Há pessoas ricas tão entediadas com suas próprias vidas que começaram a pintar mofo falso em suas casas

  • Das cozinhas impecáveis ​​de Nancy Meyers à parede de lixo da Geração Z, o design de interiores abraça a decadência

  • Imitação da precariedade gerou debate: para muitos, o mofo não é estético, mas um risco real à saúde

Imagem | Freepik
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PH Mota

Redator
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PH Mota

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Jornalista há 15 anos, teve uma infância analógica cada vez mais conquistada pelos charmes das novas tecnologias. Do videocassete ao streaming, do Windows 3.1 aos celulares cada vez menores.

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Durante a pandemia, muitos enfrentaram um vazio existencial de dias intermináveis ​preenchidos com reformas domésticas. Nessa aventura, os resultados nem sempre ficaram perfeitos. Paredes recém reformadas não estavam lisas e perfeitas como nos tutoriais de faça você mesmo; mas bem ruins, para não dizer feias. 

Seis anos depois, talvez esses tenham sido precursores de uma tendência que agora está bombando nas redes sociais. Mas o que começou como acidente doméstico com um toque de conserto, para outros se tornou um objetivo de design cuidadosamente planejado.

No verão passado, um vídeo viralizou no TikTok mostrando uma jovem argentina que queria reformar a estética da sala de estar de seu apartamento alugado. O objetivo era aparentemente simples: pintar as paredes como se estivessem desgastadas pela umidade. A autora narra como realizou essa transformação após consultar o ChatGPT para obter as técnicas necessárias. Entre as coisas que ela teve que fazer, estão várias demãos de tinta (para depois arrancar tudo), gesso e a remoção das camadas de tinta existentes com uma espátula.

No entanto, o que para ela foi uma vitória estética, batizada por alguns como a tendência da "parede de lixo", não demorou a gerar uma enxurrada de críticas. Os comentários dos usuários rapidamente se transformaram em indignação nas redes sociais. Mensagens como "romantizar a pobreza", "parede bonita com cogumelos" ou perguntas incisivas como "por que adotar símbolos ou costumes associados à pobreza sem assumir os custos reais de viver à margem da sociedade?" deixaram claro que imitar a precariedade estética é um privilégio reservado àqueles que não sofrem com a real precariedade econômica.

O que antes era considerado um problema doméstico – umidade, tinta descascando, mofo – tornou-se objeto de desejo estético. Segundo o site especializado Sipthestyle, "o que antes era considerado descuido, agora é celebrado como uma decisão de design ousada e intencional" em bares e casas de coquetéis. Essa estética, que o site chama de "tinta descascando e paredes envelhecidas", exala "história, profundidade e personalidade", criando uma "conexão instantânea com o passado" quando os clientes entram no espaço.

Mas isso não se restringe ao setor de hotelaria. O portal Hackrea, especializado em tendências de design, aponta que a principal novidade para 2026 é a transição de padrões visuais para texturas físicas. "As paredes de 2026 são repletas de textura", dizem, apontando para a ascensão de acabamentos como a pintura branca e o gesso, que buscam aquele visual "perfeitamente imperfeito" inspirado no wabi-sabi japonês, a arte de encontrar beleza na imperfeição.

Filosofia da ruptura: a ascensão do estilo "Raw"

Por trás dessa controvérsia, reside uma filosofia decorativa muito específica que vem sendo construída há anos: o estilo Raw, do inglês para “cru”. Essa tendência defende uma decoração orgânica que não teme as imperfeições, mas as abraça como sua marca registrada. A autenticidade é buscada por meio de materiais em seu estado mais natural, como madeira sem polimento, cerâmica irregular ou gesso exposto, criando ambientes que transmitem uma profunda sensação de calma e desconexão.

Para os especialistas, essa estética é uma rebelião consciente contra a ditadura da perfeição. O designer de interiores Juancho González destaca no El País que, ao deixar uma parede em seu estado original e bruto, ela "deixa de ser um pano de fundo para se tornar uma história". Num mundo saturado de imagens impecáveis, o desgaste confere personalidade e um toque rebelde, transformando superfícies em peças únicas que nos contam sobre a passagem do tempo e as experiências vividas.

A psicologia também desempenha um papel fundamental na nossa paixão pela imperfeição. Em espaços de lazer, como bares e bares de cocktails, a estética da tinta descascada evoca subconscientemente uma sensação de conforto e familiaridade. Sentimos uma ligação instantânea ao passado; um lugar com paredes envelhecidas parece ter mais "alma", ser mais enraizado e autêntico do que um espaço recém-construído e asséptico.

