Noventa por cento da indústria petrolífera do Irã depende de uma ilha minúscula: e ela já está no radar de EUA e Israel

Com a disparada dos preços do petróleo, todos os olhares se voltam para uma peça fundamental da indústria iraniana: a Ilha de Kharg

Imagens | Google Earth e Wikipedia
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Até pouquíssimo tempo, a Ilha de Kharg era desconhecida para a grande maioria do mundo. Compreensivelmente. É uma ilha que fica a milhares de quilômetros do coração da UE, no meio do Golfo Pérsico, a cerca de 25 quilômetros da costa iraniana, e não é particularmente grande. Com aproximadamente oito quilômetros de comprimento por 4,5 quilômetros de largura, Kharg é talvez o ponto que mais atrai a atenção no turbulento tabuleiro geopolítico que se desenhou em março.

O motivo: a ilha é o elo fundamental do setor petrolífero iraniano.

Em um local no Golfo…

A ilha de Kharg não é exatamente grande: ela mede 22 km². Mas o que lhe falta em área, porém, sobra em localização.

Situada a apenas 25 km da costa continental iraniana e a algumas centenas de quilômetros do Estreito de Ormuz, é um ponto estratégico para a indústria petrolífera global. O motivo: esta pequena ilha canaliza quase todas as exportações de petróleo bruto do Irã. É um número significativo, considerando que, segundo estimativas da OPEP, a República Islâmica detém reservas confirmadas de 208,6 bilhões de barris, quase 12% do total mundial.

Golfo

É realmente tão importante?

O Irã desfruta de uma posição estratégica que (entre outras coisas) lhe permite controlar o Estreito de Ormuz, um ponto crucial para o comércio de petróleo do Oriente Médio. Estima-se que quase um quinto do petróleo bruto e do gás natural do mundo passe por esse estreito, com apenas algumas dezenas de quilômetros de largura. No entanto, nem tudo são vantagens para Teerã.

A maior parte do litoral iraniano é banhada por águas rasas, o que dificulta a passagem de petroleiros. Para operar com essas embarcações, as empresas precisam recorrer a Khrag, uma ilha equipada com docas mais profundas e que possui uma infraestrutura robusta, construída na década de 1960 com a ajuda da empresa Amoco. Hoje, é o maior terminal de exportação do país.

90%

O papel de Khrag é melhor compreendido ao examinarmos alguns números chave. O fator mais importante é o volume de mercadorias que movimenta. Estima-se que quase 90% das exportações de petróleo iranianas passem por ali, um gargalo por onde o ouro negro flui antes de ser enviado para o Estreito de Ormuz.

Essa porcentagem pode parecer exorbitante, mas a ilha possui a infraestrutura necessária para carregar sete milhões de barris por dia. Isso inclui oleodutos submarinos conectados aos campos de petróleo do país, tanques de armazenamento e alojamentos para os operadores do complexo.

Na mira

Khrag tornou-se o elo fundamental no comércio de petróleo do Irã, mas também representa uma espécie de calcanhar de Aquiles. Atacar a ilha significaria um golpe direto para a indústria petrolífera iraniana. Isso não é novidade. Na década de 1980, Kharg já sofreu bombardeios iraquianos. A grande questão em 9 de março de 2026, com os EUA e Israel atacando a República Islâmica, é: Washington tem algum plano para controlar a ilha de alguma forma?

Essa não é uma pergunta trivial. O exército israelense já atacou diversas instalações de armazenamento de petróleo bruto e um centro de transferência de petróleo localizados em Teerã e Alborz. No fim de semana, o Axios revelou que Israel e os EUA discutiram o envio de forças especiais ao Irã para diversos fins: o principal seria garantir as reservas de urânio, mas Kharg também estaria na mira.

Uma operação terrestre?

Atacar instalações de armazenamento de petróleo é uma coisa, e invadir a ilha é outra bem diferente. Para começar, como aponta a CNBC, seria necessário levar a ofensiva no Irã um passo adiante e lançar uma operação terrestre.

Um hipotético ataque também poderia adicionar mais volatilidade e incerteza ao setor em um momento em que o preço do barril de petróleo subiu para cerca de US$ 100. No início da semana, o petróleo Brent chegou perto de US$ 120.

Fechando a torneira

A manobra também teria vantagens para Washington e Tel Aviv, especialmente no que diz respeito à pressão sobre Teerã. Petras Katinas, especialista em energia e defesa, observa que, se os Estados Unidos controlassem a ilha, poderiam cortar o fornecimento de petróleo do regime iraniano. "Olhando para o futuro, a tomada da ilha daria aos EUA poder de barganha durante as negociações, independentemente de qual regime estiver no poder após o término da operação militar", insiste ele.

"Isso representaria um duro golpe para o regime, pois o privaria de uma fonte crucial de renda", acrescenta Tamas Varga, analista da PVM, traça um paralelo entre o que aconteceu no Irã e a intervenção dos EUA na Venezuela em janeiro.

Por que os EUA não estão agindo?

Especialistas apontam que a tomada de Kharg exigiria uma operação terrestre e isso, entre outras coisas, poderia levar a ainda mais instabilidade na região e no mercado de petróleo em um momento delicado.

"Kharg poderia ser o foco de uma campanha de ataques com drones iranianos que duraria semanas, e a ilha tem minas e soldados", observa Marc Gustafson, que alerta que tal intervenção não seria isenta de riscos para os EUA. Ele chega a sugerir a possibilidade de que, se a situação se agravar, o Irã possa destruir seus oleodutos.

Uma ilha, muitas consequências

Se os EUA e Israel decidirem aceitar Kharg, Teerã também poderia se justificar em atacar a infraestrutura petrolífera de outros países do Golfo. Isso sem mencionar, insiste Michael Doran (do Instituto Hudson), que poderia complicar a economia iraniana do pós-guerra e a estabilidade de qualquer novo governo que assuma o poder no Irã após o fim da guerra.

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