O Everest pode ser o teto do mundo, mas há muito tempo deixou de ser o lugar remoto e isolado que Edmund Hollary e Tenzing Norgay, os primeiros a alcançar seu cume gelado, encontraram há sete décadas. A melhor prova disso veio pouco antes da pandemia, de Nirmal Purja, autor de uma das fotografias mais famosas (e impressionantes) da montanha: ela mostra uma fila extremamente longa de dezenas e dezenas de turistas subindo em fila indiana em direção ao cume, como se estivessem na fila para entrar no Louvre ou embarcar em um cruzeiro.
Não é nenhuma surpresa que o Everest tenha se tornado um monstro turístico. O curioso, porém, é que haja pessoas (supostamente) infringindo a lei para lucrar com essa demanda e fraudar seguradoras.
Enorme parque temático
Seria de se esperar que o lugar mais alto do planeta fosse um local inóspito, reservado para os habitantes locais e os aventureiros mais intrépidos. Talvez fosse esse o caso na década de 1950, quando Hollary e Norgay escalaram mais de 8,8 mil metros para chegar ao seu cume. Hoje, não.
A fotografia que Purja tirou em 2019 é simplesmente a confirmação gráfica de um fenômeno que pode ser medido em números… e até em fezes: o Everest é um poderoso ímã turístico, visitado por centenas e centenas de alpinistas todos os anos, deixando para trás milhões de dólares e toneladas de lixo.
Onde há turismo…
Há negócios, é claro. Essa verdade universal se aplica tanto a Amsterdã, Florença ou Barcelona quanto ao remoto Himalaia, que nas últimas décadas viu surgir uma indústria próspera, dedicada a atender aqueles que visitam o Everest.
De acordo com o Conselho Mundial de Viagens e Turismo (WTC), somente em 2023, o setor de turismo do Nepal gerou receitas de aproximadamente US$ 2,5 bilhões e sustentou centenas de milhares de empregos, diretos e indiretos. Até mesmo o Nepal cogitou aumentar em 40% as taxas cobradas dos alpinistas, uma fonte de renda que, entre outras coisas, ajuda na limpeza da região.
Qual é o problema?
Além do impacto ambiental que essa superlotação causa na cordilheira, não há problema algum com agências de viagens, sherpas, empresas de transporte, hotéis e outros negócios voltados para o turismo nepalês tentando lucrar. Escalar o Everest não é barato, mas, no fim das contas, quem quer pagar por isso, paga. O problema é que nem todos esses profissionais respeitam a lei quando se trata de encontrar maneiras de ganhar dinheiro. Além disso, alguns não têm escrúpulos em enganar, falsificar e cometer fraudes milionárias.
Alpinismo e golpes
A notícia foi divulgada inicialmente há alguns dias pelo The Kathmandu Post, um dos principais jornais em inglês do Nepal. O Departamento Central de Investigação (CIB) da Polícia Nepalesa descobriu uma rede dedicada a fraudar seguradoras que cobrem alpinistas no Himalaia. O modus operandi pode variar, mas a ideia é sempre a mesma: os supostos fraudadores realizam resgates fraudulentos para receber indenizações.
Pode parecer rudimentar, mas o golpe se aproveita de duas circunstâncias que favorecem os supostos fraudadores. Primeiro, a rapidez é fundamental em resgates, não havendo tempo para esperar pela aprovação de especialistas. Segundo, as seguradoras enganadas geralmente têm sede a milhares de quilômetros de distância (na Europa), o que dificulta o conhecimento do que está acontecendo no local.
Um objetivo, dois métodos
O CIB identificou dois métodos de golpe. O primeiro é bastante simples e requer a participação do turista. Se um alpinista estiver exausto após dias (ou mesmo semanas) de caminhada e quiser evitar a viagem de volta ao acampamento base, seu guia pode oferecer uma solução conveniente e eticamente questionável: fingir estar doente para que a seguradora mobilize uma operação de resgate.
O segundo método é um pouco mais complexo, mas o resultado final é o mesmo. Guias ou hospedagens se aproveitam da falta de conhecimento do cliente para fazê-lo acreditar que os sintomas do mal da altitude (que geralmente se resolvem com repouso, hidratação e uma descida gradual) são, na verdade, sinais de que ele corre sério risco, até mesmo de morte. A chave é influenciar o alpinista o suficiente para que ele acabe solicitando um resgate de helicóptero fretado.
E onde está o lucro?
No custo da operação. Não se trata apenas de a empresa que presta o serviço cobrar da seguradora por um helicóptero que não era realmente necessário; trata-se de que, como aponta o Kathmandu Post, ela frequentemente consegue aumentar sua margem de lucro. Como? Transportando vários passageiros no mesmo voo e enviando faturas separadas para suas respectivas seguradoras. Na prática, isso significa que um único voo fretado de US$ 4 mil pode acabar gerando três solicitações de indenização separadas, totalizando US$ 12 mil.
Além disso, há supostos tratamentos hospitalares, mesmo quando o cliente em questão não precisava de assistência. Por exemplo, o jornal nepalês relata casos em que tratamentos foram solicitados para excursionistas que, na verdade, estavam na cafeteria. Nem todos os envolvidos nesse esquema participam necessariamente da fraude. O Post menciona manifestos de voo falsificados ou relatórios com assinaturas digitais de médicos completamente não relacionados.
Valor: US$ 20 milhões
No final de março, o CIB (Departamento de Investigação Criminal) indiciou 32 pessoas por esse tipo de crime, que, segundo a AFP, totalizou uma fraude de US$ 19,69 milhões. Pode parecer muito, mas os números da investigação do CIB são reveladores: entre 2022 e 2025, foram identificados 4.782 pacientes estrangeiros tratados em hospitais sob investigação. Destes, os inspetores acreditam que 171 correspondiam a simulações de evacuação.
Durante esse período, alguns centros de saúde receberam depósitos de milhões de dólares relacionados a esses serviços. Além disso, há os helicópteros.
Envenenamentos?
A investigação do CIB atraiu a atenção da imprensa mundial, embora as manchetes frequentemente se concentrem em outro suposto truque usado pelos golpistas: envenenar seus clientes durante a expedição para acelerar os resgates. Isso porque, em pelo menos um caso, sugere-se que a comida do cliente foi alterada para causar-lhe desconforto.
As autoridades nepalesas, no entanto, esclareceram rapidamente que, até o momento, nenhuma evidência foi encontrada para comprovar que qualquer alimento foi de fato adulterado com substâncias tóxicas. Na verdade, elas se referem aos relatos como "extremamente enganosos". A publicação especializada Climbing, que teve acesso ao relatório original de 784 páginas, explica que, embora as fraudes sejam "bem documentadas", os supostos envenenamentos estão relacionados a "rumores".
O problema
Detalhamentos à parte, o grande problema, como aponta o Kathmandu Post, é que as suspeitas de resgates fraudulentos estão longe de ser novas. Na verdade, o mesmo veículo de comunicação noticiou o assunto em 2018 e 2019, o que levou o governo a criar uma comissão de investigação. As últimas notícias sobre a alegada fraude mostram que o problema não foi resolvido, o que já gerou desconfiança entre alguns grupos de montanhismo.
Agora, o Ministério da Cultura do Nepal promete uma repressão: "O governo está tomando medidas para garantir que quaisquer práticas fraudulentas sejam investigadas e punidas imediatamente. Devemos tomar medidas corretivas contra qualquer irregularidade." A galinha dos ovos de ouro está em risco.
Imagens | Mário Simões (Flickr), Statista e Munu Nepal (Flickr)
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