Não é de surpreender que o mercado tenha se aproveitado rapidamente dessa nostalgia pela decadência, comercializando-a em massa. Marcas de decoração vendem hoje papéis de parede que imitam perfeitamente texturas desgastadas. É possível comprar rolos de papel sintético lavável que simulam concreto rachado, gesso antigo ou metal enferrujado, permitindo que os consumidores instalem a "passagem do tempo" em suas salas de estar em questão de minutos.

O luxo de simular umidade

É aqui que o debate se torna incômodo. Porque não se trata apenas de gosto estético. É, como aponta o El País, uma "crítica contundente à superficialidade de valorizar o aspecto da precariedade em uma casa". A pergunta feita por esse comentário — "Por que os habitantes de Palermo adotam símbolos ou costumes associados à pobreza sem assumir os custos reais de viver à margem da sociedade?" — ressoa como uma denúncia de classe.

Porque vale lembrar o que a umidade realmente significa em uma casa. Ela não é um ornamento. Como alertado num relatório da Vanitatis: "A umidade nas paredes é um dos problemas domésticos mais frequentes e incômodos. Além de deixar a casa feia com manchas, lascas ou cheiro de mofo, também pode afetar a saúde, principalmente de pessoas com alergias ou problemas respiratórios."

A empresa de ventilação Soler & Palau aprofunda as consequências para a saúde: "Os esporos de mofo presentes no ar são inalados pela respiração, causando congestão nasal, chiado no peito e coceira. Pessoas asmáticas podem apresentar reações mais intensas." Além disso, apontam que "cientistas encontraram uma relação direta entre o excesso de umidade e o agravamento dos sintomas de doenças reumáticas e ósseas". Em resumo, não se trata apenas de uma questão estética, mas de um risco real para grupos vulneráveis ​​como bebês, crianças, idosos e pessoas imunocomprometidas.

Por sua vez, a Organização de Consumidores e Usuários (OCU) insiste na importância de prevenir e combater a umidade pela raiz. Segundo seus dados, "cerca de 38% dos acidentes domésticos estão relacionados à água". Além disso, ele alerta que ignorar os primeiros sinais pode ser caro: "Se a umidade se tornar crônica, pode exigir obras complexas e dispendiosas, além de favorecer o aparecimento de mofo e problemas respiratórios". A recomendação é tão pouco glamorosa quanto prática: ventile a casa diariamente, reduza a produção de vapor, verifique as calhas e, se aparecer mofo, limpe com uma mistura de água e água sanitária. Sem romantizar a situação.

Do lar idílico ao vazio asséptico e, daí, à ruína da Geração Z

Para entender como chegamos a esse ponto, vale a pena olhar para trás e observar os altos e baixos do design de interiores. Durante os anos 90 e início dos anos 2000, a referência absoluta em decoração era a diretora Nancy Meyers. Em filmes como Quando Você Menos Espera ou O Amor Não Tira Férias, como explica Erin Carlson, ela criou cenários "acolhedores, serenos e convidativos, como os de uma avó litorânea com um toque do interior da França". Era um estilo com muitas camadas, quase maximalista: cozinhas transbordando de panelas de cobre, cestos, roupa de cama fresca e o cheiro de pão acabado de fazer. Era o ideal de uma casa profundamente habitada, mas vista através de um prisma de riqueza imaculada, tradicional e perfeita.

O pêndulo oscilou radicalmente na década de 2010. Fugindo dessa sobrecarga clássica, esvaziamos as casas e mergulhamos na esterilidade. Chegou o "Cinza Millennial" e o que o jornalista Kyle Chayka batizou no The Guardian de AirSpace. "Vá ao Shoreditch Grind em Londres. É um café com mesas de madeira rústica... Depois, vá ao Takk em Manchester. É uma cafeteria com móveis de madeira reciclada. Você pode nem perceber que são espaços diferentes", denunciou ele. Esse estilo hipster esvaziou os espaços de personalidade para criar interiores clonados, frios e padronizados, transformando o mundo numa sucessão de apartamentos turísticos e escritórios de coworking sem alma.

