Os EUA ativaram o plano B antes que o Irã derrubasse seu último radar: desarmar a Coreia do Sul diante do novo “brinquedo” nuclear do Norte

Ou como um radar destruído no Oriente Médio pode acabar alterando o equilíbrio nuclear na península coreana

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Matheus de Lucca

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Matheus de Lucca

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Editor-chefe do Xataka Brasil. Jornalista há 10 anos, entusiasta de tecnologia, principalmente da área de computação e componentes de PC. Saudosista da época em que em vez de um celular fazer tudo que se possa imaginar, tínhamos MP3, alarme e relógio.

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Existem infraestruturas militares tão raras e sofisticadas que apenas algumas poucas existem em todo o mundo. Algumas são projetadas para detectar mísseis a distâncias enormes e custam uma fortuna; outras são instaladas em países aliados a milhares de quilômetros de onde são fabricadas. Quando várias dessas peças desaparecem do tabuleiro simultaneamente, a segurança de regiões inteiras pode começar a depender de eventos que acontecem do outro lado do mundo.

Uma guerra que está consumindo as defesas do planeta. A ofensiva contra o Irã desencadeou um efeito dominó estratégico que se estende muito além do Oriente Médio. Após os ataques iranianos a infraestruturas críticas dos EUA, Washington se deparou com um problema inesperado: vários de seus mais sofisticados sistemas de alerta precoce e rastreamento (aqueles radares exclusivos capazes de detectar e coordenar a defesa contra mísseis balísticos) foram danificados ou destruídos, reduzindo drasticamente as capacidades de vigilância.

Dos oito radares mais avançados desse tipo possuídos pelos Estados Unidos, quatro foram retirados de serviço. Isso significa que outro golpe semelhante poderia deixar Washington praticamente cega para novas ondas de mísseis ou drones. Diante desse risco, a prioridade passou a ser proteger as bases americanas implantadas no Golfo e no Levante. O resultado foi uma decisão que revela até que ponto a guerra contra o Irã está sobrecarregando a arquitetura de defesa global: os Estados Unidos começaram a retirar sistemas de defesa antimísseis da Ásia para reforçar seu escudo no Oriente Médio.

A solução adotada pelo Pentágono foi mudar o foco de um dos campos de batalha mais sensíveis do planeta: a Península Coreana. Durante anos, o sistema THAAD implantado na Coreia do Sul foi apresentado como a chave para interceptar mísseis norte-coreanos antes que eles atingissem Seul ou bases americanas. Essa decisão provocou protestos locais e tensões com a China e a Rússia devido ao poderoso radar associado ao sistema.

Foto: US Missile Defense Agency

Agora, quase uma década depois, partes desse escudo estão sendo desmontadas e carregadas em aviões de transporte com destino ao Oriente Médio. E isso não é tudo, porque a transferência não se limita ao THAAD. Há também planos para transferir baterias Patriot e outros recursos defensivos para bases americanas na Arábia Saudita ou nos Emirados Árabes Unidos, a fim de protegê-las de possíveis ataques com drones e mísseis iranianos. Para Seul, o cenário é extremamente inquietante: defesas projetadas para impedir ataques do Norte estão sendo enviadas a milhares de quilômetros de distância para sustentar uma guerra em outro continente.

O jornal The Guardian observou que a retirada desses sistemas gerou uma onda de inquietação na Coreia do Sul e no Japão, dois dos pilares da arquitetura militar dos EUA na Ásia. A Coreia do Sul abriga cerca de 28.500 soldados americanos e depende fortemente da proteção defensiva de Washington para contrabalançar o arsenal nuclear da Coreia do Norte. Embora o governo sul-coreano insista que sua capacidade de dissuasão permanece intacta, muitos analistas temem que Pyongyang interprete a medida como uma oportunidade para testar os limites da aliança.

