Cientistas brasileiros multiplicam células de pessoas com mais de 110 anos em laboratório para revelar os segredos da longevidade

Ao transformar amostras de sangue em neurônios, músculos e células de defesa, pesquisadores da USP e da UFMG tentam descobrir o que faz alguns brasileiros chegarem aos 100 anos — e, em casos raros, ultrapassarem os 110

Pessoa Com Mais De 100 Anos
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Laura Vieira

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Laura Vieira

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Jornalista recém-formada, com experiência no Tribunal de Justiça, Alerj, jornal O Dia e como redatora em sites sobre pets e gastronomia. Gosta de ler, assistir filmes e séries e já passou boas horas construindo casas no The Sims.

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Cientistas brasileiros estão usando células de pessoas que passaram dos 100 anos para investigar o que faz alguns organismos resistirem ao envelhecimento. A equipe da USP e da UFMG já coletou amostras de 230 centenários e 21 supercentenários, incluindo pessoas com mais de 110 anos, e pretende chegar a 500 participantes. A partir de algumas gotas de sangue, os pesquisadores conseguem reprogramar as células e transformá-las em diferentes tecidos em laboratório. O objetivo é comparar esses materiais e identificar mecanismos ligados à preservação dos músculos, ao funcionamento do sistema imunológico e à capacidade de lidar com o estresse. O diferencial do estudo é que , além de procurar uma fórmula para viver mais, ele também tenta entender os diferentes caminhos que podem levar à longevidade extrema. 

Células de centenários são “rejuvenescidas” para estudar diferentes partes do corpo

A pesquisa começou de maneira simples: cientistas coletaram algumas gotas de sangue de pessoas que chegaram a idades extremas. Em laboratório, esse material foi analisado, passando por um processo que permite aos cientistas “voltar no tempo”, mas não no sentido literal: biologicamente. A equipe utiliza a tecnologia das células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como células iPS. Elas são obtidas a partir de células adultas e reprogramadas para retornar a um estado semelhante ao embrionário. Depois disso, podem ser estimuladas para dar origem a diferentes tipos de células do organismo. Isso permite criar em laboratório uma e coleção personalizada de tecidos de pessoas que já passaram dos 100 anos. Os pesquisadores conseguem produzir, por exemplo:

  • fibras musculares;
  • neurônios;
  • células do sistema imunológico;
  • células cardíacas;
  • células pulmonares.

A estratégia é importante porque permite observar essas células fora do organismo e investigar quais características podem estar relacionadas à longevidade extrema.

O trabalho é liderado por Mayana Zatz, do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, em colaboração com Ana Caetano Faria, da UFMG. Enquanto a equipe de Mayara investiga aspectos ligados à genética e ao envelhecimento, Ana e seus colegas estudam o perfil imunológico dos participantes por meio do conceito de imunobiografia, a história das exposições e adaptações de uma pessoa registrada, em parte, pelo seu sistema imunológico.

Um dos focos está nos músculos. Embora tenham funções metabólicas e também produzam substâncias que atuam no organismo, eles envelhecem mais rapidamente do que alguns outros tecidos. Por isso, os pesquisadores querem comparar o material genético de supercentenários que preservaram melhor a musculatura e identificar possíveis variações associadas a essa resistência. 

A tecnologia das células iPS ainda é cara e complexa, mas oferece uma vantagem: permite estudar em laboratório características de pessoas reais que conseguiram envelhecer de maneira excepcionalmente longa.

Supercentenários podem ter diferentes caminhos para chegar à mesma longevidade

mulher idosa A diversidade genética da população brasileira é um dos fatores investigados pelos cientistas para entender por que alguns brasileiros conseguem ultrapassar os 100 anos de idade

A pesquisa parte de uma característica que torna os brasileiros especialmente interessantes para esse tipo de investigação: a enorme diversidade genética da população. Ao invés de procurar um único perfil de pessoa longeva, os pesquisadores estão reunindo participantes de diferentes regiões, cores, histórias de miscigenação, hábitos e condições socioeconômicas. Até agora, são:

  • 230 centenários + 21 supercentenários = 251 amostras coletadas
  • A meta é chegar a 500 pessoas com mais de 100 anos.

Essa diversidade também ajuda a explicar por que os cientistas não estão procurando um único “gene da longevidade”. A hipótese é que diferentes combinações de características genéticas e condições de vida possam levar a um resultado semelhante: um organismo capaz de continuar funcionando bem por muitas décadas.

Os participantes também carregam uma particularidade. Muitos enfrentaram condições de vida difíceis e, ainda assim, chegaram a idades extremas. Para os pesquisadores, isso transforma essas pessoas em exemplos de resiliência biológica, já que seus organismos aparentemente encontraram maneiras de lidar com diferentes tipos de adversidades ao longo do tempo.

O sistema imunológico, sem dúvidas, é uma das peças mais interessantes dessa história. Com o envelhecimento, a quantidade de linfócitos T, células responsáveis por reconhecer e combater ameaças específicas, tende a diminuir. Em pessoas centenárias, porém, o organismo pode compensar parte dessa perda aumentando a quantidade de células NK, ou natural killers. Essas células funcionam de maneira mais geral, identificando e destruindo células doentes e ajudando a manter a defesa do organismo.

A microbiota também tem influência nisso. O conjunto de microrganismos que vive no corpo muda com a idade e tende a perder parte de sua diversidade e funcionamento. Nos centenários, o interessante é que os pesquisadores observam espécies diferentes das encontradas em pessoas jovens, mas que ainda conseguem desempenhar funções semelhantes.

Outro ponto investigado é a capacidade de controlar a inflamação. O envelhecimento costuma estar associado a uma inflamação crônica de baixa intensidade, processo relacionado ao acúmulo de células que perderam parte de sua capacidade de funcionar e morrer adequadamente. Nos superidosos, esse processo parece ser mais atenuado. Isso não significa que a inflamação seja necessariamente ruim. Ela também é um mecanismo natural de defesa e reparo. O problema é quando esse sistema perde o controle e permanece ativado por tempo demais.

Os pesquisadores, portanto, não procuram uma fórmula única para a longevidade. Ao comparar as células de centenas de centenários, a pesquisa busca identificar os diferentes mecanismos que ajudam o organismo a resistir ao envelhecimento. 

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