses componentes indicaria, de forma inequívoca, que o destino programado era a residência presidencial. Mas, de forma inesperada, Moscou decidiu entregar parte desse material diretamente aos Estados Unidos.
O movimento inusitado levantou suspeitas, alimentou desconfianças diplomáticas e deslocou o foco do episódio para a tecnologia envolvida no ataque e para a origem dos sistemas usados nos drones. Afinal, quem, de fato, está por trás dela? Nesse sentido, o nome da Palantir, empresa americana de software e análise de dados, passou a ser citado, embora não haja até o momento qualquer prova pública de que seus sistemas estejam embarcados nos drones mencionados pela Rússia.
Após suposto ataque à residência de Putin, Rússia entrega restos de drones aos Estados Unidos
De acordo com o Ministério da Defesa da Rússia, o ataque da noite de 29 de dezembro teria envolvido 91 drones, lançados de diferentes pontos e atravessando algumas regiões antes de seguirem em direção a Valdái, onde fica a casa de Putin. O chanceler russo Sergey Lavrov classificou o episódio como um ataque direto à residência presidencial, enquanto a Ucrânia negou qualquer envolvimento.
Poucos dias depois do ataque, Moscou divulgou imagens de uma reunião entre Igor Kostyukov, chefe da Diretoria Principal de Inteligência do Estado-Maior russo, e um representante militar dos EUA em Moscou. No encontro, Igor apresentou um controlador de navegação supostamente recuperado de um dos drones abatidos.
Segundo o oficial, ainda no post do Telegram, a decodificação da memória desses dispositivos teria revelado a rota completa do voo e confirmado o alvo final do ataque. “Queremos entregar este controlador e a descrição do mesmo feita por nossos especialistas. Acreditamos que esta medida ajudará a dissipar todas as dúvidas e contribuirá para o estabelecimento da verdade.”, afirmou, ao entregar o material às autoridades americanas.
A decisão de enviar os destroços diretamente aos Estados Unidos, e não a organismos internacionais ou fóruns multilaterais, foi interpretada por analistas como um ato político calculado, especialmente em um momento em que Washington tenta mediar negociações de paz entre Moscou e Kiev.
O que se sabe e o que não se sabe sobre os controladores de navegação recuperados dos drones?
Até agora, as informações técnicas divulgadas oficialmente pela Rússia são limitadas e vagas. Moscou fala em controladores de navegação, com sistemas preservados e memória acessível, mas não revela o fabricante, arquitetura, tipo de processamento ou origem dos componentes.
Também não há confirmação pública de que os drones operavam sem GPS, nem de que utilizassem inteligência artificial para navegação autônoma. No entanto, o próprio contexto da guerra levanta algumas hipóteses. Desde 2022, o conflito na Ucrânia é marcado por bloqueios e interferências de GPS, o que levou tanto a Ucrânia quanto a Rússia a investir em sistemas alternativos, como navegação por correlação de relevo, sensores ópticos e fusão de dados.
Essas técnicas exigem capacidade de processamento local, mas isso não significa, necessariamente, o uso de tecnologias de empresas específicas. Até o momento, não há qualquer prova explícita de que os controladores recuperados contenham hardware, chips ou software desenvolvidos pela Palantir, ou por qualquer outra empresa americana. A Rússia também não apresentou laudos independentes, auditorias externas ou análises técnicas abertas que sustentem essas conclusões.
Entenda por que o nome da Palantir entrou na conversa mesmo sem provas diretas
A relação entre o suposto ataque à residência de Putin e a Palantir não nasce de uma evidência concreta, mas de contexto. Desde os primeiros meses da guerra entre Ucrânia e Rússia, a empresa americana se tornou uma das principais fornecedoras de plataformas de análise de dados e inteligência artificial para o governo ucraniano.
Ferramentas da Palantir são usadas para integrar informações de sensores, imagens de satélite e dados de campo, ajudando na identificação de alvos, previsão de ataques e coordenação militar. Em janeiro de 2026, a Ucrânia anunciou um acordo com a Palantir para desenvolver o Dataroom, uma plataforma de IA baseada em software da empresa para treinar modelos capazes de prever e interceptar ataques russos.
Nada disso, porém, confirma que sistemas da Palantir estejam em drones de ataque. A empresa atua majoritariamente no nível de software e análise estratégica, não como fabricante de hardware militar. Ainda assim, para Moscou, devolver aos EUA um controlador de navegação e afirmar que ele revela o alvo presidencial parece menos um pedido de investigação e mais um recado político de que a tecnologia usada pela Ucrânia pode ter conexões com o país.
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