Nem detetives, nem cartazes de busca: a tecnologia colossal que a China está usando para destruir a rede de sequestro infantil do país

Algoritmos que projetam o rosto de crianças no futuro estão ajudando a resolver casos de sequestro que permaneceram sem solução por anos na China

Crianca De Maos Dada Com Adulto
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora
laura-vieira

Laura Vieira

Redatora

Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

556 publicaciones de Laura Vieira

É difícil imaginar a dor de pais que passam anos sem saber o paradeiro de um filho desaparecido. Só no Brasil, por exemplo, foram registrados 23.919 casos de crianças e adolescentes desaparecidos em 2025, segundo dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp). Na China, onde o sequestro infantil também é um problema recorrente, as autoridades policiais decidiram apostar em um aliado tecnológico inesperado para enfrentar esse problema: a inteligência artificial.

Nos últimos anos, o país passou a usar algoritmos avançados de reconhecimento facial capazes de reconstruir digitalmente como seria o rosto de uma criança desaparecida anos depois, já na vida adulta. Combinada a enormes bancos de dados nacionais e a testes de DNA, essa tecnologia tem permitido localizar pessoas que desapareceram ainda bebês, e que muitas vezes cresceram sem saber sua verdadeira identidade.

Casos como o de Xie Qingshuai, sequestrado em 1999 ainda bebê, e o de Mao Yin, levado quando tinha apenas dois anos e meio em 1888, mostram o impacto dessa abordagem. Ambos foram encontrados cerca de 30 anos depois devido a sistemas capazes de comparar rostos em diferentes fases da vida. Hoje, ferramentas desse tipo já estão integradas a plataformas digitais usadas no cotidiano na China, ajudando autoridades a rastrear pistas em escala nacional e reunir famílias que passaram anos separadas.

Mãe chinesa encontra filho desaparecido após 32 anos de busca graças a inteligência artificial

Um dos casos mais  emblemáticas envolvendo o uso dessa tecnologia envolve Mao Yin, uma criança sequestrada em 1988 quando voltava da creche com o pai, na cidade de Xi’an. O pai do menino, Mao Zhenjing, parou para comprar água por alguns minutos, e o menino simplesmente desapareceu. A partir daquele momento, a mãe da criança, Li Jingzhi, largou tudo para dar inicio a uma busca que se estenderia por mais de trinta anos.

Li abandonou o emprego para se dedicar integralmente à procura do filho, e ao longo dos anos, distribuiu mais de 100 mil panfletos, participou de vários programas de televisão e percorreu quase toda a China em busca de pistas. A mobilização acabou ajudando outras 29 famílias a reencontrarem seus filhos desaparecidos, mesmo antes de ela própria conseguir localizar seu filho Mao.

Li só pôde relaxar 32 anos depois, quando a polícia recebeu uma denúncia sobre um homem que poderia ter sido vendido quando criança para outra família a centenas de quilômetros de distância. Usando um sistema de reconhecimento facial capaz de simular o envelhecimento, as autoridades compararam fotos antigas do menino com imagens em um banco de dados nacional.

Foi realizado um teste de DNA que confirmou a identidade de Mao, na época, com aproximadamente 34 anos. Em maio, justamente no Dia das Mães na China, Li recebeu a notícia de que seu filho havia sido encontrado. O reencontro aconteceu poucos dias depois, em frente a diversas câmeras e de uma multidão, quando Mao, que havia crescido com outro nome e trabalhava com design de interiores, finalmente pôde abraçar os pais biológicos.

mãe abraçando o filho Li Jingzhi encontrou o filho Mao Zhenjing 32 anos depois do seu desaparecimento na China.

Infelizmente, existem outras histórias semelhantes. Em 2023, um homem chamado Xie Qingshuai encontrou sua família biológica após quase 25 anos desaparecido. Ele havia sido sequestrado ainda bebê em 1999, após ficar um breve período sozinha em casa enquanto a mãe foi ao supermercado. Anos depois, em 2022, o caso ganhou repercussão nacional, quando os pais do menino ofereceram uma recompensa milionária de aproximadamente 28 mil dólares por informações que levassem ao paradeiro do filho. 

A descoberta veio quando a polícia utilizou um software de reconhecimento facial baseado em inteligência artificial para cruzar dados familiares e imagens disponíveis. O sistema conseguiu reduzir drasticamente o número de possíveis correspondências, levando à identificação de Xie, que vivia em outra cidade sem saber que era alvo de uma busca que durava anos.

Algoritmo foi projetado para identificar semelhanças faciais dos desaparecidos com parentes

O grande desafio em casos de sequestro infantil é que o tempo transforma completamente a aparência de uma pessoa. Crianças desaparecidas muitas vezes são procuradas apenas com fotos antigas, o que dificulta reconhecer o adulto que elas se tornaram. Para enfrentar essa dificuldade, pesquisadores chineses desenvolveram algoritmos capazes de comparar rostos em diferentes faixas etárias. A tecnologia analisa padrões genéticos e características faciais herdadas, permitindo identificar semelhanças entre pais, irmãos e possíveis correspondências encontradas em grandes bases de dados.

Empresas como Baidu e Tencent, maiores empresas de tecnologia da China que oferecem serviços que vão desde mecanismos de busca e redes sociais até inteligência artificial, colaboraram com autoridades para aprimorar esses sistemas. Algumas plataformas permitem que famílias carreguem fotos de parentes desaparecidos para que o sistema busque correspondências automaticamente em bancos de dados policiais e públicos.

O reconhecimento facial também passou a ser integrado a iniciativas nacionais de busca por desaparecidos. Em certos casos, a tecnologia consegue reduzir um número de milhares de rostos para apenas algumas dezenas de possíveis correspondências, acelerando o trabalho dos investigadores. Mesmo assim, a confirmação final continua dependendo de testes de DNA. Quando há uma correspondência facial promissora, amostras genéticas são comparadas com bancos de dados de familiares que registraram o desaparecimento.

Os resultados começam a aparecer. Segundo informações da agência estatal Xinhua, autoridades chinesas conseguiram reunir mais de 6.300 crianças sequestradas com suas famílias usando análises genéticas e tecnologias de identificação, desde que o banco de dados nacional de DNA foi criado em 2009. Esse sucesso do sistema mostrou que a combinação tecnológica entre inteligência artificial e bancos nacionais de DNA pode transformar a forma como desaparecimentos são investigados no país e, quem sabe, em outros lugares ao redor do mundo.


Inicio