O Japão, por sua vez, observa com igual preocupação enquanto os contratorpedeiros americanos baseados em Yokosuka se dirigem para o Mar Arábico, enquanto em Tóquio se intensifica o debate sobre se as bases americanas no país poderiam se envolver em conflitos fora do teatro asiático. A questão que paira sobre ambas as capitais é incômoda: até que ponto a guerra contra o Irã está esgotando os recursos militares que se destinavam a conter a Coreia do Norte ou a China?

Foto: Teukwonjae707

A CNN lembrou aos telespectadores esta semana que, na Coreia do Norte, os eventos recentes reforçaram uma convicção que orienta sua estratégia há décadas: as armas nucleares são a única salvação real contra Washington. O destino dos líderes que abandonaram ou nunca desenvolveram armas nucleares (de Gaddafi aos recentes bombardeios no Irã que mataram seu líder supremo) é constantemente repetido na propaganda norte-coreana como um aviso.

Para Kim Jong Un, a conclusão parece simples: renunciar à bomba significaria abrir as portas para operações de mudança de regime. Portanto, enquanto os Estados Unidos concentram sua atenção no Oriente Médio, Pyongyang está acelerando seu programa nuclear e continuando a desenvolver mísseis capazes de lançar ogivas nucleares no território continental dos Estados Unidos. A Coreia do Norte já possui dezenas de ogivas e material suficiente para produzir muitas outras, o que altera completamente a avaliação de risco para qualquer potência que considere uma intervenção militar direta.

Enquanto isso, a Coreia do Norte revelou um dos projetos mais ambiciosos de sua modernização militar: o contratorpedeiro Choe Hyon, um navio de 5.000 toneladas que representa o avanço mais significativo para sua marinha em décadas. Durante seus testes marítimos iniciais, o navio lançou mísseis de cruzeiro estratégicos sob a supervisão direta de Kim Jong Un e exibiu uma bateria de até 104 mísseis de vários tipos, graças a um sistema de lançamento vertical ampliado.

O regime pretende construir pelo menos dez navios dessa classe nos próximos anos e transformar sua marinha em uma força capaz de projetar poder além da península. O programa também inclui a integração gradual de armas nucleares nas forças navais, uma mudança que expandiria as plataformas a partir das quais Pyongyang poderia lançar ataques nucleares.

A guerra no Irã também reabriu um debate estratégico mais amplo em Pyongyang. Kim Jong Un e seu círculo íntimo estão analisando todas as fases da operação dos EUA: desde a capacidade de localizar líderes inimigos até a rapidez com que Washington pode passar da diplomacia à ação militar.

Nesse sentido, a lembrança da fracassada cúpula de Hanói em 2019 provavelmente ainda pesa muito nesse cálculo. Na época, Kim acreditava que um acordo com Trump era iminente e voltou para casa de mãos vazias. Desde então, a Coreia do Norte fortaleceu sua parceria com a Rússia, enviando munições e tropas para a guerra na Ucrânia em troca de combustível, alimentos e, possivelmente, tecnologia militar. No entanto, a falta de intervenção direta de Moscou ou Pequim em defesa do Irã demonstrou que mesmo aliados estratégicos têm seus limites quando uma crise real irrompe.

O resultado de tudo isso é, de certa forma, um paradoxo estratégico, porque uma guerra no Oriente Médio está remodelando o equilíbrio militar no Leste Asiático. Enquanto Washington move interceptadores e radares para o Golfo para preencher o vazio deixado pelos ataques iranianos, a Coreia do Norte acelera sua modernização militar e a China monitora cada movimento do espaço com uma constelação de mais de mil satélites de inteligência.

Para os analistas militares, a grande questão é por quanto tempo os Estados Unidos poderão sustentar múltiplos conflitos simultaneamente sem comprometer sua rede de defesa global. Porque se esta crise deixou uma coisa clara, é que o mundo não funciona mais por meio de conflitos isolados: um radar destruído no Oriente Médio pode acabar perturbando o equilíbrio nuclear na própria Península Coreana.

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