Trabalhadores autônomos são pagos para filmar enquanto vivem seu cotidiano — mas você já deve saber o motivo

Você treinaria quem vai te substituir para o "bem maior"?

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Vika Rosa

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Vika Rosa

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Jornalista com mais de 5 anos de experiência, cobrindo os mais diversos temas. Apaixonada por ciência, tecnologia e games.


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Uma nova tendência da economia de bicos está surgindo em cidades como Los Angeles: trabalhadores estão sendo pagos para filmar suas atividades cotidianas, como cozinhar, limpar a casa ou lavar a louça. O objetivo é simples, mas ambicioso — treinar a próxima geração de robôs humanoides.

A iniciativa faz parte de um campo emergente da inteligência artificial chamado “IA física”, focado em ensinar máquinas a interagir com o mundo real da mesma forma que os humanos. Diferentemente de chatbots, que aprendem com grandes volumes de texto disponíveis na internet, robôs precisam de algo muito mais raro: exemplos detalhados de movimentos humanos reais.

Para preencher essa lacuna, empresas de tecnologia estão pagando pessoas comuns para registrar suas tarefas diárias com câmeras presas à cabeça, ao pulso ou ao corpo. O material capturado serve como base para treinar algoritmos que tentam replicar movimentos humanos.

Do cotidiano doméstico ao treinamento de robôs

Uma das empresas envolvidas nesse tipo de projeto é a Instawork, conhecida por recrutar trabalhadores temporários para estádios, hotéis e restaurantes. Agora, a companhia também distribui kits com suportes para celulares e faixas elásticas para gravação em primeira pessoa.

Cada participante grava cerca de duas horas de vídeo realizando tarefas domésticas, recebendo aproximadamente US$ 80 pelo material.

Para muitos trabalhadores da gig economy, a atividade parece simples. Salvador Arciga, que já trabalhou entregando comida e instalando decorações de Natal, resume a experiência de forma direta: ele precisa fazer tarefas domésticas de qualquer forma, então ser pago para isso parece um bônus inesperado.

Nos bastidores, porém, existe uma corrida tecnológica de alto valor. Empresas como Tesla, Google, Figure AI e Dyna Robotics disputam o desenvolvimento de robôs capazes de realizar tarefas complexas no mundo real. Estimativas do banco Goldman Sachs apontam que o mercado global de robôs humanoides pode chegar a US$ 38 bilhões até 2035.

Para que esses robôs aprendam a agir naturalmente, não basta analisar imagens estáticas. É necessário capturar dados sobre postura, força de preensão, equilíbrio e até decisões improvisadas, como interromper uma tarefa para fechar uma torneira ou atender outra necessidade.

O dilema: treinar máquinas que podem substituir trabalhadores

Empresas especializadas em coleta de dados já mobilizam milhares de pessoas para essa tarefa. A startup Sunain, por exemplo, conta com mais de 1.400 colaboradores apenas em Los Angeles e coordena projetos semelhantes em países como Turquia, Singapura, Canadá e Malásia.

No total, cerca de 25 mil contribuidores em 30 países participam de atividades que envolvem gravações de voz, vídeo e texto para treinar sistemas de IA.

Mesmo assim, o crescimento desse tipo de trabalho também levanta questionamentos. Críticos alertam que muitos desses trabalhadores estão ajudando a desenvolver tecnologias que um dia poderão automatizar seus próprios empregos.

Para muitos participantes, porém, a preocupação parece distante. Alguns chegam a ganhar quantias consideráveis apenas registrando tarefas comuns do dia a dia. Um casal que participa do projeto, por exemplo, conseguiu juntar US$ 1.200 filmando atividades domésticas.

Enquanto o debate sobre o futuro do trabalho continua, uma coisa já parece clara: os robôs do futuro podem aprender a se mover como humanos apenas observando humanos vivendo suas rotinas mais simples.

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