Algo está mudando no mundo do caviar. O outrora rei da cozinha mais exclusiva — sinônimo de luxo e de iguarias com preços exorbitantes — está se reposicionando no mercado. Continua sendo caro, mas não proibitivo.
Uma busca no Google revela empresas que oferecem latas de 30 g de ovas de esturjão por cerca de 100 euros ou até menos (aproximadamente R$ 587); nos EUA, começam a surgir marcas que vendem para o grande público com promoções que permitem adquirir 125 g por menos de 270 dólares (cerca de R$ 1.398).
Além disso, o produto chega a ser usado para incrementar cachorros-quentes ou nuggets; embora custem muito mais do que o habitual, já não são artigos de luxo, mas apenas pequenos luxos ou caprichos.
A pergunta que alguns já fazem é: o caviar continuará sendo tão cobiçado se deixar de ser visto como algo exclusivo? Faz sentido um caviar "para todos"?
Caviar para todos?
Recentemente, o The Wall Street Journal publicou um artigo com uma daquelas manchetes tão provocativas que é impossível não ficar preso à leitura: "O caviar está ficando tão barato que poderia ser dado a uma criança".
Se as ovas de esturjão estão se popularizando a ponto de poderem ser apreciadas por qualquer pessoa (inclusive por uma criança que jamais ouviu falar delas) é algo discutível; o que é inegável, porém, é que algo está mudando em um setor que, até pouco tempo atrás, era sinônimo de luxo, com latas custando centenas ou milhares de euros.
Kamilla Isalieva (Unsplash)
Por quanto está sendo vendido agora?
Essa é a chave. Em sua matéria, o TWSJ menciona latas de 125 g de caviar Osetra por 269 dólares (cerca de R$ 1.393) e embalagens de 100 g por 125 dólares (cerca de R$ 647). No Google, não é difícil encontrar potes de 30 g por pouco mais de 70 euros (cerca de R$ 411). Não são preços populares, nem permitem que o caviar entre na cesta de compras das famílias de classe média, mas também não se enquadram na categoria de luxo proibitivo.
Além do custo por grama, há outro fator tão ou até mais relevante: a retórica. Após décadas associado à opulência, já não é difícil encontrar marcas que utilizam códigos promocionais e descontos, oferecem frete grátis ou se anunciam (abertamente e sem receios) como "o caviar do povo".
Nos últimos anos, as ovas de esturjão também têm sido usadas em cachorros-quentes vendidos a 74 dólares (cerca de R$ 434), nuggets de 100 dólares, Doritos e até mesmo sorvetes e biscoitos. Continuam sendo um mimo, mas sua imagem de luxo está sendo suavizada.
Seriam esses os únicos sinais de mudança?
Não. O TWSJ aponta outro: o surgimento de novas marcas DTC (Direct-to-Consumer, ou venda direta ao consumidor) que vendem caviar diretamente ao público, sem passar por atacadistas ou varejistas, o que lhes permite controlar os preços.
Esse dado é importante porque, segundo Daniel Langer, executivo da consultoria Équité, até agora as empresas tradicionais do setor "cobravam preços elevados simplesmente porque existia uma convenção na categoria".
As marcas DTC adotam uma postura "revolucionária" e, afirma ele, frequentemente "desafiam" as dinâmicas arraigadas no mercado. Afinal, o caviar nem sempre foi um artigo de luxo ostensivo, com preços exorbitantes e reservado às grandes fortunas.
Durante séculos, foi considerado um alimento humilde, comum nas mesas dos pescadores que trabalhavam no Mar Cáspio e nos grandes rios e lagos do Leste Europeu. No século XIX, ainda era habitual servi-lo como aperitivo em bares.
O que mudou?
Além da forma de consumo, que foi perdendo a solenidade que a caracterizava até pouco tempo atrás (passando de ser comido com colherzinha de prata a ser consumido com Doritos), o setor de caviar passou por uma mudança fundamental nos últimos anos: a ascensão da China.
Segundo a Forbes, o gigante asiático detém mais de 40% das exportações mundiais de caviar. A indústria também conseguiu reforçar a produção em pisciculturas, o que explica, em parte, a previsão da consultoria Fortune Business Insights de que o mercado crescerá a uma taxa anual de 8,01% até 2034.
O setor chinês cresceu tanto que, em janeiro, o Global Times — jornal ligado ao Partido Comunista — destacou que o país já é um dos grandes produtores e exportadores, com uma participação superior a 40% nas exportações globais. Isso apesar de, em 2013, o caviar "made in China" ainda despertar desconfiança no exterior.
Qual é o peso disso?
"Há uma verdadeira febre pelo caviar e, sempre que alguém me pergunta o motivo, respondo a mesma coisa: uma enxurrada de caviar chinês produzido em massa a preços baixíssimos", explica ao South China Morning Post (SCMP) Edward Panchernikov, executivo do Caviar Russe, um restaurante de Nova York.
A CITES proíbe há anos o caviar de esturjões selvagens para proteger a espécie da sobrepesca; por isso, a China — com suas pisciculturas, apoio governamental e baixos custos de mão de obra — oferece uma oportunidade fantástica.
O caviar "low cost" funciona?
Hoje em dia, o caviar ainda está longe de ser um produto acessível a todos os bolsos, mas, à medida que se populariza, surge um dilema: será que ele continuará sendo tão apreciado se deixar de ser uma iguaria associada ao luxo e à exclusividade? Até que ponto desejamos o caviar justamente por isso — por sua imagem de inacessibilidade?
A historiadora britânica Lisa Hilton resumiu muito bem esse dilema há alguns meses, no jornal The Telegraph, com outra pergunta: "Qual é o sentido de um caviar barato?". "Não quero que seja um prazer cotidiano; quero a emoção do que é autêntico justamente porque preciso economizar para isso", acrescenta ela.
Imagens Madeline Liu (Unsplash), Kamilla Isalieva (Unsplash)
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