Não bastasse o problema da água e da energia, agora os centros de dados também estão ficando sem cobre

O ponto de equilíbrio para desenvolver novas minas já ultrapassa 13.000 dólares por tonelada

Cobre nos centros de dados / Imagem: Unsplash
Sem comentários Facebook Twitter Flipboard E-mail
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator
victor-bianchin

Victor Bianchin

Redator

Victor Bianchin é jornalista.

1533 publicaciones de Victor Bianchin

Este começo de ano abalou os alicerces da economia global. Entre a captura de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos e uma volatilidade geopolítica sem precedentes, o cobre — um dos minerais-chave para o futuro energético — disparou até um máximo histórico, superando os 13.000 dólares por tonelada.

Essa escalada não é uma flutuação passageira. Como detalha a Bloomberg, estamos diante de uma “tempestade perfeita”, em que um aperto severo da oferta se combina com um apetite por risco desenfreado. O mercado entrou em uma fase de backwardation (quando o preço imediato é maior que o futuro), um sinal técnico que, segundo analistas, aponta para uma escassez física real e desesperada.

Embora a construção civil e a energia sempre tenham sido os pilares do consumo de cobre, a inteligência artificial mudou a escala do problema. Segundo uma análise do empresário Frank Holmes, um centro de dados convencional consome entre 5.000 e 15.000 toneladas do metal. Já um centro de “hiperescala” — necessário para treinar modelos de IA — pode exigir até 50.000 toneladas por instalação.

Além disso, destaca-se uma realidade incômoda para 2030, ano em que os centros de dados podem devorar mais de meio milhão de toneladas de cobre por ano. É aí que reside o grande problema, já que a demanda das empresas de tecnologia é absolutamente inelástica. Como explica Holmes, para os gigantes do Vale do Silício, tanto faz o cobre custar 10.000 ou 20.000 dólares, porque o metal representa menos de 0,5% do custo total de um projeto de IA. Eles vão pagar o que for preciso, esvaziando os estoques e deixando o restante das indústrias (construção, eletrodomésticos, setor automotivo) sem fornecimento.

Uma oferta em declínio

Enquanto a demanda dispara, a produção está em crise. Segundo reportagem do Financial Times, o preço subiu quase um terço desde outubro, impulsionado por interrupções em minas-chave como o complexo Grasberg, na Indonésia. A isso se soma a greve de Mantoverde, no Chile, que foi o estopim final. Embora responda por apenas 0,5% da produção mundial, seu fechamento gradual lembrou ao mercado que já não existem mais “colchões” de segurança.

Como aponta a Reuters, o ponto de equilíbrio para desenvolver novas minas já supera os 13.000 dólares por tonelada. Sem preços recordes, não há incentivo para escavar. Analistas do Citi estimam um déficit de 308.000 toneladas para este ano, enquanto o ING Group projeta que, até 2026, a lacuna chegará a 600.000 toneladas.

O tabuleiro mundial mostra uma fratura perigosa. A China está em posição de vantagem porque, embora detenha apenas 4% das reservas mundiais, controla 49% do refino global. Pequim está comprando concentrados do Chile e sucata dos EUA para processá-los e devolvê-los ao mercado como produtos acabados. Quem controla o refino controla a transição tecnológica.

Do outro lado, o governo de Donald Trump introduziu o caos com as tarifas. Segundo a Bloomberg, o temor de impostos iminentes provocou um “estoque desarticulado”. Os armazéns dos EUA estão em níveis recordes, com 450.000 toneladas, enquanto, nas bolsas de Londres e Xangai, os estoques despencaram mais de 55%. O cobre está no lugar errado para o resto do mundo.

O “Efeito Venezuela”

A recente captura de Nicolás Maduro por forças dos EUA acrescentou uma camada de incerteza geopolítica. Embora a atenção de Trump tenha se concentrado no petróleo, o CSIS (Center for Strategic and International Studies) questiona se a Venezuela é um alvo por causa de minerais críticos.

O país possui reservas potenciais de ouro, coltan e bauxita. No entanto, como explica a especialista Luisa Palacios, o setor minerador venezuelano está devastado pela ilegalidade e pela falta de investimento. O CSIS alerta que, apesar do atual controle estadunidense, a “sobrecarga legal” das expropriações passadas e o estado da infraestrutura impedirão que o capital ocidental reconstrua a indústria de forma imediata. Ainda assim, para o mercado do cobre, a tomada da Venezuela é a mensagem definitiva: Washington passou à ação direta e está disposto a garantir à força o fornecimento de recursos estratégicos.

A indústria enfrenta uma realidade física incontornável. O tempo médio para colocar em operação uma nova mina de cobre é de 17 a 19 anos, portanto não há uma solução rápida que consiga responder ao crescimento exponencial da IA nos próximos dois anos.

Diante disso, as empresas buscam alternativas. A Glencore e a Schneider Electric estão impulsionando a “circularidade do cobre” por meio da reciclagem. Por sua vez, a Agência Internacional de Energia sugere o uso de alumínio em aplicações menos críticas, embora sua eficiência seja menor. Outras tentativas são mais exóticas, como os centros de dados submarinos que a China está testando e instalações em cavernas subterrâneas para economizar refrigeração — embora a necessidade de cabos de cobre continue sendo a mesma.

A situação é curiosa. No século da computação quântica, o destino da economia global depende da capacidade de alguns mineradores no Chile ou na Indonésia de extrair metal de rochas cada vez mais pobres. A “nuvem”, por mais etérea que pareça, está presa à terra por um cabo de cobre.

Como aponta o analista da Benchmark, Albert Mackenzie, é possível que a especulação tenha inflado os preços, mas a tendência de fundo é inquestionável. Sem cobre, a transição verde é interrompida e a inteligência artificial fica sem “corpo”. O futuro digital, em última instância, continua sendo analógico e de cor avermelhada.

Imagem | Unsplash e Unsplash

Este texto foi traduzido/adaptado do site Xataka Espanha.


Inicio