A poucos quilômetros da costa francesa existe um lugar onde não existem carros, não há aeroportos e uma instituição criada no século XVI ainda sobrevive. Trata-se de Sark, uma pequena ilha do Canal da Mancha que preserva uma organização política antiga e que, graças à quase ausência de poluição luminosa, também abriga um dos céus mais escuros da Europa.
Com cerca de 500 habitantes e apenas 5 km² de área, Sark faz parte das Ilhas do Canal, mas não faz parte oficialmente do Reino Unido nem da União Europeia. O território é uma Dependência da Coroa Britânica, ligada diretamente ao monarca britânico, mas com autonomia administrativa.
Sistema ‘feudal’ criado no século XVI continua em vigor em Sark
A relação de Sark com a Coroa inglesa começou em 1565, quando a rainha Elizabeth I entregou o território à Helier de Carteret. Em troca, ele deveria garantir que a ilha permanecesse povoada e fosse capaz de se defender de possíveis invasões francesas.
Assim, as terras foram divididas em 40 propriedades agrícolas, conhecidas como tenements. Helier as distribuiu entre famílias que se comprometeram a cultivar a terra e fornecer homens armados para defender a ilha quando necessário.
O arranjo lembrava o sistema feudal da Idade Média, em que a posse da terra estava vinculada a obrigações e lealdade ao senhor local.
Durante séculos, o Seigneur exerceu poderes consideráveis, incluindo a nomeação de autoridades e a administração das terras. O parlamento local, conhecido como Chief Pleas, também era composto principalmente pelos proprietários dessas 40 propriedades originais, tornando Sark uma das últimas sociedades europeias organizadas segundo princípios feudais.
Esse modelo começou a mudar apenas no século XXI. Pressões por reformas democráticas levaram à realização de eleições diretas e à redução dos privilégios hereditários. Ainda assim, o cargo de Seigneur continua existindo e algumas tradições históricas foram preservadas, motivo pelo qual Sark é frequentemente descrita como o último remanescente do feudalismo na Europa.
Sem carros, sem aeroporto e um ritmo de vida diferente
A modernização chegou lentamente à ilha. Não existem aeroportos e o acesso é feito apenas por barco, geralmente a partir da vizinha Guernsey. Veículos particulares são proibidos, e os deslocamentos acontecem principalmente a pé, de bicicleta, em tratores adaptados ou em charretes puxadas por cavalos.
Ausência de poluição luminosa transformou Sark em referência para observação das estrelas
Graças à ausência de iluminação artificial excessiva, Sark recebeu em 2011 da International Dark-Sky Association o título de primeira "Dark Sky Island" do mundo. Em noites sem nuvens, é possível observar a Via Láctea e milhares de estrelas a olho nu, algo cada vez
Imagens: Shutterstock | Foto de capa: Reprodução/Isle of Sark
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