Quem cresceu na zona rural provavelmente já ouviu o conselho de deixar algumas galinhas ou patos soltos pelo quintal. À primeira vista, pode parecer apenas um costume antigo, mas existe uma boa explicação biológica para isso.
Essas aves são predadoras naturais de diversos pequenos animais e funcionam como um eficiente método de controle biológico. Aranhas, escorpiões, lacraias, insetos e até pequenas cobras podem entrar no cardápio delas sem que isso represente um grande desafio.
Vídeos que circulam na internet mostram situações impressionantes, como galinhas devorando uma aranha-armadeira, considerada uma das mais perigosas do Brasil, quase sem demonstrar qualquer dificuldade.
Apesar de parecer surpreendente para nós, esse comportamento é completamente natural (é o mínimo que poderíamos esperar de uma descendente do tiranossauro-rex, não é mesmo?). Isso pode ser um verdadeiro alívio para quem tem aracnofobia ou medo de outros insetos.
O instinto caçador das galinhas
Embora sejam conhecidas por ciscar o chão em busca de grãos, galinhas e galos também são excelentes caçadores. Seu cérebro é altamente adaptado para detectar pequenos movimentos no solo.
Assim que uma aranha, escorpião ou outro pequeno animal se movimenta, o reflexo de atacar é praticamente imediato. A ave desfere bicadas rápidas e precisas, muitas vezes arremessando a presa contra o chão repetidamente antes de engoli-la.
Além disso, elas contam com uma vantagem importante: as pernas são protegidas por escamas grossas e resistentes, enquanto as penas ajudam a dificultar que uma picada atinja regiões vulneráveis. Na maioria das vezes, o animal peçonhento sequer consegue reagir antes de ser neutralizado.
Patos também entram nessa caça
Os patos possuem um comportamento um pouco diferente, mas igualmente eficiente.
Como são animais onívoros e bastante oportunistas, comem praticamente qualquer pequeno animal que encontrem pela frente. Enquanto as galinhas passam boa parte do tempo ciscando folhas secas, pedras, galhos e entulhos — esconderijos preferidos de muitas aranhas — os patos costumam explorar áreas úmidas, gramados e lama, onde procuram larvas, minhocas, insetos e outros pequenos invertebrados.
Na prática, as duas espécies acabam ocupando "nichos" diferentes do quintal, tornando o controle biológico ainda mais completo.
Eles realmente comem escorpiões e lacraias?
Sim. Escorpiões, inclusive espécies grandes como o escorpião-amarelo e o escorpião-preto, fazem parte da alimentação dessas aves quando a oportunidade aparece.
Normalmente elas atacam primeiro o ferrão ou golpeiam repetidamente o animal até que ele pare de oferecer risco. Depois disso, a presa é engolida.
O mesmo acontece com lacraias, conhecidas pela mordida dolorosa. Para galinhas e patos, elas representam apenas mais uma fonte rica em proteínas.
Outra curiosidade interessante é que o veneno de aranhas e escorpiões é composto principalmente por proteínas. Depois que a presa é engolida, o ácido do estômago e as enzimas digestivas quebram essas moléculas durante a digestão, tornando o alimento seguro para a ave.
E as cobras?
Embora não sejam especialistas em caçar serpentes grandes, galinhas, galos e patos podem atacar filhotes e espécies pequenas que apareçam no quintal.
Algumas aves chegam a cercar a cobra e desferir bicadas sucessivas até matá-la. Esse comportamento é mais comum quando a serpente invade o território ou representa risco aos filhotes.
É importante destacar, porém, que aves domésticas não devem ser vistas como uma solução para controlar cobras de grande porte ou espécies altamente peçonhentas. Nesses casos, o correto é acionar os órgãos ambientais responsáveis.
Vale a pena criar essas aves no quintal?
Se houver espaço adequado, criar galinhas, galos ou patos pode ser uma excelente estratégia para reduzir naturalmente a presença de aranhas, escorpiões, lacraias e diversos outros animais considerados indesejados.
No entanto, existem alguns pontos que precisam ser considerados antes.
As aves necessitam de espaço para caminhar, ciscar e se alimentar, além de produzirem fezes que exigem limpeza frequente. Galos também costumam cantar logo nas primeiras horas da manhã, o que pode incomodar vizinhos.
Outro fator importante é manter o quintal organizado. O controle biológico funciona muito melhor quando o ambiente está limpo. Pilhas de madeira, tijolos, telhas, entulhos e vegetação excessivamente fechada oferecem esconderijos onde escorpiões e aranhas conseguem permanecer protegidos, muitas vezes fora do alcance das aves.
Quando combinada com um quintal bem cuidado, a presença de galinhas e patos continua sendo uma das formas mais antigas, e também uma das mais eficientes de reduzir naturalmente a população desses animais ao redor das casas.
Sua cidade pode proibir
Antes de ter galinhas, confira as leis municipais. Por incrível que pareça, algumas cidades do Brasil proíbem a criação desses animais, enquanto outras podem ter regulações bem mais rígidas, mas ainda permitem.
Em geral, o problema está em ambientes metropolitanos, especialmente por conta do barulho de galos (que podem cantar em horários totalmente desregulados) e dos riscos biológicos, já que fezes de galinhas podem conter doenças que ameaçam humanos e outros animais.
Ver 0 Comentários