O governo Trump gosta de proibir coisas. Agora, parece que querem fazer o mesmo com os modelos de IA de empresas chinesas, que estão se tornando cada vez mais competitivos. O lançamento do Kimi K3 parece ter desencadeado esse novo plano, mas há um problema: banir esses modelos é uma péssima ideia.
Isso já vem se arrastando há algum tempo
No ano passado, o Departamento de Comércio dos EUA considerou adicionar várias startups chinesas de IA, incluindo a DeepSeek, à sua infame Lista de Entidades. O objetivo era limitar o acesso dessas empresas a hardware e tecnologia sensíveis desenvolvidos nos EUA.
Empresas em risco por usarem modelos chineses
Recentemente, chegou-se a discutir a elaboração de uma ordem executiva para responsabilizar empresas americanas por violações de segurança causadas pelo uso de modelos chineses em seus sistemas. O objetivo sempre foi o mesmo: desencorajar ao máximo o uso desses modelos chineses.
Por que empresas americanas usam modelos chineses?
O motivo é simples: modelos de ponderação de código aberto chineses, como o DeepSeek V4 ou o Kimi K3, permitem que as empresas os baixem e executem em seus próprios servidores, reduzindo drasticamente os custos de inferência e mantendo todos os dados privados. O próprio CEO da Coinbase, Brian Armstrong, indicou que eles usam modelos como o GLM-5.2 e o Kimi K2.7 em produção local, o que permitiu reduzir pela metade seus gastos totais com IA, apesar do aumento no consumo de tokens.
Duopólios sem concorrência
David Sacks, assessor da Casa Branca para IA, publicou uma mensagem no X no domingo alertando sobre os riscos do uso desses modelos: "Estamos em um ponto de virada crítico na política de IA. Os principais laboratórios com modelos proprietários, que já constituem um duopólio em termos de receita proveniente de seus modelos de IA, querem que o governo elimine a concorrência de código aberto." Uma reportagem da Axios revela que tanto a OpenAI quanto a Anthropic podem, de fato, ter alguma responsabilidade por pressionar por essa proibição.
Isso pode ser um tiro no próprio pé para os EUA
Uma análise publicada no The Washington Post levanta um argumento que vale a pena considerar. Tratar modelos abertos como uma ameaça à segurança é confundir concorrência com um perigo que precisa ser contido. O artigo relembra como a Sears não pôde banir o Walmart, nem a IBM a Compaq ou a Dell, nem as companhias aéreas tradicionais vetarem as empresas que reduziram os preços. Em cada caso, aconteceu a mesma coisa: uma empresa estabelecida encontrou uma concorrente que estava reduzindo custos, então só lhe restavam duas opções: competir ou perder.
Linux e o código aberto já mostraram o caminho
Como afirma o autor do artigo, o código aberto eliminou as barreiras do software comercial, que prendiam os usuários a uma alternativa da qual não podiam escapar. Isso não fez com que essas empresas desaparecessem; pelo contrário, estimulou a concorrência. Red Hat, MongoDB, Android e Kubernetes mostraram que "distribuir" o produto gratuitamente não era incompatível com a construção de negócios lucrativos em torno dele.
Perigo: duopólio
Esta análise demonstra que quase todas as empresas preferem um cenário em que os modelos abertos permaneçam disponíveis. As únicas com interesse direto em manter modelos fechados são justamente a Anthropic e a OpenAI, porque seus negócios dependem precisamente da ausência de alternativas gratuitas (ou muito baratas) e competitivas.
Se elas são tão boas, por que têm medo?
A ironia é que, se a Anthropic e a OpenAI realmente se gabam de estar tão à frente das empresas chinesas de IA, não deveriam se preocupar com a concorrência. Nem deveriam precisar pedir ao governo que controle a concorrência. As leis antitruste dos EUA existem justamente para impedir que um mercado caia nas mãos de uma ou duas empresas. Tal veto permitiria que eles criassem esse monopólio (ou duopólio) para aprisionar usuários e empresas dentro dele.
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