Hoje, esse AirSpace padronizado está obsoleto, como aponta o jornalista Colin Nagy em The Supersonic. Queremos sentir novamente a casa habitada, aconchegante e repleta de texturas (essa nostalgia pela casa vivida de Meyers), mas a Geração Z rejeita a perfeição burguesa e impecável de seus filmes. Eles buscam uma "estética caótica", crua e com atrito. Querem que as casas contem histórias, mas com um ar industrial e decadente. A parede de lixo, essa imitação amadora de umidade, é a manifestação desse choque: recuperar a sensação de que a vida passou ali, mas trocar o luxo impecável dos Hamptons pelo romantismo do desgaste.

O portal de interiores Architectural Digest, em sua análise das tendências para 2026, confirma isso: as casas não são mais projetadas para impressionar à primeira vista, mas para ressoar com o tempo. Voltamos à recarga, mas sob o conceito de "desordem suave" ou "estilo colecionado ao longo do tempo". Agora, busca-se a "imperfeição artística", onde "as paredes podem exibir pinturas expressivas, os móveis mostram sinais de pátina e os acabamentos são propositalmente táteis". A casa está cheia de coisas novamente, mas desta vez, sem medo de mostrar suas cicatrizes.

Minimalismo acolhedor e tátil

Essa mudança de paradigma está definitivamente enterrando o "cinza millennial" e o bege sem graça. Os designers estão abandonando os tons frios e estéreis que dominavam o mercado imobiliário para abraçar o minimalismo acolhedor. Cores com utilidade emocional e paletas inspiradas na terra agora triunfam: terracota intenso, ocres, amarelos manteiga e rosas suaves, que proporcionam uma base sólida, alegre e relaxante sem sobrecarregar os olhos.

Em termos de materiais, as previsões de design para 2026 apontam para uma transição massiva para interiores "hápticos", onde a textura física destrona o padrão visual impresso. Paredes que convidam ao toque são a grande tendência, utilizando argamassa de cal (calca), painéis canelados, microcimento e papéis de parede com relevos 3D hiper-realistas. O objetivo é absorver a luz e criar atmosferas envolventes e imperfeitas, abraçando, em certa medida, a filosofia japonesa wabi-sabi.

Finalmente, as casas de catálogo impecáveis ​​deram lugar ao conceito de "desordem suave" ou "maximalismo leve". As casas de hoje apostam na simplicidade, mas exigem ser verdadeiramente habitadas. O acúmulo intencional e cuidadoso de objetos com significado (cerâmicas, livros, lembranças de viagem) é incentivado, resultando em lares que refletem a memória e a personalidade de seus habitantes, priorizando o conforto vivido em detrimento da rigidez de um showroom imaculado.

O privilégio de escolher a própria ruína

Volto ao vídeo daquela garota argentina, animada diante de sua parede recém-danificada. Volto à minha própria parede, a da pandemia, com suas lascas acidentais e a camada de tinta barata por cima. O que realmente buscamos quando queremos que nossas paredes pareçam antigas?

Talvez, como apontou Juancho González no El País, estejamos buscando "uma história". Em um mundo de superfícies perfeitas, plástico e acabamentos industriais, ansiamos por história, pela passagem do tempo, pela autenticidade. Queremos que nossas casas pareçam ter sido habitadas, mesmo que seja uma ilusão. Queremos a solidez do antigo sem seus inconvenientes: infiltrações, mofo, frio.

Mas há um limite, e esse limite é o que separa o privilégio da necessidade. Como escreveu aquele comentarista: "Morando há 20 anos em uma casa com umidade, descobri que é estético". Para quem já sofreu com a umidade de verdade – o cheiro de mofo, as manchas que reaparecem mesmo com pintura, o risco para a saúde de crianças ou idosos – ver como isso se torna uma tendência decorativa soa irônico. É o luxo de quem pode escolher sofrer apenas com a estética, sem as consequências.

A designer Clara D'Aussy expressou isso claramente no El País: "Há um certo ar de luta contra a perfeição, de que 'ruga é bonito' também se aplica ao design de interiores. Embora isso não signifique que todos tenham a mesma apreciação pelo desgaste e pela história". No fim das contas, a controvérsia da parede com umidade não diz respeito à tinta, mas à identidade. Do privilégio de poder escolher qual história queremos que nossa casa conte. Alguns podem se dar ao luxo de comprar essa história através de um reboco de cal feito à mão ou um papel de parede que imita mofo. Outros, infelizmente, não têm escolha a não ser conviver com ela. O debate, como tinta descascando, fica exposto: imperfeito, desconfortável e profundamente humano.

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