Há 2 mil anos, um homem tentou fugir de uma erupção vulcânica levando as ferramentas da própria profissão

Novo estudo com raios X e tomografias revelou objetos escondidos em um molde humano do Jardim dos Fugitivos, uma das áreas mais marcantes das ruínas de Pompeia

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Carolina Rodrigues

Redatora
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Imagine a cena. Você está em casa, em um dia aparentemente comum, quando começa a ouvir gritos na rua. Ao olhar pela janela, vê pessoas correndo em desespero. Ao longe, uma coluna de cinzas e rochas incandescentes sobe de um vulcão que todos acreditavam estar adormecido.

Foi algo parecido que os moradores de Pompeia viveram há quase 2 mil anos, quando o Vesúvio entrou em erupção e cobriu a cidade romana com cinzas, pedras vulcânicas e material piroclástico.

Agora, pesquisadores acreditam ter descoberto o que uma das vítimas levou ao tentar escapar: uma maleta médica.

Quando o Vesúvio despertou

As ruínas de Pompeia foram redescobertas há séculos e seguem sendo estudadas por arqueólogos do mundo todo. O principal objetivo dessas investigações é entender o que aconteceu no dia da erupção do Vesúvio, em 79 d.C., data tradicionalmente associada a 24 de agosto, embora algumas pesquisas indiquem que o desastre possa ter ocorrido em outubro.

Naquele episódio, Pompeia e outras localidades próximas, como Herculano, Estábia e Oplontis, foram soterradas por uma camada de cinzas. Mesmo depois de tantas pesquisas, a cidade continua revelando detalhes inesperados sobre os últimos instantes de seus habitantes.

O Jardim dos Fugitivos

Um dos pontos mais conhecidos de Pompeia é o Orto dei Fuggiaschi, ou Jardim dos Fugitivos. No local, foram encontrados os restos de cerca de 13 vítimas da erupção.

A força dessas imagens vem do método desenvolvido pelo arqueólogo Giuseppe Fiorelli. Ele percebeu que, no interior da cinza endurecida, havia espaços vazios deixados pela decomposição dos corpos. Ao preencher esses espaços com gesso, foi possível recriar a posição em que as vítimas morreram.

O resultado é uma das cenas mais marcantes de Pompeia: homens, mulheres e crianças registrados no momento em que tentavam se proteger da chuva de cinzas, pedras vulcânicas e gases mortais.

Quem eram essas pessoas?

Durante muito tempo, os arqueólogos souberam onde essas vítimas morreram e tiveram uma boa ideia de como foram seus últimos instantes. Mas outra pergunta sempre permaneceu aberta: quem eram aquelas pessoas?

O que faziam? O que tentaram salvar ao deixar suas casas? Quais objetos consideravam importantes o suficiente para carregar em meio ao caos?

Em alguns casos, as vítimas foram encontradas com joias e moedas, o que sugere a tentativa de preservar bens valiosos, talvez para recomeçar a vida em outro lugar. Agora, uma nova análise revelou uma pista ainda mais específica sobre uma das pessoas que morreram no Jardim dos Fugitivos.

Um homem agarrado ao próprio kit médico

Mais de 70 anos depois das primeiras escavações na área, pesquisadores usaram raios X e tomografias computadorizadas para analisar um objeto escondido dentro do gesso de um dos moldes humanos encontrados nos estudos de Amedeo Maiuri, em 1961.

O objeto era uma pequena caixa. Depois dos exames, os arqueólogos identificaram peças metálicas e instrumentos compatíveis com um antigo kit médico romano.

Entre os itens analisados estavam uma placa de ardósia, que pode ter sido usada para preparar substâncias medicinais ou cosméticas, e instrumentos cirúrgicos. Os exames também revelaram uma bolsa de tecido com moedas de bronze e prata, além de um mecanismo com roda dentada que servia para fechar a caixa.

Um detalhe importante é que todo o estudo foi realizado sem colocar o molde em risco.

O último caminho de um médico?

A principal hipótese dos pesquisadores é que o homem encontrado ao lado do maletim fosse um médico. Para o Parque Arqueológico de Pompeia, os instrumentos localizados dentro da caixa oferecem uma pista rara sobre a profissão da vítima.

A descoberta sugere que, ao tentar fugir da erupção, ele levou consigo algumas ferramentas de trabalho. Talvez porque pretendesse reconstruir a vida em outro lugar usando a própria profissão. Talvez também porque imaginasse que poderia ajudar outras pessoas durante a fuga.

Gabriel Zuchtriegel, diretor do Parque Arqueológico de Pompeia, destacou que, há 2 mil anos, já existiam pessoas que não deixavam de ser médicas fora do horário de atendimento. Mesmo diante da erupção, esse homem teria carregado os próprios instrumentos.

Uma descoberta pequena, mas cheia de significado

O maletim não muda a história da destruição de Pompeia. Mas ajuda a dar rosto e contexto a uma das vítimas.

Em meio ao pânico, enquanto muitos tentavam salvar dinheiro, joias ou objetos pessoais, esse homem pode ter escolhido carregar aquilo que definia sua vida: suas ferramentas de trabalho.

É justamente esse detalhe que torna a descoberta tão impressionante. Quase 2 mil anos depois, um pequeno estojo escondido em um molde de gesso ajuda a reconstruir não apenas uma morte, mas uma profissão, uma rotina e talvez até uma última intenção de cuidado.


Texto traduzido e adaptado do Xataka Espanha.

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