No Oriente Médio, existem radares capazes de rastrear objetos a milhares de quilômetros de distância e distinguir dezenas de alvos em pleno voo. Essas máquinas têm o tamanho de prédios, custam centenas de milhões de dólares e fazem parte do sistema que detecta ataques antes mesmo de cruzarem a atmosfera. No entanto, na guerra atual, elas estão descobrindo algo preocupante: o maior perigo para essas maravilhas tecnológicas pode vir de armas que custam uma fração do seu preço.
Olhos da defesa
Desde o início da guerra, o Irã tem direcionado uma parte muito específica de seus ataques contra um alvo que raramente chega às manchetes, mas que sustenta toda a arquitetura defensiva dos EUA no Oriente Médio: os radares que detectam e rastreiam mísseis em voo. Esses sensores (como o AN/TPY-2 associado ao sistema THAAD ou o gigantesco AN/FPS-132 implantado no Catar) atuam como os “olhos” da defesa antimíssil regional, fornecendo dados para interceptores Patriot, sistemas THAAD ou destróieres Aegis para destruir ameaças antes que elas atinjam seus alvos.
No entanto, vários desses sistemas únicos (quatro dos oito existentes) foram atingidos nos últimos dias por ataques iranianos, a maioria dos quais foi confirmada por imagens de satélite. Entre eles está o radar estratégico da Base Aérea de Al-Udeid, no Catar, avaliado em quase um bilhão de dólares, e um radar AN/TPY-2 na Jordânia, diretamente ligado às baterias do THAAD. Outros locais no Kuwait, Arábia Saudita e Bahrein também sofreram impactos em instalações de radar e comunicações, enfraquecendo parcialmente as capacidades de vigilância do sistema de defesa regional.
Shaheds contra o sistema mais caro
O paradoxo desses ataques é que muitos deles foram realizados com drones de ataque unidirecionais relativamente baratos, como o Shahed, cujo custo representa apenas uma fração do valor dos mísseis e sensores que eles tentam neutralizar. Enquanto os sistemas dos EUA foram projetados para interceptar mísseis balísticos ou de cruzeiro muito mais caros e sofisticados, o Irã optou por saturá-los ou danificá-los com plataformas muito mais simples.
Esses drones voam baixo e lentamente, o que pode dificultar sua detecção por sistemas de defesa projetados para ameaças mais rápidas. Além disso, o país demonstrou capacidade para produzi-los em larga escala, algo já evidente na Ucrânia com sua exportação para a Rússia. Nesta guerra, essa vantagem industrial se traduz em uma estratégia bastante clara: lançar ondas constantes de drones contra sensores, centros de comando e sistemas de comunicação, corroendo gradualmente a rede que permite a detecção de ameaças aéreas.
Radar de vigilância transportável do Exército e da Marinha (AN/TPY-2), posicionado no Atol de Kwajalein durante o teste de voo FTI-01
Cegando a defesa
O padrão emergente sugere que esses ataques não são simplesmente represálias isoladas, mas sim parte de uma abordagem muito mais calculada. Os radares não apenas detectam ameaças, eles são o elemento que possibilita sua interceptação. Sem eles, mesmo os sistemas antimísseis mais avançados ficam parcialmente cegos ou dependem de informações incompletas.
Atacar esses sensores, portanto, tem um efeito multiplicador: cada radar fora de serviço aumenta a probabilidade de que futuras ondas de ataques penetrem as defesas. Nesse sentido, os mísseis Shahed parecem ter como alvo o mesmo objetivo desde o início do conflito: os olhos do sistema de defesa antimíssil dos EUA. Quanto mais essa rede estiver comprometida, maior a oportunidade para que outras armas mais perigosas (armazenadas em silos subterrâneos e bases fortificadas) entrem em ação com maior probabilidade de sucesso.
Imagem de satélite tirada em 2 de março de 2026 mostra destroços ao redor de um radar THAAD danificado na Base Aérea de Muwaffaq Salti, na Jordânia
O problema dos radares
O incidente também evidencia uma fragilidade estrutural que analistas vêm apontando há tempos. Os grandes radares de alerta antecipado são extremamente sofisticados, mas também enormes, caros e, em grande parte, estáticos. Cada um custa centenas de milhões ou até bilhões de dólares, e existem muito poucos deles no mundo, o que significa que sua substituição pode levar anos.
Ao mesmo tempo, seu tamanho e natureza fixa os tornam alvos relativamente fáceis de localizar usando inteligência ou imagens de satélite comerciais. Mesmo danos aparentemente pequenos podem causar uma "incapacidade de missão", ou seja, tornar o radar inoperante por longos períodos, mesmo que a estrutura permaneça de pé. Em outras palavras, um drone barato pode desativar temporariamente um componente central da defesa estratégica de toda uma região.
Nova lógica da guerra aérea
O que está acontecendo reflete uma mudança profunda na forma como os sistemas defensivos são atacados. Por décadas, presumia-se que destruir radares estratégicos exigia mísseis sofisticados ou ataques complexos em larga escala. A proliferação de drones alterou essa equação.
Hoje, mesmo atores com recursos limitados podem usar plataformas baratas para degradar sensores que custam centenas de milhões. Essa lógica já foi vista em outros conflitos, desde ataques ucranianos contra radares russos até operações israelenses contra defesas aéreas iranianas. Em todos os casos, o princípio é o mesmo: "atirar no arqueiro" antes de enfrentar suas flechas. Se o sistema de detecção de ameaças desaparecer ou se degradar, todo o escudo perde a eficácia.
Alerta para o futuro
Além dos danos imediatos, esses ataques abriram um debate estratégico mais amplo sobre a resiliência da defesa antimíssil dos EUA. A arquitetura atual depende fortemente de um pequeno número de sensores terrestres extremamente valiosos. Se esses sensores forem destruídos ou neutralizados, mesmo que temporariamente, o equilíbrio defensivo pode mudar rapidamente.
É por isso que um número crescente de especialistas defende o complemento ou a substituição de algumas dessas capacidades por sensores espaciais capazes de rastrear mísseis da órbita, criando redundância contra ataques terrestres. No entanto, essas tecnologias, se algum dia se concretizarem, levarão anos para serem totalmente implantadas. Enquanto isso, a guerra atual ensinou uma lição incômoda: um sistema projetado para deter as armas mais sofisticadas do mundo pode ser enfraquecido por enxames de drones baratos. E quando os radares param de detectar, o próximo movimento no tabuleiro de xadrez pode ser muito mais perigoso.
Imagem | Google Earth, X, Agência de Defesa Antimíssil, Airbus
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