Hoje, temos recursos básicos em nossos carros que permanecem praticamente no mesmo lugar há décadas. Por exemplo: o termômetro. Há muitos anos podemos verificar a temperatura externa no conforto de nossos carros.
No entanto, muito antes de essa funcionalidade ser incorporada ao painel de instrumentos ou à tela central de nossos carros, alguns fabricantes optaram por outra localização: sob o espelho retrovisor do lado do motorista. Em uma era dominada pela tecnologia analógica, não havia outra opção.
Luxo da América dos anos 70
O termômetro analógico no espelho retrovisor externo foi uma invenção nascida nos Estados Unidos, no contexto dos grandes carros de luxo americanos da década de 70. Essa foi uma época em que as marcas mais prestigiosas do país competiam para oferecer os recursos mais extravagantes possíveis, desde relógios Cartier integrados ao painel até abridores de portas de garagem e indicadores de autonomia.
O mecanismo era ao mesmo tempo simples e engenhoso. Como observado no fórum Curbside Classic, onde proprietários e entusiastas debatem esses tipos de acessórios automotivos há anos, o termômetro funcionava com uma mola helicoidal feita de um material sensível a mudanças de temperatura (geralmente dois metais com coeficientes de expansão térmica muito diferentes, como latão ou ligas de ferro-níquel).
Uma extremidade da mola era fixada na parte interna da carcaça do espelho; a outra, no pequeno tambor externo. Conforme se expandia ou contraía com o calor ou o frio, a mola girava o tambor, que exibia a temperatura correspondente em uma escala graduada. Não havia fios nem componentes eletrônicos. Era pura mecânica de precisão.
Além disso, alguns fabricantes incluíam iluminação integrada ao acessório, seja por meio de uma lâmpada ou de um cabo de fibra óptica vindo do painel de instrumentos (como em alguns Cadillacs). Este último método era melhor, pois não gerava calor e não afetava a leitura do termômetro.
Cadillac primeiro, Lincoln depois
A marca que primeiro ofereceu esse recurso foi a Cadillac, a joia da coroa da General Motors. Segundo o The Autopian, os Cadillacs equiparam esses termômetros nos espelhos retrovisores laterais por volta de 1976, antes mesmo de seu concorrente direto, o Lincoln. O Cadillac Seville, o modelo topo de linha da marca na época, foi um dos que incluíam esse acessório, que também estava disponível em outros modelos da linha, como o Eldorado, o DeVille e o Fleetwood.
Termômetro em um Lincoln | Imagem: Vanguard Motor Sales/Instagram
A Hagerty Media, em artigo sobre o Cadillac Fleetwood Brougham de 1976, relata que o termômetro no espelho retrovisor lateral era um opcional disponível no catálogo daquele ano por US$ 18, tornando-o um dos extras mais acessíveis em uma lista que incluía desde controle de cruzeiro (US$ 104) até o sistema de alarme (US$ 114) e o rádio toca-fitas (US$ 239).
O Buick Park Avenue, o outro grande concorrente da GM no segmento premium, também o ofereceu desde seus primeiros anos como um pacote de equipamentos para se diferenciar da concorrência. Como mostra a lista de equipamentos, o Park Avenue original de 1975 já incluía o espelho com termômetro, juntamente com outros recursos como ar-condicionado automático e nivelamento automático da suspensão traseira. Segundo a publicação, a Lincoln, divisão de luxo da Ford, incorporou o termômetro iluminado em seus modelos a partir de 1978.
Luxo raro hoje em dia
Espelho retrovisor de um Lincoln com termômetro embutido e fiação para controle automático do espelho | Imagem: eBay
Como afirma a publicação, encontrar esses espelhos em bom estado é extremamente difícil hoje em dia. Um espelho com termômetro para um Lincoln Town Car de 1988 pode custar entre US$ 140 e US$ 660 em plataformas de segunda mão como o eBay, dependendo do estado da peça, enquanto um para um Cadillac Seville de 1976 a 1979 pode ultrapassar os US$ 800.
Os termômetros da Lincoln da década de 1980 já incorporavam escalas duplas em Fahrenheit e Celsius, algo que faltava nos modelos do final da década de 1970, que exibiam a temperatura apenas em Fahrenheit. No entanto, a Cadillac começou a eliminar gradualmente seus termômetros analógicos, visto que, no início da década de 1980, seus veículos passaram a incluir sistemas de temperatura mais avançados, que também exibiam a temperatura externa digitalmente.
Transição para o digital
A chegada de sistemas eletrônicos cada vez mais avançados tornou esses termômetros obsoletos. Na primeira metade da década de 80, os fabricantes começaram a integrar displays digitais aos painéis que mostravam, entre outros dados, a temperatura externa. Era a era da "alta tecnologia", e a tecnologia digital tinha um enorme apelo para o comprador de carros de luxo.
O primeiro carro com instrumentação digital foi o Aston Martin Lagonda, apresentado como protótipo em 1976, embora sua tecnologia de tubo de raios catódicos tenha se mostrado cara demais para o mercado de massa (imagine o quão cara, considerando que comprar um Aston Martin já não era exatamente barato). Foi a chegada dos displays de cristal líquido (LCDs), e em particular da tecnologia TN LCD, mais barata e leve, que democratizou os painéis digitais em carros durante a primeira metade da década de 1980.
A partir desse momento, exibir a temperatura externa em uma tela dentro da cabine deixou de ser uma novidade para se tornar um recurso cada vez mais comum, primeiro em carros premium e, ao longo dos anos, em segmentos cada vez mais acessíveis. Em meados da década de 1990, já era um recurso relativamente comum em carros de gama média a alta.
Se você já se perguntou onde fica o sensor que mede a temperatura e a exibe na tela do seu carro, geralmente ele está no para-choque dianteiro, longe do calor do motor.
Olhando para trás, o termômetro no espelho retrovisor era um produto da sua época, mas vê-lo hoje, mesmo em fotos, revela um toque de elegância mecânica bastante sofisticada.
Imagem | The Autopian (eBay)
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