Nos estertores da Guerra Fria, o Brasil embarcou na tarefa titânica de projetar seu próprio tanque de batalha principal sem nunca ter fabricado um. Foi o EE-T1 Osório, que fracassou, apesar de surpreender a todos com suas capacidades e tecnologia, superando o poderoso M1 Abrams americano. Acabou sendo cancelado, levando à falência a empresa responsável por seu desenvolvimento: a Engesa.
Depois disso, o Brasil deixou de sonhar com tanques pesando mais de 40 toneladas e se concentrou no que fazia de melhor: veículos blindados. Mais rápidos, mais versáteis e mais baratos (o que implica menor risco industrial), e já com o respaldo de uma vasta experiência. Antes do Osório, a Engesa se especializou justamente em veículos blindados. Assim nasceu o VBTP-MR Guarani. Foi um sucesso estrondoso: hoje é um verdadeiro campeão de vendas no setor militar.
Fera brasileira blindada com alma italiana
Este Guarani é um veículo blindado sobre rodas, fruto da colaboração entre a empresa italiana Iveco Defence Vehicle (IDV) e o Exército Brasileiro. O desenvolvimento começou em 1999 e o veículo foi apresentado mais de uma década depois, em 2010. Desde então, ele é feito na fábrica da Iveco em Sete Lagoas (MG), a única fábrica da divisão de defesa da empresa italiana fora da Europa, estabelecida exclusivamente para produzir este bem-sucedido veículo blindado.
Seu projeto é baseado no protótipo Iveco SuperAV, um veículo blindado anfíbio 8x8 para transporte de tropas. Curiosamente, este também serviu de base para o ACV (da sigla em inglês para Veículo de Combate Anfíbio) da Marinha dos EUA. O VBTP-MR Guarani também é anfíbio, mas com tração nas quatro rodas 6x6 (embora opções 8x8 não estejam descartadas).
O casco deste veículo blindado anfíbio brasileiro tem formato em V, um design projetado para protegê-lo contra minas terrestres. Ele mede 6,91 m de comprimento, 2,7 m de largura e 2,34 m de altura, pesando entre 16,7 e 18 toneladas, dependendo da versão. Possui também uma generosa altura livre do solo de 78 cm, o que proporciona excelente proteção em terrenos minados. Pode transportar até 11 soldados em seu interior.
Comparado aos seus antecessores, o Cascavel e o Urutu, sua blindagem oferece maior proteção, sendo a versão básica de Nível 2. No entanto, kits modulares podem ser adicionados para atingir o Nível 4 de proteção. O interior é equipado com revestimentos antiestilhaços. Oferece ainda maior mobilidade, capacidade de transpor trincheiras e transpor obstáculos verticais.
Motor Fiat com quase 390 cv. A mecânica do Guaraní 6x6 apresenta um enorme motor diesel turboalimentado: o Iveco Cursor 9 de 8,7 litros e 6 cilindros, que entrega 389 cv. Este motor, fabricado pela Fiat, é usado em caminhões Iveco, mas foi extensivamente modificado para uso militar. Ele está localizado sob a parte dianteira do veículo blindado e é gerenciado por uma transmissão automática de sete velocidades.
Ele é acoplado a uma suspensão hidropneumática independente e um sistema de freios a disco duplo equipado com ABS. Quando entra em modo anfíbio, ele se move utilizando dois jatos d'água traseiros que permitem atingir velocidades de até 9 km/h na água. Em terra, sua velocidade máxima é de 100 km/h.
Plataforma modular. Este veículo blindado brasileiro é equipado com tecnologia avançada: GPS, sistema automático de detecção e supressão de incêndio, visão noturna e tecnologia de detecção a laser, entre outros. Seu armamento é totalmente modular, permitindo a instalação de diferentes equipamentos: de metralhadoras de 7,62 mm a 12,7 mm, passando por um lançador automático de granadas de 40 mm, até mesmo uma torre UT30BR com um canhão automático Mk44 Bushmaster II.
Conquistando mercados graças às suas múltiplas versões
A versatilidade é a marca registrada do Guarani, que pode se adaptar tanto a simples missões de transporte de tropas quanto a operações de combate e apoio de fogo. De fato, ele possui até oito variantes além da configuração padrão: por exemplo, veículo médico auxiliar, veículo de assistência técnica ou porta-morteiro. Ele também pode ser equipado com os diversos armamentos mencionados para apoio antiaéreo ou fogo de artilharia.
Suas amplas capacidades multifuncionais convenceram outras marinhas além das fronteiras do Brasil. Um total de quase 1,6 mil unidades do Guarani (versão ampliada) estão previstas para produção, exclusivamente para o Exército Brasileiro e em diversas configurações. No entanto, esse número não inclui encomendas de parceiros estrangeiros. As primeiras entregas começaram em 2012, com o primeiro lote entrando em serviço no ano seguinte.
Desde então, a produção tem prosseguido sem interrupções: no final do ano passado, a produção ultrapassou 750 unidades, incluindo as encomendadas por outros países. Seu principal cliente são as Forças Armadas das Filipinas, que, após a assinatura de um contrato para 28 unidades, planejam expandir para 114 com diferentes configurações. Em outubro de 2025, foram entregues 25 unidades do Guarani, que se somam às poucas entregues em 2024. O veículo também reforça as capacidades militares do Líbano (com um contrato para 10 unidades) e de Gana (11 unidades).
A Ucrânia também demonstrou interesse no veículo blindado Guarani após a invasão russa de seu território. A intenção era adquirir 450 unidades deste veículo militar na versão ambulância para uso em emergências humanitárias. Embora o governo ucraniano não pretendesse utilizá-lo em missões de combate, o Brasil, alegando sua neutralidade no conflito, rejeitou o pedido. A Argentina era outro potencial comprador, com um pedido de mais de 150 veículos Guarani 6x6, mas o Brasil cancelou o contrato devido a preocupações com a inadimplência causada pela falta de recursos.
Imagens | Exército Brasileiro
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