"Somos ricos demais, então fazemos coisas estúpidas com o nosso dinheiro", admitiu a ex-ministra da Noruega ao revelar que a aposta nas telas para modernizar o ensino foi um fracasso colossal para as crianças

Distribuição de iPads nas escolas coincidiu com queda no desempenho em leitura e levou país a rever sua estratégia educacional

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Laura Vieira

Redatora
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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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A leitura é uma das bases mais importantes do desenvolvimento infantil. É ela que amplia o vocabulário, estimula a imaginação e ajuda crianças a compreender o mundo de forma mais profunda. Mas a Noruega, um dos países mais ricos e avançados do mundo, decidiu testar um caminho diferente, e agora está lidando com as consequências dos seus atos.

A partir de 2016, o país passou a distribuir iPads para crianças desde os cinco anos de idade nas escolas. A proposta era modernizar o ensino e integrar tecnologia desde cedo. Porém, na prática, os livros foram sendo deixados de lado, e os resultados começaram a aparecer nos indicadores educacionais.

A própria ex-ministra da Educação, Trine Skei Grande, resumiu a situação de forma direta: “Somos ricos demais, então fazemos coisas estúpidas com o nosso dinheiro”. O comentário da ministra refere-se a apostar facilmente na tecnologia sem considerar seus impactos na alfabetização.

Noruega era referência mundial em educação, mas agora enfrenta uma realidade diferente

Antes da digitalização em massa, a Noruega estava entre os países com melhor desempenho em educação no mundo. Mas esse cenário mudou de forma significativa nos anos seguintes à distribuição dos tablets nas escolas. Hoje, o país aparece abaixo da média internacional em avaliações como o Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, e ocupa a última posição em nível de prazer pela leitura entre crianças no estudo PIRLS.

Mas o pior de tudo é que o impacto pode ser sentido em pontos que vão além dos rankings. Cerca de 500 mil noruegueses, em uma população de 5,6 milhões, apresentam dificuldades para compreender textos simples, como mensagens ou instruções básicas. Entre estudantes, cerca de 15 mil terminam o ensino fundamental sem o domínio adequado da leitura.

Parte da explicação está na própria natureza dos dispositivos. Tablets e as novas mídias digitais não foram criados com foco pedagógico. Eles competem diretamente com os livros ao oferecer estímulos constantes, interatividade e recompensas, algo que naturalmente atrai mais as crianças - e até os adultos. 

Nesse caminho, o livro perde espaço. Enquanto a leitura exige concentração e esforço cognitivo contínuo, as telas mantêm a atenção por meio de estímulos rápidos. Em contrapartida, os livros estimulam a criatividade dos jovens, enquanto os tablets podem ter o efeito contrário. O resultado é uma mudança no comportamento, com menos leituras profundas, um vocabulário mais limitado e menor capacidade de interpretação.

Após queda na leitura, Noruega reduz tecnologia nas escolas e tenta atrair os jovens para as bibliotecas

crianças lendo um livro na biblioteca Governo da Noruega promove eventos em bibliotecas para estimular a ida de crianças e jovens

Diante do impacto negativo da avaliação no Pisa, a Noruega começou a mudar a estratégia. Tablets foram retirados dos primeiros anos escolares, e o uso de celulares passou a ser proibido nas escolas. Ao mesmo tempo, o país iniciou uma série de iniciativas para reconectar crianças e adultos com a leitura.

O primeiro-ministro Jonas Gahr Støre lançou um plano nacional com um objetivo de transformar novamente a Noruega em uma referência global em leitura. Ele criou estratégias para incentivar a ida de crianças e jovens às bibliotecas. Em Oslo, a biblioteca Deichman Bjørvika foi transformada para atrair jovens com atividades como oficinas de rap, campeonatos de xadrez e eventos com patinação, tudo isso em um ambiente cercado por livros, na esperança de que os jovens se sintam estimulados a ler. E para incentivá-los ainda mais, o governo oferece cerca de 187 coroas norueguesas àqueles que participam, o equivalente a quase 100 reais.

A lógica por trás dessas ações é simples: a leitura precisa voltar a ser prazer, e não obrigação. Ao mesmo tempo, o país entendeu que o problema não está só nas crianças. Adultos, cada vez mais presos às telas, também precisam dar o exemplo. Iniciativas agora incentivam empresas a criarem clubes de leitura e espaços para troca de livros. Assim, a Noruega acabou se tornando o exemplo perfeito para reconhecer que a tecnologia, quando mal aplicada, pode atrapalhar mais do que ajudar.


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