As grandes empresas de tecnologia têm milhares de placas da Nvidia guardadas em suas caixas, porque não têm onde conectá-las

Só falta encontrarem um lugar

As grandes empresas de tecnologia têm milhares de placas da Nvidia guardadas em suas caixas, porque não têm onde conectá-las.
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Fabrício Mainenti

Redator

Microsoft, Amazon, Google e Meta estão adquirindo infraestrutura de inteligência artificial em um ritmo frenético. No entanto, por trás dos números recordes de vendas da Nvidia, esconde-se um gargalo imenso: boa parte desse hardware de última geração nem sequer está ligado, já que não há centros de dados nem energia elétrica suficientes para alimentá-lo.

O acúmulo de componentes em armazéns intermediários já desperta comparações com crises financeiras do passado, enquanto os fabricantes argumentam que estocar equipamentos antes de conectá-los é um processo comum no contexto de uma revolução industrial.

Bilhões de dólares à espera de uma tomada

Um cálculo do analista Ed Zitron revelou que, desde o início de 2023, a Nvidia e a Broadcom comercializaram mais de 560 bilhões de dólares (cerca de R$ 3 trilhões) em processadores e sistemas para IA. Contudo, metade desse inventário estaria inoperante ou aguardando conexão elétrica.

As estimativas coincidem com relatos anteriores da Bloomberg, que detalhavam que, dos 12 GW de capacidade total da Microsoft, apenas cerca de dois gigawatts correspondem à computação para IA. O próprio Satya Nadella reconheceu, em novembro de 2025, que a empresa possuía hardware que, simplesmente, não podia ser conectado à rede elétrica.

As grandes empresas de tecnologia têm milhares de placas da Nvidia guardadas em suas caixas, porque não têm onde conectá-las.

Segundo Zitron, a Microsoft teria entre 50 bilhões e 100 bilhões de dólares em placas gráficas ainda dentro de suas caixas lacradas. Uma investigação do Business Insider revelou um cenário idêntico na Amazon.

Com um gasto projetado de cerca de 220 bilhões de dólares (R$ 1,2 trilhão) este ano e um fluxo de caixa negativo, e-mails internos mostraram que a AWS planejava desembolsar cerca de US$ 5 bilhões/R$ 27,5 bilhões em gabinetes equipados com chips Nvidia GB300 em agosto, somando outros US$ 3 bilhões/R$ 16,5 bilhões mensais a partir de então.

Como não há potência elétrica imediata suficiente em suas instalações, os equipamentos permanecem guardados em armazéns, aguardando para serem colocados em operação.

O descompasso não parece ter uma solução rápida. Na AWS, onde o crescimento trimestral atingiu 37% (seu melhor resultado em 18 trimestres), a diretoria de infraestrutura prevê que o fluxo de caixa negativo persista por alguns anos. Embora em 2023 se estimasse resolver a falta de capacidade até 2027, as projeções atuais indicam que a demanda continuará superando a infraestrutura, mesmo naquele ano.

Somando apenas a Microsoft (190 bilhões de dólares/R$ 1 trilhão), a Meta (US$ 145 bilhões/R$ 797,4 bilhões), o Google (US$ 205 bilhões/R$ 1,1 trilhão) e a Amazon (US$ 220 bilhões/R$ 1,2 trilhão), o investimento conjunto chega a cerca de US$ 760 bilhões/R$ 4,1 trilhões.

Freio técnico ou risco de bolha?

A magnitude do endividamento começou a acender sinais de alerta. Jennifer M. Harris, ex-autoridade econômica da Casa Branca durante a administração Biden, publicou um artigo de opinião no The New York Times no qual compara este cenário ao período que antecedeu a crise financeira de 2008.

Harris cita reportagens do The Wall Street Journal que apontam uma dívida fora do balanço próxima a três trilhões de dólares entre as nove maiores gigantes da tecnologia, ao mesmo tempo em que o Financial Times reduziu as estimativas de receita anual da OpenAI para cerca de 50 bilhões de dólares (aproximadamente R$ 274,9 bilhões) — quase 30% abaixo do previsto.

As grandes empresas de tecnologia têm milhares de placas da Nvidia guardadas em suas caixas, porque não têm onde conectá-las.

A principal preocupação de Harris reside no fato de que essas dívidas estão lastreadas, em grande medida, por esquemas de crédito privado vinculados a fundos de previdência e seguradoras.

A especialista alerta que a IA exigiria a geração de cerca de três trilhões de dólares (aproximadamente R$ 16,5 trilhões) anuais apenas para cobrir o capital investido — um montante que deixaria pouca margem de manobra em caso de necessidade de um resgate governamental, tornando necessário tratar a infraestrutura de IA como um serviço público estratégico:

"As empresas responsáveis ​​por proteger nossas aposentadorias e seguros estão, mais uma vez, colocando nosso dinheiro em risco ao adquirir produtos complexos lastreados em ativos de valor incerto".

No setor de tecnologia, a interpretação é diametralmente oposta. Jensen Huang, CEO da Nvidia, declarou que "desta vez é diferente", argumentando que a escassez de energia e a lentidão na construção de data centers funcionam como um "freio saudável", que evita um superaquecimento artificial do mercado.

Por sua vez, Masayoshi Son, líder do SoftBank e um dos principais acionistas da OpenAI, chegou a classificar o termo "bolha" como "uma blasfêmia contra a IA". Em uma postura mais ponderada, Nadella ressalta que o sucesso do setor dependerá da capacidade de fazer com que essa tecnologia conquiste os consumidores em larga escala.

A conta que o consumidor já está pagando

Enquanto as gigantes da computação buscam formas de integrar suas aquisições multibilionárias, o usuário final já sente os efeitos colaterais dessa concentração de chips no mercado de consumo.

As grandes empresas de tecnologia têm milhares de placas da Nvidia guardadas em suas caixas, porque não têm onde conectá-las.

A alta generalizada nos preços de módulos de memória RAM e de armazenamento, somada ao direcionamento prioritário de insumos para centros de dados, afetou tanto os consoles de videogame quanto os smartphones de categoria intermediária.

Smartphones premium, computadores de mesa e notebooks estão sendo vendidos hoje por preços mais elevados do que no ano passado, sem que suas especificações apresentem uma evolução proporcional.

Não há certeza sobre quando o abastecimento global se estabilizará

Empresas como a Lenovo já preveem que, mesmo após a superação das dificuldades logísticas, dificilmente os preços retornarão aos patamares anteriores: uma vez que o consumidor aceita um aumento de centenas de dólares por um equipamento indispensável, a indústria encontra poucos incentivos para reduzir suas margens de lucro.

Imagens | NVIDIA

Texto traduzido e adaptado do portal parceiro Xataka México

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